Café Literário: Doze igualitários


Éramos praticamente todos iguais. Por dentro. Do lado de fora, diferenciávamos por um tom mais claro ou escuro. Alguns eram preferidos e queridinhos. Outros não. O branco, por exemplo, tinha uma longínqua vida. Mas era deprimido que só. Quase não tinha importância, era descartado, deixado de lado e muitas vezes nem chegava a ser utilizado. Solitário. Não tinha culpa por ser assim. Dava-se bem com todos os outros, criavam perfeitas combinações. Com os outros. Sozinho? Não. O preto era seu melhor amigo. Juntos, eram apelidados de café com leite, arroz com feijão, o bem e o mal. Contrastavam-se e chamavam a atenção. E era assim também com o azul, o verde e o vermelho.

Certa vez decidiu que não iria ficar submisso e que todas as vezes que os demais saíssem para passear, iria junto. Ah, se iria. Faria de tudo pra ser notado. Rolaria na mesa, cairia no chão, se sujaria. Não, nem tanto. Não perderia sua personalidade pra ficar à mostra dos outros. Mas, quem eram os outros? Aqueles que muitas vezes nem ligavam pro meu companheirismo e só precisavam de mim pra deixar tudo mais claro. Era triste. Era triste saber que perdi muitos amigos enquanto eu continuava aqui, intacto. Sim, claro, ganhei muitos outros. Quando os velhos partiam, misturavam-me aos novos. E sempre foi assim.

Até que um dia, tudo mudou. Era uma triste manhã de segunda-feira. Todos eles, os outros onze, juntaram-se ao meu redor e disseram que haviam descoberto uma nova brincadeira. Eu, como de costume, ficaria de fora, apenas observando. Ficaram todos lado a lado e  começaram a girar. Girar e rodar mais rapidamente. Cada vez mais. Meu coração então passou a bater mais rápido. Eu estava me vendo. Minha imagem estava espelhada na figura de meus amigos. Todos juntos, em perfeita sincronia, me fizeram acreditar que a união de todos eles resultaria em algo parecido a mim. 

Daquele dia em diante não mais permaneci sozinho. Estava sempre acompanhado de algum deles, os outros onze. E, agora, eu estava feliz. Não que eu nunca tenha sido. Mas o que realmente importa não é a cor que temos e sim o que fazemos fora de nossas caixas

Ailson Lovato
ailson_cl@hotmail.com

Ailson César Lovato mora em Castelo-ES e é estudante de Letras/Língua Portuguesa no Centro Universitário São Camilo-ES (Cachoeiro de Itapemirim). Participou de publicações de poesias em concursos escolares e publicou recentemente seu primeiro livro, “Agridoce”, uma coletânea de contos e crônicas. 

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