Contos & Crônicas - Clarice e os laços de família...


De repente, eu me dei conta! Onde é que eu estava com a cabeça quando resolvi assumir tamanha responsabilidade?! Falar de Clarice Lispector?! Devo estar louco...

Quando Érico Veríssimo leu "Laços de Família", o livro de contos de Clarice, mandou um recado para a autora: "Não te escrevi sobre o teu livro de contos por puro encabulamento de te dizer o que penso dele. Aqui vai: é a mais importante coleção de histórias publicadas neste país na era pós-machadiana".

Se Érico Veríssimo estava encabulado... Imagine eu! Eu, um medíocre metido a escritor que nada sabe da vida e carente de qualquer espécie de talento. Qualquer coisa que eu escrever nas linhas abaixo soará pobre em demasia, se comparado ao texto dessa escritora que ultrapassa as fronteiras das verdades humanas. Então peço desculpas desde já.

Laços de Família, publicado em 1960. Prêmio Jabuti de Literatura, em 1961, na categoria contos, crônicas e novelas.

É um mergulho em pequenos e intensos cotidianos. A sabedoria de transformar o corriqueiro em poesia. Encontrar os mais complexos conflitos num simples gesto. 

Friso aqui apenas um conto, porque senão esse texto seria gigantesco:

"Os laços de família". A visita da mãe. Relação entre mãe e filha. Sogra e genro. Casamento. Nada tão comum... Quem não conhece Clarice, dirá que o tema é de uma falta de criatividade tamanha! Afinal de contas, milhões e milhões de escritores, roteiristas, dramaturgos, etc, já o abordaram em algum momento da vida. 

Tal conto coincide com um momento meu. Paira sobre meus pensamentos a ideia de contar a beleza da simplicidade. No entanto, boicoto-me! Espanto a tola inspiração e penso: "Casamento desgastado? Paixão? Nada tão clichê...". Ou então: "Traição! Todo mundo já escreveu sobre traição! Invente algo novo.". Ou então: "Doença? Mais uma história de gente doente? Cai fora!". Há que se ter um pouco mais de criatividade. Inventar histórias mirabolantes, fatos nunca contados por seu ninguém! Isso sim é comprovação de talento!

QUAL NADA!!!

A sabedoria de Clarice prova exatamente o contrário. As nuances singelas de cada personagem carregam verdade em cada frase. O leitor se envolve com a protagonista Catarina, como se sua história fosse a mais inovadora de todos os tempos. Ler um conto de Clarice Lispector é como desvendar um mundo novo. Está aí o grande desafio de um escritor: Saber contar o mesmo, de uma forma diferente... Só sua... Imprimir identidade no banal. Tão óbvio e tão inalcançável. 

Sinto-me estapeado por Clarice. Foram tantas as histórias que inventei e abandonei, por julgá-las comuns. Preciso revirar os baús de inspiração. Caçar conto por conto. Livro por livro. Personagem por personagem. Dar-lhes um novo sopro de vida.

Somos bombardeados, diariamente, por agressivas informações. Leituras das mais diversas. Filmes estourando nos cinemas. Tendências. Modas. Estilos. Consumo. Como fugir de tantas influências?! Como, inclusive, não acabar parecendo uma cópia frajuta da própria Lispector?

Schopenhauer responde: "Mas aquele que é conduzido pelo próprio gênio, ou seja, que pensa por si mesmo, que pensa por vontade própria, de modo autêntico, possui a bússola para encontrar o caminho certo." E fecha com chave de ouro: "Pensamentos alheios, lidos, são como as sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa."

Oriundo de sua autenticidade, o texto de Clarice Lispector faz da bijuteria uma joia rara.


Hugo Ribas

Hugo Ribas é autor do livro Confesse-me, estudante de teatro, metido a escritor, e também pisciano... Ou seja: Desorientado.

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