Café Literário: Joana


Passos longos na esteira, as pernas em sincronia mostravam a concentração que não exercia em outros momentos da vida. Joana se cansara do trabalho e já tardara a se cansar da academia.

Gemia à noite de dor nas pernas, essas pernas vazias que só faziam se locomover no dia.

Entediada com o chefe carrasco, chorar nem podia, viver nem sabia, amor não conhecia.

Joana decidiu se exilar do quarto à noite, da academia foi direto à padaria e pediu um café pingado, quando avistou uma outra mulher ao seu lado, tomando café puro e sem adoçar ; parecia apreciar a vida doce que sentia naquele gole de café amargo.

Cabelos loiros tinha a majestosa mulher, uma paulistana nata, com olhar firme, cheia de cheiros, talvez perfume francês.

Joana se sentiu atraída, talvez pela coragem daquela mulher que certamente era maior do que a dela, para estar na padaria. Ela parecia vir rotineiramente pelo modo como se dirigia ao atendente. Joana, no entanto, fora do trabalho não sabia como viver em sociedade.

Pensava consigo mesma que as caras vêem coração, que ela mesma achava que não tinha.

Dirigiu-se à mulher, passou os braços por cima de sua mão e pegou um guardanapo, uma pequena frase de ‘’Obrigado’’, valeu-a o dia, quando Gilda, a mulher loira, de olhos castanhos, lhe agradeceu por ter segurado o copo que ela mesmo quase derrubou pela abordagem trêmula de Joana ao pegar o guardanapo.

Ela descobriu seu nome logo após uma ligação que Gilda fizera. Joana decide ficar mais, depois decide ir embora, quando se levanta, paga, agradece o troco, e o resto de café pingado de sua xícara cai e cai também o copo americano de Gilda que rola sobre o balcão. Gilda e o atendente olham para Joana levemente assustados ; Joana pergunta o nome do atendente que diz: - José Lucas.

- José Lucas, por favor...

Ele já se direcionando ao outro lado do balcão tira os cacos, enquanto Joana olha atenciosamente aquela situação, olhando também para Gilda, de soslaio.

- Obrigado, viu... Desculpa, boa noite.

- Não tem problema. Respondeu Gilda.

Joana tirou uma barrinha de cereais sabor morango do bolso e foi comendo, concentrada nos pensamentos, na vida que levava, que não era como daquela mulher loira de olhos castanhos.Sua voz era sempre trêmula, seus gestos atrapalhados, semblante congelado, exceto no trabalho onde todos involuntariamente atuam muito bem.

Descrente que pudesse mudar  aquela situação, aqueles passos vazios, aquela alta estima pela inércia sentimental.  Vivia entre amigos fantasmas, fruto de sua introspecção, e assim, habituada a repelir, sofria com a doença de não saber amar. Chegava a pensar que o amor era uma doença nata, um vírus intrauterino ; a necessidade do apego que se disfarça na cor rosa, tem um sentido torpe que o ser humano realmente precisa para se saciar.

Ela se sentia doente, era a única definição cabível para todos aqueles problemas, todas as dores que sentia.

Para uma vida sem sentido; para a realidade relativa; para a carne que aos poucos caía mesmo com a esteira que fazia.

- Mas quem sabe amar? Você? Ela ouve. Aparentemente alucinação, mas era voz de mulher, era Gilda, que vinha caminhando logo atrás, discutindo ao telefone.

Os mesmos traumas na voz, a mesma sensação de inferioridade perante o mundo, a mesma angústia. Pede justiça, a morte da impunidade, ser mulher ao telefone, na padaria, na calçada.

Ser humano em cima da escada, pintando paredes, ganhando trocados, morrendo de sede.

O existo sem auto-estima, o existo perplexo com a vida, com os relacionamentos. Era tudo que Joana queria, se sentir bem vivendo ali, mas não conseguia.

Amanda Araujo

Amanda Araújo, nasceu em 4 de Julho de 1994, é graduanda de Psicologia pela UFRJ. Além do amor pela psicologia há mais ainda o amor pela arte, especialmente pela literatura da qual ''se encontra'' desde que se entende por gente. Escrever sempre foi uma prática prazerosa por ser um canal do qual despeja seu lirismo e canaliza sua introspecção presente desde criança. Escreve contos, poesias, poemas.

Um comentário:

  1. Adorei!!!

    Adorei o seu blog e já estou a seguir :)

    beijos,
    Daniela RC
    Blog: Doce Sonhadora

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