Timbuktu – Beleza e Barbárie sob o “Jihad”



"E quando os meses sagrados tiverem passado, mate aqueles que somam outros deuses a Deus onde quer que os encontre; e os aprisione, assedie, e aguarde com emboscadas de toda espécie: mas caso eles prefiram se converter... então permita que sigam em seu caminho, pois Deus é Piedoso, Misericordioso. Se um daqueles que unem outros deuses a Deus solicitar-lhe asilo, conceda-lhe asilo, para que ele possa ouvir a Palavra de Deus, e permita que ele atinja um lugar seguro. Isso, por serem eles pessoas desprovidas de conhecimento". - Sura ix.5,6, Alcorão

Plagiando Bernardo de Carvalho (“Um Homem se Retira”, Blog do IMS, 17.12.2014), não sou a pessoa certa para escrever este texto. Não entendo nada de “guerra santa” = “jihad” e de terrorismo islâmico, apesar de diferenciar muito bem repressão de liberdade, intolerância de altruísmo.
Assim, depois de assistir “Timbuktu”, filme do diretor e roteirista mauritano Abderrahmane Sissako, não resisti a escrever sobre o assunto. Mesmo porque uma obra com tal força política e valor artístico merece divulgação: faz a crítica ao fundamentalismo religioso e denuncia o armamento de grupos rebeldes pelo ocidente de forma séria, sem dogmatismo e com um tratamento cinematográfico enlevador.
O filme é de uma beleza e poesia difícil de traduzir: a paisagem é árida; as construções são sem forma; as condições de vida são precárias. O vento seco harmattan e o acúmulo de areia já destruíram a vegetação, o abastecimento em água e muitas estruturas históricas da cidade de Tumbuktu, no centro de Mali, país da África ocidental. Tudo é monocromático - cor de terra e areia, resultado do processo de desertificação.



Mas o olhar da câmera é generoso e faz o contraponto: mostra o brilho do sol nas águas, a beleza de uma vegetação que resiste em solo infértil, um povo que mesmo com medo teima e acredita na vida. Da população multirracial, praticamente só se vê a expressão do olhar, pois seus corpos vivem envoltos em panos. Só os loucos e os que vivem no deserto seguem livres e carregam alguma cor.



A história é triste: tudo se passa quando rebeldes tuaregues tomam a cidade, por alguns meses, para expandir a religião muçulmana e impedir as influências do ocidente. O grupo impõe leis de terror e assume plenos poderes: proíbe a prática do futebol, do canto, do adultério e obriga as mulheres a cobrir mãos e rosto em público, sob a pena de punição violenta e execução sumária. Figuras tristes que erram pelos labirintos de uma cidade oprimida.





No filme, Timbuktu, uma cidade lendária, um berço do ensino islâmico e de uma sociedade que foi sempre um centro de tolerância racial e religiosa conhece o peso do fundamentalismo sob o domínio do "jihad". 




O longa ganhou o prêmio do Júri Ecumênico, no Festival de Cannes 2014. E neste domingo, dia 22.02, concorre a “Melhor Filme Estrangeiro” na cerimônia do Oscar 2015. 


Se vencer será muito merecido!


Filme estrangeiro (concorrentes ao Oscar):
Ida (Polônia)
Leviatã (Rússia)mais forte
Tangerines (Estônia)
Timbuktu (Mauritânia)
Relatos Selvagens (Argentina)




Assista ao trailer:





Andréa Nogueira

Andréa Nogueira, natural de SP, é jornalista, graduada pela Escola de Comunicações e Artes da USP (79). Atuou em Agências de Publicidade e Empresas de Pesquisa de Comunicação e Comportamento, até 2002. Foi assessora de comunicação e eventos na área de educação. Especializada em jornalismo cultural escreve, atualmente, sobre Artes e Cinema, em especial, publicando em redes sociais e como colaboradora em sites especializados.

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