O menino e o tempo


Era uma vez um menino, mas qual será o final dessa história?
E era uma vez o tempo. Os dois viviam brigando, 

O menino debochava e o tempo o castigava.

“Eu nunca hei de crescer”, o menino dizia.

O tempo retrucava: “ e jamais deixarei eu de ser”.

“Não gosto das tuas medidas”, acrescentava o menino com ira.
“São cruéis e inefáveis”.

“Todavia, caro rapaz, aquele que comigo não peleja viverá por longos anos”.

“Pois pelejarei contigo e contra ti irão todas as minhas forças. És o grande ladrão de homens, tira deles o prazer do amor eterno; usurpa o afagar de uma mãe por envelhecer os seus órgãos. Ainda cria a falsa idéia nas pessoas de que és incontrolável e de que nunca teremos sobre ti qualquer domínio.” 

O tempo então parou, curvou-se em seus próprios ponteiros e refletiu sobre todos os amores abreviados, desgastados, saudosos, não concretizados e até creio ter chorado prantos de arrependimento, e, olhando para o menino, finalmente respondeu:

“Não pelejes mais, meu menino. Vi o quanto sou impiedoso e monstruoso aos olhos teus. Ao meu lado a felicidade não está e nem quererá existir, posto que ela é finita e breve. E vejo claramente que é dela que estais falando, se a roubo dos homens, se a abrevio é porque a desejo tanto quanto a desejas. Sou enamorado dela. Descobriste a minha fraqueza e me reduziste a nada.”

O menino olhou profundamente nos olhos do tempo e disse: “Está bem. Nada és agora a não ser o teu próprio egoísmo, então como poderás devolver aos homens a felicidade, a eternidade e a plenitude?”

Em seu leito de morte, o tempo sussurrou: “Os homens saberão como deter-me. Tu já o fizeste por si só. Eles conseguirão caminhar rumo ao infinito e a eternidade e perpetuarão seus nomes e tudo de belo que fizerem. Peço-te perdão menino. Apenas por ter amado o que jamais poderia ter ao meu lado. Agora sigo solitário e peregrino à procura de algo que me preencha.”

O menino comoveu-se e prometeu ao tempo que acharia um jeito de fazer com que a felicidade fosse um dia a sua cúmplice, parceira e amante.

E este é o final da história de um amor.
Porém será este possível ou impraticável?
Entre a felicidade e o tempo? 
Não sei dizer-lhes ao certo. 

Só sei dizer que o menino cresceu, e não cresceu só, a felicidade andou com ele, ainda que durasse instantes, lá se ia o menino a compor uma canção, a escrever a sua obra, a gritar para todos os quatro ventos que era feliz apenas por ter observado e perpetuado pequenos instantes de felicidade.

Denise Oliveira

O que dizer sobre o tempo?
Esse poema falado trata do tempo em toda a sua personificação. Ganha vida e voz. E, se pudéssemos falar com o tempo?  O que lhe diríamos?
Para alguns filósofos  gregos  o tempo – Chronos  - pertencia ao mundo das sensações, ou seja, como cada um o percebia, portanto estaria dentro de um conceito da imaginação humana. “O menino e o tempo” se traduz como um olhar subjetivo e personificado do tempo, porém relevante e universal.

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