Café Literário: Prisioneiro de si mesmo


Era um dia de sol tão quente como uma brasa em fogo e eu caminhava pela beira-mar, sentindo a brisa fresca tocar minha pele. Pensava em como era boa uma vida bem vivida. Casa, família, dinheiro e amigos. Tudo era tão lindo. Todos os dias, fazia a mesma pergunta a mim mesma e me questionava sobre como era bom ter uma vida digna e cheia de regalias, enquanto outros não a tinham. 
 
Sentei-me em um quiosque, como faço rotineiramente, e pedi o de sempre ao atendente: uma porção de fritas e um suco de laranja. Encostei-me à cadeira e voltei às minhas reflexões. Dessa vez, eu agradecia silenciosamente por tudo o que tinha. Comecei a lembrar de fatos da minha infância, as brincadeiras, a coleção de bonecas e as guloseimas na casa de minha avó. Fui interrompida por um homem alto, musculoso e muito bonito, que parou próximo à bancada do quiosque e esboçou um sorriso lindo, que me distraiu. Recompus-me. Lembrei agora de meu primeiro beijo aos quatorze anos e do momento em que desabrochei em rosa e virei mulher. Talvez seja esse um dos momentos inesquecíveis de minha vida.
 
Aconteceu em uma tarde como essa, quente. Estávamos eu e ele, um amigo da faculdade, nos conhecendo na casa dele. Éramos parceiros de um trabalho em dupla e fui até lá para cumprir os afazeres. Era um belo garoto, tal como o homem da bancada ao lado. Num gesto de ousadia, ele me roubou um beijo e não resisti. Cedi e acabamos deixando de lado os livros e materiais que estavam postos sobre a cama. Sentimos medo, a princípio, pois a mãe dele estava em casa. Ele estava sem camisa, e apenas de bermuda, tirando-a logo em seguida. Levantou a minha blusa e, com certa experiência, desabotoou meu sutiã. Éramos dois jovens entregues à ardência do prazer. Nossos corpos entrelaçavam-se e molhavam-se de suor, assim como o orvalho de uma flor.
 
Terminamos o ato e desde aquele dia estamos juntos. Começamos a namorar, tivemos um filho e só depois nos casamos. Fizemos uma festa e chamamos todos os nossos amigos e familiares. E tudo era tão lindo. A vida é tão linda.
 
Acordei do meu êxtase vital quando a garçonete trouxe-me o meu pedido. Foi quando reparei que, ao longe, o homem bonito havia saído dali e voltado para o calçadão. Comi e voltei a caminhar.
 
Ao chegar próxima à porta de meu prédio, vi algo que me causara dor. Um pássaro amarelo. Amarelo e morto. Algumas penas estavam ao redor de seu pequeno e esguio corpo e, outras voavam com o corriqueiro passar dos carros. Teria ele uma família e filhotes que o esperavam trazendo no bico o alimento para sobreviver? Revoltei-me com o Criador e cheguei a duvidar de sua existência. Criou o mundo e tudo o que aqui está. Mas quem o havia criado? Teria ele feito aquela bela criatura e agora tirado a vida da mesma. É incompreensível. É insensível.
 
Não sabia se estava cansada pela caminhada ou por aquela dor ter invadido meu peito e tirado de mim, por minimamente que seja, a minha vitalidade, a vontade de viver. O cinza da calçada e o amarelo vivo daquele pequeno contrastavam-se. Uma situação homogênea de vida e morte, concreta e abstrata.
 
Entrei no prédio e tentei ignorar o que acabara de ver e que me causava repúdio. Cheguei a casa e ao entrar no banheiro me vi ao espelho, como um animal habitante daquela selva de pedra.
 
E entristeci. Não que eu tenha causado a morte daquele pássaro, não por estar inserida nessa realidade brutal.
 
Mais triste do que fora a morte daquele pássaro, é o seu canto engolido não ter sido escutado.


Ailson Lovato

Ailson César Lovato mora em Castelo-ES e é estudante de Letras/Língua Portuguesa no Centro Universitário São Camilo-ES (Cachoeiro de Itapemirim). Participou de publicações de poesias em concursos escolares e publicou recentemente seu primeiro livro, “Agridoce”, uma coletânea de contos e crônicas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.