Do Baú: A multiplicação das raízes



Em tempos de importação cultural  (de ícones  e tradições de outros países) regida pela lógica do consumo, fico bem feliz a cada vez que descubro novos autores dedicando-se a escrever e recontar as histórias da nossa tradição oral. Nesse empenho estão presentes a conservação e a atualização: a memória e o diálogo com a contemporaneidade. A tradição é revisitada cada vez que um autor conta a história conservando os referenciais, o lúdico, a humanização. Por outro lado, pode o autor fazer  uma provocação: discutir as ideologias e valores à luz  da atualidade. O fato é que o folclórico e o maravilhoso estão em evidência na leitura de crianças e jovens pelo mundo e, ainda bem!, temos nossa seara tupiniquim sendo cultivada!

É claro que discutem-se questões de conto ou reconto, a elaboração do fundo popular em material literário, o tempero autoral, o ponto que aumenta e muda de lugar. Entretanto, este cultivo tem formado um circuito onde oralidade e escrita estão se retroalimentando, onde a leitura vem formando contadores e estes, por vezes, transformando-se em autores.

Foi a obra  “Contos Tradicionais do Brasil” de Câmara Cascudo meu primeiro marco na arte-ofício de contar histórias populares. Fui arrebatada! Um impulso que me levou à pesquisa e à prática. Tenho autores cujas obras senti mais empáticas ao meu jeito de contar histórias, como no caso de Angela Lago e Ricardo Azevedo. Por outro lado, são outros contadores de história – mestres com corações de aprendiz – que me encantaram com olhares, gestos e vozes e me levaram ao desejo de novas leituras. É realmente sedutor. E você? Tem seus autores favoritos neste campo?

Vejo raízes que sustentam estas artes multiplicarem-se. Resistindo à pedagogização e aos fins politicamente corretos, sobrevivem sacis e  malasartes,  bruxas e  mães-d’água, princesas e pretendentes, bocós e trapalhões, onças e macacos, gigantes e reis-cegos,  compadres da morte e fadas ...  tratando das coisas da vida e dos sonhos, dando-nos a oportunidade de processar sentimentos, de rir até dos nossos medos, de olhar sobre o bem e o mal.


Dedico esta minha primeira participação na Revista Pacheco ao acolhedores mestres Francisco Gregório e Maria Clara Cavalcanti. E à arte da “saciologia” de Margareth Marinho – tema para uma próxima conversa. Inté mais! 

Marisa Maia

Entre a Contação de Histórias e a Gestão Cultural, entre a Pedagogia e a Arte-Educação, entre ser  mãe e professora, Marisa brinca com o epípeto “sete-oficios-e-quatorze-necessidades” e coloca as  seus 25 anos de experiência a serviço da formação de leitores.  Seu projeto “Histórias Viajantes” recebeu o 2º lugar na Categoria Oralidade do Prêmio Ricardo Oiticica 2014 (Cátedra Unesco da Leitura – PUC RIO).  Também faz parte da equipe do Galpão Cultural em Bom Jardim –RJ.

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