Antón Tchekhov – Uma homenagem ao mais brasileiro dos russos


Neste ano de 2015, comemoram-se os 155 anos de nascimento de Antón Tchekhov, escritor e dramaturgo russo. A data e a admiração por sua obra me levaram a lhe prestar homenagem com este artigo e quem sabe, se for bem sucedida, despertar interesse e lhe conquistar novos leitores.

Descobrindo Tchekhov – como o escritor entrou na minha estante

Meu contato com a sua obra é bastante recente.

Conheci inicialmente o Tchekhov dramaturgo, assistindo encenações de duas de suas peças, em São Paulo: “A Gaivota”(escrita em 1896), e “As Três Irmãs”(datada de 1901).

Mas foi através de seus contos que descobri que, dos literatos russos, é o que mais admiro. Hoje Tchekhov tem espaço cativo na minha mesa de cabeceira (junto a Machado de Assis, Philip Roth, Vila-Matas e Umberto Eco).

A descoberta do contista Tchekhov ocorreu em 2012, no 7º. Encontro do “Clube de Prosa” oferecido pela CosacNaify, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo (infelizmente este programa não teve continuidade).

Previamente, como era a proposta do Encontro, li o livro de contos “O assassinato e Outras Histórias”, organizado e traduzido por Rubens Figueiredo. E na data marcada, assisti à palestra e bate-papo conduzido pela professora de literatura russa da USP Elena Vássina.

Foi a partir desse contato mais aprofundado com a história de vida e literatura do escritor russo, que fui tomada de encantamento pela história em que o escritor e o médico Tchekhov se confundem na construção e registro da história e a cultura do povo russo, da metade do século XIX até o início do século XX.

Construindo Tchekhov – a origem de seus talentos


Dizem que da educação rígida e muito religiosa recebida de seu pai, fez com que Tchekhov se tornasse um amante da liberdade e da independência, e foi visto por alguns historiadores como modelo para os muitos personagens hipócritas criados por seu filho. De sua mãe uma excelente contadora de histórias que entretinha as crianças com histórias sobre suas viagens junto de seu pai (um comerciante de tecidos) por toda a Rússia (Elena Vássina, em Anton Pavlovitch Tchekhov - Um clássico contemporâneo da literatura russa, Revista Cult).

"Nossos talentos nós recebemos do nosso pai", Tchekhov lembra, "mas nossa alma recebemos de nossa mãe."

Nascido em 29 de janeiro, em Taganrog, um porto marítimo ao sul da Rússia, Tchekhov foi, além do literato que alavancou o gênero Conto e inaugurou a literatura moderna, um médico dedicado ao longo de sua vida.

Ambas as profissões nasceram do acaso: a escrita foi desde a infância um exercício prazeroso que, já no primeiro ano da faculdade de Medicina, aos 20 anos, em Moscou, se tornou ofício e profissão para ajudar no sustento da família e pagar seus estudos, premido pela falência do comércio do pai.

Tchekhov costumava definir sua relação com os dois ofícios assim: "A medicina é a minha legítima esposa; a literatura é apenas minha amante. Quando me canso de uma, vou para os braços da outra". Mas embora casado com a medicina, com o sucesso de sua produção literária, era da literatura que ele vivia.

Raymond Carver, que escreveu o conto Errand sobre a morte de Tchekhov, acreditava que o escritor era o melhor de todos os contistas:

“Os contos de Tchecov (sic) são tão maravilhosos (e necessários), hoje, como quando eles apareceram pela primeira vez. Não é apenas o número imenso de contos que ele escreveu – poucos escritores, se houver algum, escreveram mais que ele – é impressionante a frequência com a qual ele produziu obras-primas, contos que nos encorajam, bem como encantam e mexem conosco, que revelam as nossas emoções de forma que só a verdadeira arte conseguiria.”

Virginia Woolf refletiu sobre a qualidade única de um conto de Tchekhov em The Common Reader (1925):

Mas é este o final? Nos questionamos. Temos sim a sensação de que perdemos os sentidos; ou talvez a melodia tivesse sido interrompida de repente, sem aviso prévio. Esses contos são inconclusivos, dizemos, e moldamos uma crítica baseada na suposição de que os contos devam terminar de maneira que possamos reconhecer. Ao fazê-lo levantamos a questão da nossa própria condição como leitores. Quando a música é familiar e o fim enfático — apaixonados juntos, vilões derrotados, intrigas expostas— como é na maior parte da literatura vitoriana, as coisas não vão mal, mas quando a música não é familiar e o fim é um ponto de interrogação ou apenas informações que eles passaram através de diálogo, como nas obras de Tchecov, precisamos de um sentido muito ousado e alerta da literatura para nos fazer ouvir a melodia, e em particular as últimas notas que completam a harmonia.

Desconstruindo Tchekhov – o sentido de sua obra


Ele é o escritor que através da descrição dos fatos corriqueiros da vida, da vida cotidiana e dos personagens comuns,

“captou o essencial e o eterno da existência humana”. (Elena Vássina, em Anton Pavlovitch Tchekhov - Um clássico contemporâneo da literatura russa, Revista Cult).
Stanislávski fala com propriedade sobre o sentido essencial da obra do escritor:

“Tchekhov apresenta-se inesgotável, porque, apesar da aparente descrição da vida trivial, em seu leitmotiv (motivo condutor) principal, ou seja, espiritual, ele sempre fala sobre o Humano com maiúscula”.
Vladimir Nabokov declarou que Tchekhov escrevia da

"forma que uma pessoa conta a outra sobre as coisas mais importantes em sua vida, lentamente, mas sem pausas, e com uma voz suave."
Foi o escritor menos engajado da época, na contramão de certa tendência da literatura russa para as pregações morais, que ele tanto rejeitava.

Tchekhov tinha uma

“incomum e absoluta rejeição do que podemos chamar de valores heroicos", escreveu o crítico russo D. S. Mirsky, para explicar sua popularidade na Inglaterra.

“Geralmente não expressava seu pensamentos em discursos, mas em pausas, entrelinhas ou nas respostas que consistiam em uma única palavra… os personagens, muitas vezes sentiam e pensavam coisas que não expressavam através do diálogo”, como definiu Stanislávski.

Pelo contrário, ele insistia que o papel de um artista era o de fazer perguntas, não o de respondê-las.

Sua máxima literária era:

“a brevidade é irmã do talento”.

Daí Tchekhov se valer de técnica narrativa e visão artística inovadoras, para fugir à subjetividade.

As influências e os influenciados - seria Tchekhov o mais brasileiro dos russos?

Entre suas influencias literárias já na juventude estavam Cervantes, Turgueniev, Goncharov e Schopenhauer.

E entre seus admiradores, alguns dos maiores escritores modernos: James Joyce, Virginia Woolf, Tennessee Williams, Ernest Hemingway, Vladimir Nabokov e Raymond Carver.

No Brasil, o escritor tem grande reconhecimento por parte da crítica e do público.

Para Rubens Figueiredo, o crítico brasileiro e tradutor de Tchekhov, "não por acaso, a literatura do escritor tem tantos admiradores no Brasil."

“Antonio Callado definiu Tchekhov como “o mais brasileiro dos russos” que mais do que Tolstói e Dostoéivski conseguia apresentar os problemas por uma ótica brasileira” (Chekov (sic), artigo publicado em setembro de 1960, no Correio da Manhã em que apontava a correspondência entre a forma como o escritor respondia aos problemas de sua época com a resposta dos brasileiros aos impasses da geração de 60).

Essa ótica social e visão artística aproximam Tchekhov do brasileiro Guimarães Rosa. É possível estabelecer paralelos entre a vida e literatura dos dois escritores: ambos compartilhavam a paixão pela medicina e pela literatura e faziam deles os instrumentos para registrar e intervir nas questões e mazelas sociais de suas épocas. Ambos conquistaram o respeito e o sucesso que só criadores de arte podem alcançar.

Talvez isso explique minha admiração e vínculo com a obra de Tchekhov: o mais brasileiro dos russos e o mais universal dos poetas da vida cotidiana!

Obras do autor russo:

· 14 peças

· 02 ensaios

· 05 Novelas

· 178 contos

Sete obras adaptadas para o cinema:

Summer Storm (de 1944 e 2004), A Dama do Cachorrinho (1960), A Confissão (1970), Olhos Negros (1987), Vanya on 42nd Street (1994), Outono de Paixões (1996), O Jardim das Cerejeiras (1999).

Informe-se mais sobre Tchekhov:

·   Obras do autor russo:

o   14 peças        
o   02 ensaios
o   05 Novelas
o   178 contos

·   Sete obras adaptadas para o cinema:

Summer Storm (de 1944 e 2004), A Dama do Cachorrinho (1960), A Confissão (1970), Olhos Negros (1987), Vanya on 42nd Street (1994), Outono de Paixões (1996), O Jardim das Cerejeiras (1999).

·  O ser culto ou as 8 qualidades das pessoas verdadeiramente cultas, segundo Anton Tchekhov http://www.mdig.com.br/index.php?itemid=27939#ixzz3R5Fjh1yq

·   Are you there crocodile? Inventing Anton Tchekhov - livro de Michael Pennigton, Oberon Books, 2003

·   An Introduction to Anton Tchekhov - https://www.youtube.com/watch?v=aKKYtByZlx8

· Elena Vássina -  em Anton Pavlovitch Tchekhov - Um clássico contemporâneo da literatura russa, Revista Cult) http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/anton-pavlovitch-tchekhov/

Andrea Nogueira

Andréa Nogueira, natural de SP, é jornalista, graduada pela Escola de Comunicações e Artes da USP (79). Atuou em Agências de Publicidade e Empresas de Pesquisa de Comunicação e Comportamento, até 2002. Foi assessora de comunicação e eventos na área de educação. Especializada em jornalismo cultural escreve, atualmente, sobre Artes e Cinema, em especial, publicando em redes sociais e como colaboradora em sites especializados.

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