Café Literário: Different like Tolstói

Estamos no fim do inverno e, como se sabe, todos os dias nessa época são muito iguais - e eu dou graças a Deus por isso - e fora algumas adversidades que atravancam de vez em quando o meu caminho, me parece tudo muito bom.

Agora já estou mais conformado, deixei de lado os sonhos de algum romance, pois estou na casa dos quarenta, e já se faz o tempo de esquecer todos esses melindres juvenis. Nada de sexo. Prostitutas?! Nem pensar! Já é hora mesmo de mudar.

Estou indiferente à inveja quase doentia que sentia de meus semelhantes – daqueles sujeitos ordinários que conseguiram tudo aquilo que eu queria para mim –, e que tanto me abalava a alma. Estou tão leve. É bom parar de ranger os dentes.

Deixei de vez a bebida e a jogatina. E o bom cigarrinho, que tanto me animava os pulmões e a mente, abandonei-o; o amassei com o calcanhar até fazê-lo fundir-se com o paralelepípedo noturno.

Vejam só, estes são os bons sinais de uma mente ajuizada.

Hoje mesmo, acordei bem cedo, até mesmo antes de o galo da Dona Alzira cantar!

Minha mente está ocupada – não de bobagens e coisas alheias, como dantes –, cheia de bons princípios. Quase não me reconheço neste novo padrão.

Tomo meu café preto, e leio o jornal que peguei emprestado da porta do vizinho; uma fatia de pão dormido... Mmmm... Nada mal para começar um novo dia de serviço. 

Procuro meu terço, o enrolo no braço, e sigo pelas ruas ainda quase vazias. Ainda é cedo. Vejo uma ratazana lá, outra cá, aceleradas no meio-fio à cata de alguma comida. Porém, para mim, isso não é problema. Estive no meio de companhias piores.

Graças a Deus, livrei-me delas, e o que tanto me fascinava, já não me causa mais tanta alegria. 

Entendam-me como quiser: monge, beato, filósofo, misógino, louco, malandro, pois para mim pouco ou de nada vale sua opinião. Aprendi a ser assim. Diferente como Tolstói. E que beleza de figura ele era! Aquela barba longa, tão branquinha... Quem sabe me atrevo também a ser escritor. Só me falta um pouco de treino, e capricho nos versos e nas rimas, além de me atentar bastante para não errar com as vírgulas. O resto é consequência.

A fila para pegar o lotação já está enorme, tanto que consigo vê-la daqui, da ponta da esquina do bar do seu Alfredo. Acho que vou fingir que sou aleijado, para conseguir um bom lugar na janela, afinal, tenho que fazer meu número para assegurar minha roupa passada e engomada até a fábrica. Todos os grandes homens começaram assim - inclusive Gandhi, segundo ouvi dizer - e isso me inspira a continuar. E agora que já estou bem ajustado em meu assento confortável, é só seguir em frente, fechar os olhos, e sonhar.

Avelar Costa

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