Café Literário: Um indivíduo em Populópolis

Populópolis estava vazia, porque dentro era o seu quarto. Cortinas xadrezes fechadas, risos sem concordância ideológica com a realidade.

Populópolis era mesmo um campus de faculdade; no sábado de manhã, o céu era azul. Uma imagem de São Francisco, meio lunática, sempre olhava o céu; mas ela, não, contemplava sempre o chão cheio de bosta e restos de papel de sorvete e caroços de mangas chupados, depois lavados pela chuva, rolados e meio amassados de borracha de carro, rodeados de catarros cuspidos pelos homens. 

Os dias eram de outono, mas pareciam quentes que nem o inferno se o próprio capeta peidasse, e claro, cheiravam pior do que a enxofre. 

Assim entediada pelo espaço de Populópolis, apanhou o celular e ligou, e não havia ninguém para responder a suas questões filosóficas, prosaicas ou teológicas. Voltou a se deitar no escuro e não pode dormir; antes, ouviu o cemitério, o hospício, o asilo, o abrigo de menores e a penintenciária gritarem pelos séculos dos séculos. 

Então dormiu. Ao lado da cama, Mrs. Dellaway já não respirava, mas escarnecia.


Vivian de Moraes

Jornalista formada na Unesp de Bauru em 2008, trabalhei em periódicos diários, na Embrapa e no Sesc Araraquara.Tenho três livros publicados: "Sonetos Sombrios" e "Poemas e Canções", lançados na Unesp/ FCL Araraquara e no Sesc Araraquara no dia 4 de outubro de 2012, com tiragem de 200 exemplares cada; e "hacais/ vivian/ de moraes", lançado em outubro deste ano, com tiragem de 200 exemplares. Tenho um livro de contos chamado "Lesbos" e um livro de microcontos ilustrados, à procura de editora. Pretendo, ainda, escrever um livro de fundo autobiográfico sobre transtorno bipolar. Atibaiense, vivo atualmente em Araraquara/SP, onde estudo Letras (Francês) na Unesp. Em maio deste ano, a revista "Cult" publicou "Tesoura", poema de minha autoria, no espaço "Oficina Literária". Duas sequências de poemas meus também foram publicadas em novembro pela revista especializada online “Mallarmargens”.

Um comentário:

  1. Gostei. Um conto seco e crítico, de bom tamanho. Lerei outros, com certeza, quando acontecerem.

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