Concepção Arquitetônica e Estética da Igreja Cristã

Domo de Milão, Itália - 1386 a 1813

“Segundo o Direito Canônico, "uma igreja é um edifício sagrado dedicado ao culto divino, principalmente para que possa ser usado por todos os fiéis para o exercício público do culto". A palavra "igreja", em inglês "Church" e em alemão "Kirche", origina-se do termo grego "Kyriakon", que significa "casa do Senhor". Já a palavra latina "ecclesia" deriva-se do grego "ekklesia", que quer dizer "reunião"ou "assembléia". É nesse sentido que a palavra "igreja" é usada. Não se refere a uma construção ou edifício, mas a uma reunião de cristãos para o culto divino. Portanto a igreja (grande ou pequena) tem como objetivo básico abrigar os participantes do culto e proteger os objetos que ali são usados. Paralelamente a isso, sempre houve por parte do homem cristão a necessidade de possuir um lugar próprio para orar onde a presença de Deus pudesse ser mais sentida.” - Jean Lassus, professor de Sorbonne, Paris e Peter F. Anson The New Library of Catholic Knowledge e Deptº de Teologia da PUC – RJ.

Simbologia e Funções da "Casa do Senhor" 
"A igreja deve ser um lugar de comunhão, onde os cristãos possam se devotar uns aos outros e honrar uns aos outros (Romanos 12:10), instruir uns aos outros (Romanos 15:14), ser benignos e misericordiosos uns com os outros (Efésios 4:32), encorajar uns aos outros (I Tessalaonicenses 5:11), e principalmente, amar uns aos outros (I João 3:11).”

Independentemente de professarmos uma religião ou sermos agnósticos, a visão de uma igreja e a experiência de entrar em seu interior causam em qualquer um de nós sensações e estados de espírito muito próximos e impressivos. Se pararmos para pensar e anotarmos essas impressões e sensações, perceberemos que nada é por acaso na concepção que esses templos religiosos assumiram ao longo do tempo.


Pesquisando a história, foi somente a partir de 313 D.C. que os católicos do Império Romano tiveram direito à liberdade de religião e puderam construir os primeiros locais públicos de culto. Até então, valiam-se de espaços domésticos e improvisados para se reunir e orar, tanto por carência de recursos quanto por prudência, pois a grande maioria dos católicos vinha das classes mais pobres e sofria a perseguição de um estado politeísta.

À função original e comum de abrigar os fiéis durante o culto, somaram-se outros significados e funções à “Casa do Senhor”. Nenhuma forma, nenhum material ou elemento decorativo das igrejas era pensado e utilizado sem um propósito.

Na construção de cada templo, tudo sempre foi pensado com vistas a criar uma atmosfera e um estado de espírito de bem-estar e paz em quem adentrasse seus portais e, assim, favorecer a conexão com o Deus (“religare”): as dimensões e as formas arquitetônicas, a planta e ambientes, os materiais de acabamento, os adornos e símbolos religiosos - imagens, desenhos, esculturas e paramentos - tudo operava para essa finalidade.

Ou seja, a “casa do senhor” deve ser erigida com vistas a atrair, propiciar uma experiência positiva durante a reunião e a prática religiosas essim, fidelizar seus frequentadores.

Principais características e elementos de construção e decoração que operam para atender a esses objetivos:

  • Dimensões grandiosas (força do estilo arquitetônico e/ou a nobreza dos materiais de acabamento) transmitem poder com vista a garantir o respeito ao espaço e a obediência ao culto, aos mandamentos religiosos, mesmo entre os sábios e poderosos;
  • As imagens de santos e as cenas representadas em desenhos, e pinturas cumprem o dever didático de registrar e contar a história de Deus e dos santos em especial às pessoas de pouca instrução ou que desconhecem o catolicismo;
  • A luminosidade amena pela a luz filtrada através de vitrais, a temperatura agradável e fresca e os cheiros decorrentes dos materiais, flores e plantas (a mirra e o incenso) criam uma atmosfera de paz e conforto que convidam a ficar e entrar contrição - reflexão e oração;
  • O número de portas e o fato de sempre se mostrarem abertas são um convite para se adentrar, ao menos para a visitação;
  • A pia com a água benta, os bancos com genuflexório, o altar central, a caixa de ofertas e capelas/altares internos, a presença de restos mortais de nobres, santos e mártires, tudo ajuda a criar um roteiro de ações, ritos e peregrinações que dirigem a visita e seu tempo no interior da igreja.

Estilos Arquitetônicos das Igrejas



 Cenáculo - a igreja mais antiga está situada em Jerusalém.

Ao longo dos séculos até os dias de hoje, diferentes estilos arquitetônicos deram forma às Igrejas para atender aos ditames religiosos. A cada época, os interesses do clero - em sua relação com a sociedade e com o estado laico (o poder vigente) - influenciaram e definiram uma estética própria para a construção de novas igrejas.

Em toda a história, os principais estilos  arquitetônicos construídos são:

  • Basílica: estilo de construção muito usado entre os anos 313 a 800 da Era Cristã, que a exemplo do modelo de um típico tribunal de justiça romano (Basílica) tinha grandes salões destinados a acomodar grandes congregações. Ornamentações e decoração com materiais nobres e delicados para passar a impressão de majestade e suntuosidade.


“São Paulo fora dos Muros”, em Roma (paleolítica, 300 d.C.) 
que  é uma reconstrução do século XVIII.



  • Bizantino: linhas simples, mas o invariável uso da cúpula e a separação entre o clero e os leigos são as principais diferenças entre uma igreja de estilo basílica e a igreja bizantina. Depois de quatro séculos de controvérsia, em 842 as estátuas foram proibidas nas igrejas de rito grego, temendo-se encorajar a idolatria. A majestosa decoração de superfície, com imensas paredes decoradas com mosaicos com figuras simbólicas, invariavelmente e dourados e materiais nobres, humanas misturadas a de animais.


 Igreja de San Marco, em Veneza (1042-85 d.C.) 


Igreja de Santa Sofia, em Istambul (532-537 d.C.)



  • Românico: construções robustas, com paredes grossas e janelas minúsculas, cuja principal função era resistir a ataques de exércitos inimigos.


Igreja da Misericórdia (séc. XIII), Melgaço 


Igreja de Notre Dame, em Paris (de 1163 até meados do séc. XIV).



  • Gótico: com dimensões e elementos decorativos para dar a ideia de grandeza e provocar obediência.

Santa Maria del Fiore (1446 d.C.)


Catedral gótica em Barcelona (séc. XIII – séc. XV).



  • Renascentista: rompe totalmente com o estilo gótico e não traz os anteparos, elementos que isolavam o clero dos civis; segue o modelo de um teatro, tem estilo e elementos mais humanizados, para transmitir beleza, perfeição, maior acesso do público a todos os espaços e melhor visão  do altar; mas potencializa a solenidade e grandeza das construções.


Capela Sistina, Cidade do Vaticano, Roma (1508-1512 d.C.).



  • Barroco: um estilo mais livre, mais realista e dramático.



Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto, Brasil (séc. XVIII - séc. XIX) 


Santa Agnese, em Agona, Itália (séc. XVII).



  • Neoclássico: com características mais avançadas e complexas, através do uso de materiais nobres e variados, formas e decoração geométricos e mais organizados.


Catedral de Helsinki. Finlândia (1830-1852 d. C.)



  • Revivalista: o resgate dos estilos anteriores– o neoclássico, neogótico, neobarroco, neorrenascentista, em nova leitura.



Catedral da Sagrada Família, Barcelona, Espanha (1883-1952).



  • Modernista: formas e linha simples e decorada sem ornamentação. As igrejas seguem o lema "a forma segue a função": assim passam a ser  casas de reunião para uma congregação devota ao invés de mostrar poder monetário. O altar no centro da atenção para a congregação como uma plateia que precisa se concentrar na liturgia ao invés de nos ornamentos das paredes.


 Catedral de Brasília, Brasil (1959-1970 d. C.)


Andréa Nogueira


Andréa Nogueira, natural de SP, é jornalista, graduada pela Escola de Comunicações e Artes da USP (79). Atuou em Agências de Publicidade e Empresas de Pesquisa de Comunicação e Comportamento, até 2002. Foi assessora de comunicação e eventos na área de educação. Especializada em jornalismo cultural escreve, atualmente, sobre Artes e Cinema, em especial, publicando em redes sociais e como colaboradora em sites especializados.

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