Contos & Crônicas - Entrevista com André Kondo



Para falar a respeito de Contos, nada melhor do que conversar um pouco com André Kondo, vencedor em primeiro lugar de um ou outro prêmio... Nada demais... Pega essa:
-Prêmio Cataratas, Troféu do Mapa Cultural Paulista (ex aequo), Concursos literários Mario Quintana, Yoshio Takemoto, Washington de Oliveira, Itanhaém das Letras, FNLIJ “Leia Comigo!”, Cleber Onias Guimarães (ex aequo), Contos do Tijuco, Jorge Andrade...

André Kondo é autor de livros também premiados... Coisa boba... Veja:
-Além do Horizonte, Amor sem Fronteiras (Prêmio Paulo Mendes Campos - UBE-RJ);
-Contos do Sol Nascente (Prêmio Bunkyo de Literatura, M.H. Prêmio Esfera das Letras, Prêmio ProAC -Governo de São Paulo);
-Cem pequenas poesias do dia a dia (Prêmio de Literatura UNIFOR);
-Palavras de Areia (Prêmio Alejandro Cabassa - UBE-RJ, Prêmio Estímulo de Cultura);
-Jabuti sabe voar? (Prêmio Maria Osternach Pedroso);
-Alguém viu minha mãe? (Prêmio CEPE de Literatura);
-O pequeno samurai (M.H. Prêmio Nacional de Literatura João-de-Barro).

André recebeu mais de cem prêmios literários (só isso???), no Brasil, Japão e Portugal. Pós-graduado pela University of Sydney, morou na Austrália e Japão, tendo viajado por 60 países. Vive de literatura (que inveja), escrevendo e também ministrando oficinas de criação literárias (já participei de uma, aguardo ansiosamente a próxima!!!).

Antes de prosseguir, gostaria de registrar aqui a minha gratidão e alegria por esta oportunidade. André, muito, mas muito obrigado pela atenção e por responder minhas singelas e breves perguntas!!!!


1 - Qual o elemento chave para que um conto, de fato, toque o coração de um leitor?
André: O conto é uma obra ficcional, mas mesmo assim ele precisa de verdade para tocar o coração do leitor. Por verdade não me refiro a um conceito absoluto, tal como a verdade buscada pela filosofia ou pela fé, mas simplesmente aquilo que nos torna humanos. É escrever algo impossível de se acreditar de uma forma tão “verdadeira” que ela se torna crível. Há várias técnicas para isso, mas o principal é ser sincero consigo. Você tem que acreditar no que escreve primeiro, para só depois entregar suas palavras ao leitor.

2 - Escrever é a arte do "observar e traduzir em palavras" o comportamento, a alma e o sentimento humano. Há os que dizem ser impossível ser escritor sem ser observador. Dentre os contos que já leu, existe algum que você eleja como o que melhor traduziu a alma humana?
André: A alma humana é intraduzível, pois acredito que estamos limitados a um mero conceito de alma. Mas levando-se em conta essa limitação, gostaria de citar o final de um conto belíssimo de um escritor que (por incrível que pareça) ainda não lançou um livro solo (esse pecado será corrigido em breve). O conto se chama “Último domingo ao mar”, e eis o final: “Todo mundo fala da beleza do mar, mas a maioria nunca ultrapassou os limites da areia”. Palavras de Éder Rodrigues, contista que conseguiu ultrapassar esse “limite”. 

3 - O que você diria para aqueles que tem o sonho de se tornarem escritores e consideram tal sonho como perdido ou algo inalcançável?
André: Repeti a palavra "sonho" várias vezes em meu primeiro livro, Além do Horizonte. Antes da jornada narrada nessa obra, eu também pensava que "ser escritor" era algo inalcançável, assim como seria alcançar o horizonte. Durante essa “peregrinação”, conheci vários sonhadores. Quando eu estava em um barco no Rio Madeira, conheci um rapaz que tinha um sonho simples: conhecer o Pantanal. Eu disse que estava indo para os lados do Mato Grosso e o convidei para ir comigo. Ele disse que não poderia ir e enumerou vários motivos, que eu ia rebatendo. No fim, ele ficou e eu fui para o Pantanal, onde pedalei dezenas de quilômetros pela Transpantaneira. No livro, escrevi: " 'Mas' é uma palavra terrível demais para quem tem um sonho". Não invente motivos para não seguir em frente com o seu sonho. Se você quer ser escritor, risque da sua vida a palavra "mas": mas não dá dinheiro, mas as editoras não dão espaço a novos autores, mas eu não sei como começar, mas as contas, mas meu pai, mas, mas, mas... Não seja advérbio adversativo. Seja verbo. Aja.
  
4 - Quando decidiu ser escritor, qual foi o seu primeiro medo? Como conseguiu superá-lo?
André: O primeiro medo foi o de fracassar. Escrevia páginas e páginas, mas sempre achava que não estava bom, que eu poderia melhorar. Fiquei trancado escrevendo, afastado de todos. Um dia, meu melhor amigo me ligou querendo falar comigo. Disse que queria desabafar, que estava querendo largar tudo, mas eu não dei importância, imaginando que um cara bem sucedido como ele não podia ter um problema maior do que alguém como eu, que estava vivendo como um fracassado trancado com seu sonho em um quartinho. Disse a ele que estava ocupado escrevendo o meu livro. Alguns dias depois, ele sofreu um acidente. Perdi o meu melhor amigo. Aquilo me fez sentir um lixo. Sentia que poderia ter evitado, que eu deveria ter ido lá conversar com ele. Então, fugi. Botei uma mochila nas costas e caí na estrada de novo. Peguei carona, acampei no mato, dormi na rua e em albergue de mendigos. E fui conhecendo tanta gente que me foi estendendo a mão. Essas pessoas invisíveis me enxergavam, estendiam a mão, dividiam o pão. Conheci catadores de latinhas, um pai cego que procurava o filho, um vendedor de rosas que tinha câncer mas que não desistia de lutar pela vida. Foi então que eu percebi que eu não tinha o direito de estar entre eles. Eu tinha uma família, amigos... Foi então que eu voltei para casa e escrevi o meu primeiro livro, narrando tudo o que passei nesses meses na estrada. E dediquei esse livro ao meu amigo... Acho que superei esse medo de fracassar, porque havia prometido escrever um livro pra ele.

5 - Gostaria que listasse cinco contos dos quais você acredita que uma pessoa não pode deixar esta vida sem ter lido.
André: O homem que sabia javanês, de Lima Barreto, por mostrar como o mundo deposita total confiança na superfície das coisas, não se importando em descobrir uma verdade que não serve a seus interesses.
Por um pé de feijão, de Antônio Torres, pela belíssima lição de resiliência.
O vinco, de Luisa Geisler, por apontar como nos dobramos em origamis, em formas bonitas, que escondem segredos não tão bonitos por dentro.
Cara no chão, de Jack London, pela engenhosidade em demostrar que devemos manter nossa serenidade, sobretudo quando o fim é inevitável.
Colinas como elefantes brancos, de Ernest Hemingway, por nos mostrar (ou não mostrar) que muitas vezes não teremos todas as respostas, e que devemos nos contentar com a pouca informação que temos para compreender a parte que nos cabe... Há muitos outros, incluindo de amigos escritores, como Jádson Barros Neves, Walther Moreira Santos, Alessandro Thomé, Henriette Effenberger, Éder Rodrigues, Zulmar Lopes, Simone Pedersen, Cinthia Kriemler, Rodrigo Domit, Edelson Nagues, Jacqueline Salgado, J.P Hergesel... Ainda bem que a nossa vida nos permite ler mais do que cinco contos, centenas ou até milhares deles. Mas não deixe para depois, comece agora.

Para saber um pouco mais a respeito de André Kondo, é só acessar o blog:
http://www.andrekondo.blogspot.com.br/

Até a próxima!!!


Hugo Ribas

Hugo Ribas é autor do livro Confesse-me, estudante de teatro, metido a escritor, e também pisciano... Ou seja: Desorientado.

2 comentários:

  1. Que entrevista ótima! Ficou incrível. E que mega bagagem do André Kondo. Ainda não o conhecia.
    Parabéns, Hugo!
    Abraços

    ResponderExcluir
  2. Que bom "reencontrar" o André Kondo por aqui! Conheci o trabalho dele trabalhando na organização nas edições do Festival "Um Jardim de Poesia" promovido pela Secretaria de Cultura de Bom Jardim (RJ) Ele acabou nos presenteando com um de seus belos livros: "Contos do Sol Nascente" .

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Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
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