Café Literário: Um certo contador de histórias


Sou daquela época em que criança ouvia histórias e que brincadeira não se fazia sozinha e tudo era motivo de festa. Quando a gente se juntava, era brincadeira, correria, gritos, risadas, canções entoadas, canseira na certa. E depois disto tudo a gente se sentava ao redor daquele senhor para ouvir mais uma história. Entusiasmados, imaginando qual história seria daquela vez.

E com voz forte e riqueza de detalhes o contador de histórias abria as portas da imaginação e nos permitia viajar.

Eu ouvia cada uma daquelas palavras, que pra mim eram repletas de uma veracidade incontestável e viajava. Sentia-me em cada lugar, visualizando cada personagem.

Sei que hoje se aquelas mesmas crianças, ouvissem as mesmas histórias, do mesmo contador, não teriam o mesmo entusiasmo. Muitos de nós sequer nos sentaríamos pra ouvir. Perdemos aquela capacidade infantil de deixar o sonho, o irreal, nos encantar.

Hoje, quando vejo aquele contador de histórias, olhos absortos em um livro, lembro-me daquele tempo. Sinto que todas as histórias estão ali com ele, prontas pra serem contadas.

Mas este contador de histórias quase já não conta mais histórias. Talvez por lhe faltar ouvintes, ouvintes que saibam realmente ouvir, quem escutem com a alma.

Nesses anos muitas coisas mudaram. O próprio contador de histórias mudou, sinais do tempo, das perdas, da doença, da dor.

O rosto agora apresenta marcas mais profundas, mas seu olhar ainda continua perspicaz. Sua voz, apesar de menor entonação, pronuncia palavras ora sábias, ora engraçadas. O andar é incerto, o que não o impede de caminhar. As mãos já não apresentam a mesma agilidade, mas permanecem hábeis, criadoras de obras maravilhosas.

Tenho muito a agradecer a este contador de histórias, por ter me permitido ouvi-lo, ter me ensinado a sonhar, imaginar. Por ter me permitido vê-lo tantas vezes com um livro nas mãos. Por estar de pé, acreditando na vida e em Deus, apesar do sofrimento e da dor, ensinando-me que somos fortes se quisermos.

Falar deste contador de história é falar de um homem bom, honesto, criativo, sonhador. É viver de novo uma época doce e feliz da minha vida. Onde a tristeza só existia mesmo nas histórias que ele contava.

Lidiane Cruz

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