Café Literário: Nós


Vem cá, fica assim.
 
Ele senta onde eu tava deitada e ajeita minha cabeça sobre seu colo. Acaricia meus cabelos como eu gosto, então parece, de repente, que tá tudo bem... mas não tá, e ele sabe disso. Sente o ambiente pesado no ar, mas nada diz; nem precisa. Parece ter nascido pra mediar conflitos.
 
Enquanto a algazarra permanece lá fora, abafada pela porta de vidro, fico assim, quieta,  olhos fechados, deixando as mãos de Lipe fazerem aquilo que necessito no momento. Preciso me sentir protegida, e esse pequeno gesto é o suficiente.
 
Sempre que as coisas ficam ruins, como agora, é o Lipe quem me socorre. Ele nunca entra em conflitos desnecessários, e sabe se sair de qualquer situação complicada sem perder a linha. Isso é o que justamente mais admiro nele. Ele é meu oposto – ponderado, tranquilo. Ainda assim, nos completamos. Então por que não me apaixonei por ele?
 
Abro os olhos. Puta pergunta chata pra se fazer num momento desses, mas ela me atormenta:
 
Por que não me apaixonei por você?
 
Ajeito a cabeça de um jeito que possa ver seus olhos, e Lipe, com aquela cara de cachorrinho pidão que só ele sabe fazer, deixa as coisas um pouquinho mais leves. Esboço um tímido sorriso – mais pela certeza de que ele sempre estará por perto quando eu precisar do que pela resposta que já sei de cor. Fecho os olhos. Lipe continua seu carinho. Sinto vontade de chorar.
 
Lipe é o cara mais bacana e carinhoso que já passou pela minha vida, e a gente se conhece a uma cara. Desde o começo eu sempre soube que ele era homossexual, talvez por isso meu cérebro ainda hoje reverbere ecos de um sentimento que poderia ter sido, mas que meu lado racional se encarregou de barrar.
 
Talvez por isso, ou pela minha eterna necessidade de ter alguém para amar e dizer que é meu, ou por tudo isso junto ou nada disso, o Duda tenha entrado na minha vida com uma força maior do que eu conseguiria prever. Se eu tô aqui assim, agora, pensando em tudo isso e imaginando coisas dele com aquela menina lá fora, a culpa é toda minha. Sei como ele é, mas insisto em tentar moldá-lo ao meu modo.
 
A porta de vidro é aberta e o som reverbera com tudo na sala. Não viro pra olhar quem está entrando, querendo fervorosamente que seja o Duda. Fran aparece ao meu lado e logo se ajeita entre eu e o encosto do sofá, colocando a cabeça sobre meu ombro e me abraçando pelo quadril. Enlaça suas pernas nas minhas e, com o dedão, fica cutucando minha sola do pé, pra me fazer cócegas.
 
Ela tá com ele?
 
Tento me calar, mas a pergunta sai. Ela me olha com um olhar sombrio, sem dizer uma palavra; não precisa. Sinto que estou saindo de um estado de torpor: meu corpo todo recebe sinais da descarga de adrenalina, e meu coração parece pulsar junto com as batidas da música.
 
Me levanto com rapidez. Eles tentam, mas não conseguem me conter. O que falam, já não entendo, talvez por causa da música. Talvez porque não queira.
 
Passo esbarrando pelos convidados e me desvencilhando em direção à pista de dança improvisada que foi montada no jardim, bem ao lado da piscina. Danço como uma louca – sem medo, sem pudores.
 
Não entro na música; a música é que se incorpora em mim.
 
Juntas, uma mesma massa – eu e o som. As batidas, os riffies, tudo num crescendo que exige do meu corpo uma enorme entrega e energia, mas já nem sinto mais nada.
 
Sei lá quanto tempo se passou quando o DJ interrompe o som, e sinto como se estivesse no ar, solta, leve, a quilômetros de distância de todos, ao mesmo tempo pronta pra descer com tudo na terra. Caio de joelhos, completamente sem fôlego, nauseada, corpo dolorido, o mundo girando por todos os lados...
 
Incrivelmente, a única coisa que consigo fixar o olhar é o rosto dela – aquela mulher. E ela me olha de um jeito... Misto de pena e reprovação. Filha duma puta. Me esforço pra levantar e ir quebrar a cara dela, mas é inútil. Um borrão escuro: desmaio.
Acordo com os raios de sol batendo nos meus olhos.
 
Putz, já é de manhã...
 
Olho em volta: estou no quarto da Gi. Ao meu lado, a própria Gi. Da sua boca exala um cheiro agridoce, então sei que não vou poder contar com ela pra me dizer o que se passou durante o tempo em que estive apagada.
 
Afasto a coberta e me sento na cama, devagar, ainda meio longe de mim.
 
Desço as escadas e vou direto à cozinha. Tô com uma sede danada. Sinto o cheiro do seu perfume barato e enjoativo antes de passar pela porta – é dela. Paro debaixo do batente, como para não dar chance de escapatória, e ela fica assustada, desvia o olhar, mas ainda assim quer observar.
 
Só então me dou conta de que estou nua – e me sinto bem. O fato de tê-la acuado funciona como um tônico, e já estou disposta a lutar novamente. Ela prepara uma salada de frutas, com certeza pra levar pro Duda.
 
Abro a geladeira, pego uma jarra d´água e me aproximo devagar do lugar que ela está – próxima ao escorredor de pratos, onde pego o copo. Fico assim, tomando minha água, sem desgrudar meus olhos, quase encostada nela. Percebo seu nervosismo. A faca em sua mão treme, e não posso deixar de imaginar que um crime passional pode acontecer a qualquer instante...
 
Passional? Tô ficando doida. Ela é só mais uma das mulheres que o Duda leva pra cama, e eu sou só mais uma das que nutrem amor platônico por ele, sem reciprocidade. A questão é simples. Mas tô gostando de deixá-la acuada.
 
Encosto meu seio em seu braço nu. Em seguida, coloco minha mão sobre a dela, retirando sutilmente a faca de seu controle. Ela se desvencilha como se eu fosse uma doença letal, e corre pra sala, deixando a porta bater com força quando foge pra rua. Sorrio com vontade, retalhando um pedaço de maçã à minha frente.
 
Quando me viro para a porta da cozinha, Duda está lá, encostado no batente, me fitando. Pela primeira vez nesses anos que nos conhecemos, fico com vergonha de estar nua em sua presença.
 
Não sei se pelo que acabei de fazer: tenho a sensação de que ele pode ter visto e, afinal, ter entendido o que ele representa para mim, e agora esteja me reconhecendo, verdadeiramente, como mulher.
 
Penso isso porque fazemos parte de um grupo que ultrapassa as convenções sociais. Somos muito mais do que amigos – ou amantes, segundo os rótulos mais brandos. Fazemos parte de um microcosmo social alternativo, que se ama, se gosta, complementa-se e tem como limite apenas a vontade de ser, fazer e estar, sem compromisso com a razão. Desse jeito, um sentimento como o meu pelo Duda, o qual me aflige por não conseguir controlá-lo, representa um passo à trás mediante tudo aquilo que a gente já evoluiu.
 
Então, ele me tira do devaneio:
 
Vamos conversar?
Na varanda, depois de expor o que tinha imaginado e confirmado o que aconteceu na noite anterior, Duda vai direto ao ponto:
 
Por que esconder seu sentimento, Drica?
 
Tenho medo de parecer ridícula, então solto argumentos rasos, sem sentido. Ele espera pacientemente, pra logo em seguida quebrar minha falsa lógica. E o faz de um jeito tão singelo que eu só posso pensar que apaixonar-me não poderia, mesmo, ser uma questão de escolha.
 
Você tem medo, e isso te torna insegura, como raramente te vi assim antes.
 
Eu concordo.
 
Se tentarmos ficar juntos, corremos o risco de quebrar toda a estrutura que foi formada.
 
Isso me assusta, digo, num sussurro.
 
E te faz sofrer.
 
A gente se olha e nada diz por um bom tempo, até ele estender a mão em minha direção.
 
Você não entende?
 
Levanto e retorno ao quarto da Gi pra colocar minha roupa. Nesse momento, os outros estão começando a acordar.
 
Quando desço a escada, Duda me pega pelos braços e rouba um beijo. Me desvencilho com pouca convicção, mas ele não insiste.
 
Lipe se aproxima, dando a entender que quer me acompanhar e proteger. Coloco a mão sobre seu peito, e digo não com o olhar. Abro a porta e saio.
 
Sentada na areia em frente ao mar, enfim extravaso as palavras não ditas em forma de lágrimas. Preciso me afastar pra observar com clareza.
 
Pra se obter, é preciso deixar algo pra trás, e não sei se estou disposta a recomeçar após ter me encontrado.

Rodrigo Zafra Toffolo
 
Rodrigo Zafra Toffolo nasceu em Santos(SP) em 1984. Formado em jornalismo, é escritor e roteirista de curtas-metragens. Autor do livro de contos Um dia na vida e da coletânea de textos Forjando Mundos, ambos produções independentes. Colaborador fixo na revista literária digital A Capitolina e no site SAMIZDAT. Blog: rodrigozafratoffolo.blogspot.com.br

"Nós" é um texto integrante do meu e-book Forjando Mundos, disponível gratuitamente no site Recanto das Letras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.