Café Literário: A selva


Era um dia tão seco como o Nordeste. Nenhuma ave cruzava o céu em uma tarde tão quente como aquela. Os urubus, tão negros como graúnas, refugiavam-se nas sombras dos enormes montes de lixo e, ali bicavam os alimentos recém-chegados dos caminhões vindos da cidade. Era um enorme terreno de terra batida, com montanhas e montanhas de lixo e entulho. Uma grande área morta. Os poucos habitantes que ali sobreviviam eram pequenos ratos e urubus e também algumas pessoas que por ali vagavam. Um zoológico aberto à visitação. Uma cadeia alimentar disputada a unhas e dentes. O ronco de um motor era o ruído constante daquele lugar. A toda hora dezenas de caminhões despejavam ali toneladas de restos de alimentos, papéis, plásticos e resíduos de todos os tipos e formas, envoltos em sacolas plásticas das mais diversas cores que davam vida àquele lugar. Agora, em bandos, os urubus e também os humanos, corriam em festa à procura da felicidade, que não se sabe de onde vinha, como vinha, mas que certamente chegaria. 

Ao redor da grande área morta-viva, em pequenos barracos de papelão, eles moravam. Uma comunidade. Eram cerca de cinquenta, distribuídos em dois, três ou oito por família. Pais e filhos, netos e avós, primos. Viviam mutuamente. Uma mão lavando a outra. Isso quando tinha água pra todo mundo. Costumavam ficar dois dias sem banho. Só as crianças tomavam, ao irem pra escola. Quando iam. Alimentavam-se dos restos pelo capitalismo exagerado da nata da sociedade que esbanjava no sábado à noite. E também no domingo, na segunda e na terça. Em meio às sacolas, que por sinal estavam fartas às vésperas do Natal, encontravam ora a cabeça de um camarão, ora a moela de um frango. E tudo o que pudesse ser cozido, era comido. E tudo o que era encontrado, vestido. Quando não servia em um, emprestava-se ao outro. Hierarquia. Somente os calçados eram descartados, gastos com o avançar do tempo. 

As casas eram erguidas com vergalhão grosso, metal e eram cobertas com papelão. Devido ao calor daqueles dias desmancharam os tetos metálicos. Uma camada de garrafas pet amassadas e cortadas, não deixava o papel molhar em dias de chuva. Eram todas quase iguais. Diferenciavam-se pela cor e pelo número de cômodos. Sala, cozinha, dois quartos. Sala, cozinha, um quarto. Sala e cozinha. Banheiro. Um único banheiro para atender o bicho de cinquenta cabeças. Ficava ao lado da casa vermelha de número trezentos. Tinha três vasos sanitários: um masculino, um feminino e outro infantil. Ao menos era organizado. Uma pia com lavatório e um chuveiro também davam requinte ao lugar. Para evitar filas e transtornos, cada família se banhava em um horário diferente. Tinham quinze minutos cada uma, segundo as regras impostas pelos administradores do banheiro, que eram os próprios moradores. Os meninos secavam na mesma toalha que o pai, as meninas, da mãe. Reuniam-se todos os dias às oito horas e dez minutos para assistirem ao jornal. Vez em quando alguns apareciam dando entrevista. Três televisores ficavam dispostos em cima de caixotes distribuídos milimetricamente para que todos pudessem assistir. E, após o término do jornal, voltavam para seus abrigos e comiam o que sobrara do almoço. As mães amamentavam o filho, os pais colocavam os mais velhos na cama, as irmãs despediam-se do namorado e um gato ou cachorro andava à espreita fazendo a guarda noturna. Ao fundo, o som das sirenes policiais e ambulâncias, quebrava o silêncio noturno. Acabara mais um dia, naquela real rotina. 

O amanhecer matinal não tinha o cacarejar de uma galinha. O habitual ronco do caminhão era o despertador. Às quatro e meia, ainda noite, lá estavam trazendo o restante do lixo colhido na noite anterior. E logo depois, os outros funcionários do dia continuariam o serviço. Em algumas casas, o cheiro de café aromatizava o ambiente fétido daquele lugar. Com o dinheiro adquirido por meio da venda de papelão, às vezes compravam pão ou bolachas. Um pão ou duas bolachas para cada um. Igualitariamente, um copo de café com leite. Mais um dia começava. Mais uma vez o sol ofuscava o olhar de uns e causava sombra a outros. 

Ailson Lovato

Ailson César Lovato mora em Castelo-ES e é estudante de Letras/Língua Portuguesa no Centro Universitário São Camilo-ES (Cachoeiro de Itapemirim). Participou de publicações de poesias em concursos escolares e publicou recentemente seu primeiro livro, “Agridoce”, uma coletânea de contos e crônicas.

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