Café Literário: A lei seca


A fachada da casa não passava de um pequeno portão. Jonas destrancou o cadeado e entrou para debaixo das telhas de cerâmica do quintal.   O calor da tarde molhava de suor as roupas do corpo. 

A porta da sala estava aberta. Ele tirou os sapatos, pisando nas meias de seda úmidas, antes de seguir adiante. Primeiro conferiu os galões d’água para o banho. Estavam vazios. Depois ganhou o quarto e trocou as roupas do trabalho, calçando um chinelo.

Em silêncio, saiu para o quintal, onde encontrou a sua avó sentada à cadeira de balanço. Ela olhava atentamente para cima. O céu exibia a mesma aparência controversa dos últimos seis meses, com uma única nuvem escurecida, que nem chovia nem clareava.

- A seca levou de mim o seu tio na minha terra. – falou a avó, lentamente – Agora veio me buscar.

Jonas não levou a sério. Soltando um bufo de cansaço, avisou:

- Vou buscar água e já volto.

 Nos fundos da casa, apanhou a carriola e encheu de galões vazios. Destrancando o portão outra vez, partiu para a caixa d’água pública, trazida para o bairro em medida de emergência da prefeitura.

No meio do caminho, o seu chinelo arrebentou. De pés descalços no chão de asfalto quente, prosseguiu até encontrar a fila do abastecimento.

Com a carriola estacionada, na espera pelo seu pouco de água, uma moça puxou assunto:

- O que será que chuva está esperando?

Na esquina, um urubu pousava no poste, fechando as suas asas pretas. Mas não havia gado magro para vigiar morrer. Apenas a gente da cidade sofrendo ao sol.
- Não sei – Jonas respondeu amigável.

De repente, a fila começou a se desfazer. A água havia acabado. Jonas soltou um palavrão e tomou o caminho de volta, com a idéia de passar no supermercado. Precisou deixar a carriola sozinha no estacionamento. 

Na sua cesta colocou o máximo possível de garrafas d’água. Elas estavam acabando também. A fila do caixa seguia gigante, cheia de gente comprando a mesma coisa. Como brinde, a atendente lhe deu um regulador de torneira, para evitar o desperdício.

Já estava escuro quando Jonas retornou à rua. Próximo à Igreja, uma procissão erguia para o alto Nossa Senhora Aparecida. Ele benzeu o corpo, pensando se a avó havia se esquecido de participar. 

Logo atravessava o portão de casa. Deixou a carriola no quintal, cheia de galões vazios e entrou para a sala com as garrafas d’água nos braços. A televisão estava ligada.

- Vó? – chamou, indo depositar as compras na mesa da cozinha.

Ninguém respondeu. Ele deu uma olhada no quintal. A porta do banheiro estava aberta. Então passou nos quartos. Ela estava deitada na cama.

- O que a Sra. tem? – perguntou.

Novamente, não houve resposta. Jonas se aproximou dela:

- Vó? 

Um vento úmido entrava pela janela. Ele olhou para o céu. Pela primeira vez, o tamanho da nuvem de chuva havia aumentado.

 - A seca veio me buscar – falou a sua avó com esforço. 

Em seguida, a cabeça dela afundou no travesseiro. As rugas ao redor das suas bochechas relaxaram e os seus olhos se fecharam. O estrondo de um trovão ecoou.

Jonas apanhou o pulso dela, sem batimentos. Rapidamente ligou para o pronto socorro, pedindo uma ambulância.

Começou a chover forte. Ele saiu para a parte descoberta da casa e ficou tomando a chuva gelada. As lágrimas quentes misturavam à água dos céus. Era o fim da seca na cidade. 

Ariel Alexandrino Ganassim
Ariel Alexandrino Ganassim, autor de artigos sobre a criatividade, publicados durante a sua passagem pela faculdade de psicologia na UNESP. Estréia o romance “A melodia das almas”.

Um comentário:

  1. Gostei Ariel... as cenas se formaram nítidas e o tema singelo e sensível.

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