Café Literário: Cordeiro de Deus


Na madrugada da escuridão; ébria, rastejante, cinzenta... um cão lambe meu semblante, a vida plena... AUTOENGANO. A boca acre com crueldade entorpecente. NUA. Dói por entre os BEIÇOS. Órgãos: vermelhos, lubrificados, carnudos, duros, vulcânicos, excrementos de desejos, mijo, merda. Homens, mulheres, velhos, jovens, feios, bonitos, ricos, pobres. Animais. Sem distinções. Mais morfina. AMOR ZERADO. Minha substância. Venha, se compadeça de mim e me dê um olá!Pinceladas de um flashback: Dois homens. Cambaleante, fui. Sem escolha... TREPEI. Mecânica, sem pudores, sem prazer, melancólica. O mais forte apertou com beleza, minha cabeça contra as coxas, o mamei até arranhar, entranhar o seu gosto amargo na garganta; o outro me rasgou, estrangulou minhas coxas contra o seu pictórico, delicioso PÊNIS. Em óleo... ADÔNIS. Frenesi de epiléticos cruos. Eles, os pastores. Eu, o sacrifício. Depois, os sádicos. Faca. Ventre. Dor. Rubra seiva. Uivo. Brincamos com leite alcalino e sangue. ESCROTOS. Nos lábios sedentos. Regurgitei-os espessos, misturados. Meus peitos, amordaçados, mordidos; dopados. O meu... ÚTERO. Mortalha magoada de Vida. Pedaços de Rancor. GRITEI. Não cumpriram a promessa. ABANDONADA. Em vísceras. Aberta. Embebida em vinho. Bebida onírica divina. Cordeiro de Deus. SOU. Viver é se doer. ESPUMO. Lábios e olhos em brasa. CHUVA DE DOR. O lixo com o chão inundado de ratos, esperando..NADA. MENOS QUE POEIRA.SÓ VOZES. Estão mais preocupados em caçar uns daqueles. O céu com pontinhos de esperança, e NADA...Mãezinha, colo fértil da vida. Trocada por uma pedrinha. O Amor sabe humilhar. O ódio embala em...DOR. Rios saltaram das faces e inundaram com amargor, mais triste a madrugada ficou. TARDE DEMAIS. Só me resta ser... RESTO. Olhei para enxergar. Revistei lembranças: infância, juventude, decadência. Quimeras levam a vida. CONCLUI. Segundos... Existir. Existiu. Eu sorri. O corpo lânguido desistiu e os olhos se prostraram em alívio... o conforto veio, conheci a Felicidade.

Juliana Mendes

Juliana Mendes: tradutora, professora, estudante de Letras na UFJF, escritora nas horas vagas. Gosta de viajar, de psicologia, de filosofia e do mundo dos sentimentos. Ler, comer e amar a vida são os seus maiores prazeres.

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A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

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"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
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