Café Literário: A morte veio lhe visitar


Dia 30 de Outubro.

Claire estava contando os minutos para ir embora da aula. Resolveu, então, que sairia mais cedo e pegaria o primeiro ônibus para casa, o que levaria em torno de uma hora de viagem.

Por instantes, ao abrir a porta da sala de aula, percebeu que ventava mais do que o comum.  Era uma noite tão escura, sem estrelas, sem luz alguma. Sem as pessoas que amava... E por consequência, sentiu uma saudade diferente de seus amigos. Mas nem mesmo seus pensamentos bons a acompanhavam.

Claire olhou para as árvores com aquela doce mania de completar seus pensamentos filosoficamente, mas teve alguma sensação de desconforto e deixou as ideias passarem. Afinal, eu concordo que seria estranho alguém achar boniteza nas minhas vozes. Caminhando ao estacionamento, sentia o vento bater em seus cabelos como um aviso de que aconteceria algo, as pessoas eram somente vultos para seu olhar. O coração estava fraquejando, exatamente como seriam as suas últimas batidas.

Dizem que todas as pessoas sentem quando me aproximo. Eu acredito que existam diferentes formas da vida me aproximar das pessoas.

O estacionamento estava vazio e escuro. Ela sentou na beirada do cordão da calçada para ler seu livro obrigatório das aulas de terça-feira. No meio do primeiro parágrafo, começou a lembrar de todas as brigas que tivera um dia antes. As pessoas importantes eram aquelas que nunca conseguiu amar da melhor forma. Por que não disse que os amava? Por que não contou que, na verdade, brigava por um medo indescritível de perdê-los? Por que insistia em estar sozinha com tantos que gostariam de sua companhia? Por que não contou que queria saber ser uma amiga melhor? Por que não se desculpou no final do dia, como de costume? Por que não disse a seus pais que eram as melhores pessoas que existiam? Por que não escreveu um poema? Por que ficou tão cega com seus afazeres e se afastou de tudo e todos?

Ah...Se ela soubesse o que aconteceria nesta noite...

O ônibus chegou e, sem querer, Claire sentou no primeiro assento atrás do motorista. Eu não diria que foi desproposital.

A chuva começou a pingar. Sua mente, concentrada em visualizar mais do que uma simples paisagem pela janela, lembrou-se do dia em que disse adeus querendo ficar.  Lembrou-se de quando disse para o garoto que queria ele longe, para ver se viria atrás. Ele nunca voltou. Quebrou seu coração como nenhum outro, e a água escorrendo no vidro a fazia se arrepender de ter se apaixonado tanto. De ter apostado tudo. De ter passado tantas noites chorando... Esperando sua volta.

Ela adormeceu.

A chuva aumentava, a água fazia o ônibus deslizar em algumas curvas. As pessoas ao seu lado estavam falando sobre como festejariam o Halloween.  A história de bruxos, de satanismo e de filmes de terror que, em boatos, acabaram em mortes por causa das filmagens em casas mal assombradas. Eu estava submerso em boas memórias.

Demorou algum tempo, na minha visão, pra que ela soubesse o que aconteceria. Eu tentei avisá-la. Essas coisas não são tão fáceis para mim. Tudo o que posso mexer é sutil demais para pessoas distraídas como ela perceberem. Com o passar dos minutos, todos sentem minha presença de alguma forma. Não que eu não goste da sensação que provoco. É algo parecido como um filme que sabemos o final.

Eu prefiro quando as coisas acontecem como eu prevejo. Não sei por que Claire não tinha feito o que deveria um dia antes. Ela poderia ter abraçado quem sentiu vontade, ter confessado seu amor platônico, mesmo que seu amor sempre se findasse. Ela poderia ter dito boas palavras, porque tem um dom para encontrar palavras quando está inspirada.

Existem coisas que a fazem tão singular.

Claire é calma. Mas se exalta quando não acreditam no que ela diz. A sua alma é doce... Tão ingênua quanto uma criança. Ela tem um olhar agradável, que me comove. Consegue enxergar bondade em pessoas más e não admite que alguém seja cruel por querer.  Ela é sem máscaras, e pelo que percebi, nenhuma se encaixaria nela, de qualquer forma. Todos dizem que ela é diferente, e quantas vezes chorou por isso, ninguém sabe. Ser diferente te faz único. As pessoas admiram, mas preferem os normais. A menina sabia disso...Encontrar alguém que ache seus defeitos engraçados. Ser amiga de alguém que compreenda seus pensamentos e saiba rir de suas ironias. Ser normal, como? Tão atrapalhada. Só poderia ser do jeito que é, por mais que muitas vezes quisesse mostrar que poderia ser igual, tendo certo empenho em aprender conhecimentos gerais e lembrar-se de nomes de pessoas e lugares famosos. Sem sucesso, pois sua mente era ocupada com seus próprios devaneios.

O vento estava forte nas árvores que cercavam a estrada. A chuva chicoteava o vidro dianteiro, a aguaceira formava um lamaçal, balançava o veículo como se a qualquer momento ele pudesse virar.

Sentei ao seu lado. Ela estatelou os olhos. Virou para os lados. Sentiu a nuca arrepiar e colocou o casaco. Seu olhar ficou perdido na estrada, e o único pensamento era “por que sentei na frente? Sempre sento atrás... Acidentes de colisão frontal acontecem com maior frequência e a primeira fileira é a menos segura. Será que ainda tem lugar na quinta fila? Deus...Por que sentei aqui hoje? Vou achar o cinto. Acho que vou morrer...É pra eu ficar aqui pra não morrer ou pra eu ir sentar noutro lugar pra não morrer?”

A sua visão começou a embaçar, as pessoas ainda estavam falando sobre as mortes enquanto eu percebia em seu olhar a neblina que lhe impus. Não era a atenção no que os outros falavam que fazia o brilho das lágrimas aparecerem no escuro.  Sua pele estava dura e pálida, enquanto seus lábios começavam a tremer sentindo o gosto do choro.

Num insight consegui lhe fazer enxergar o que eu via. Aquela noite era seu fim. Não importava onde ela sentasse. Não importava se a chuva não fizesse o ônibus se acidentar, nem mesmo se ela chegasse a sua casa. Nada daria errado para mim, apesar dela ter feito tudo diferente do planejado no dia anterior, causando uma despedida menos justa à ela, quem sabe.

As imagens boas passavam rápidas demais em sua mente, vasculhava e procurava desesperadamente por um ponto de fé onde pudesse se agarrar à vida. Entre uma memória e outra, conseguia sentir-se morta. Suas lágrimas ninguém via, seus berros dentro de si, pedindo ajuda, não conseguiram chegar até a boca.

Dizem que perto do fim passa um pequeno filme de momentos importantes e felizes diante das pessoas.

Claire começou a lembrar dos últimos acontecimentos, nada tinha dado certo. Ela não tinha visto o sorriso de quem mais precisava. Mas conseguiu lembrar-se dos rostos de seus pais. Ela tinha discutido com seus amigos por ciúmes. Lembrou-se das conversas em que eles lhe passaram confiança e amor. Ela lembrou que seu pai estava viajando e que sempre esquecia o celular desligado, e lembrou que sempre trazia presentes quando voltava para casa.  Ao pensar no celular, decidiu ligar para alguns com o pouco de crédito que havia sobrado, mas o celular estava sem rede e com a bateria pelo fim.

 Ah! A pobre menina soluçava me fazendo companhia, enquanto eu, em silêncio, me sentia desconfortável por ela não ter me esperando.

- Faça uma carta! – Soprei em seus ouvidos. – Conte-lhes como se sentiu antes de partir. Peça desculpas, mas diga que ficará bem. Você não tem muito tempo, então seja breve.

Ela pegou um papel, e, se apoiando na beirada da janela, trêmula, um tanto por desespero, um tanto pelo balanço das curvas, e começou a escrever, limpando suas lágrimas para que conseguisse enxergar:

Queridos.

Talvez eu não tenha tempo para escrever para todos separadamente.

Aos amigos

Quero dizer que amo cada um. O sorriso de vocês sempre foi meu lar mais do que as casas que já morei. Estou agora lembrando o olhar de cada um... Eu daria tudo para abraçá-los. Eu poderia ter sido alguém melhor e ter dito todos os dias que tenho um amor imensurável, mas com o dia-a-dia nós esquecemos esses detalhes cruciais, e demonstramos de formas diferentes que nos importamos. Me perdoem.

Pai e mãe!

Eu sinto que não vou estar em casa hoje para contar como foi a aula. Espero que acreditem em mim; ficarei bem. Nada do que vocês pudessem ter feito me deixaria viver, então, não se culpem por qualquer coisa.

Com amor, Claire.


Seus olhos foram se apagando enquanto eu a encostava. Seu coração, não mais acelerado, porém aproveitando cada batida lentamente... A frieza de suas mãos nas minhas, que ao mesmo tempo queimava para que alguém a salvasse. Sua garganta seca, nem se pudesse falar conseguiria. Eu senti o cheiro do sangue em suas veias saltando no pulso. Sua mente limpa que só pode se perguntar pelos últimos instantes: Por que eu?   

O despertador toca.

Claire abre os olhos.

 Em sua cama, um fantasma prestes a atravessar sua cabeça com uma foice.

- BOM DIA, QUERIDA. VAMOS COMEMORAR O DIA DOS MORTOS?

Priscila Anicet Hertz
priscila.anicet@gmail.com
 

Tenho 18 anos, sou porto-alegrense. Atualmente estudo Letras. Amo fotografia, música e livros, principalmente clássicos brasileiros. Meus escritores favoritos são Mário Quintana e Fernando Pessoa. Insights

Um comentário:

  1. Ótimo texto! Bem escrito, vocabulário bacana, além da inusitada narração da própria morte! Parabéns!

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