Café Literário: Finalmente nua



Finalmente nua. Tira blusa, tira sandália, tira calça, calcinha, sutiã. O frescor do chão de mármore, deita no corredor, dá frio, levanta, melhor só nos pés, dá uma corridinha, os peitos balançam, incomoda, veste o sutiã, ridícula sem calcinha, melhor recompor-se, compor-se, comportar-se, vive comportada, tá cansando. Daqui a pouco vai dar fome, não faz mal, come o que tiver, nem pensar em sair pra fazer compras, pode ler, pode escrever, pode ver um filme, tem uma prateleira inteira de livros, montes de filmes, e que dizer do universo ilimitado encerrado na internet, poderia ficar horas por ali, e fica mesmo, perde o maior tempo, não limpa a casa, nem a cama anda fazendo, parece cama de cachorro, imersão produtiva, diz aos outros, os outros quem são, simplicidade absoluta, são o mundo e a vida como ela é, o contrário dela, que acha que é de outro mundo. Joe Tromundo, o nome do cachorro do irmão serve mais é pra ela, mas disso ninguém sabe, ela é comportada. Convoquemos todos, e que tragam laranjas para esta prisão. Trégua. Pra que brigar. Quanto durará? A ela não interessa, ela é priva de interesses. Querem me convencer que tenho escolhas. Rá. Nunquinha mesmo, diz, categórica. Agradece toda noite, gracias a la vida que me ha dado tanto. Só não me engane dizendo que posso escolher. Ame-se dentro para não perder-se lá fora. Mas o amor de verdade existe mesmo? Até hoje só ouviu falar. Silêncio. O coração está gelado. Cadê as histórias bonitas, cósmicas? Cética. Por quanto tempo esperaria pelo amor de sua vida? É muita coisa, muita roupa, muita planta, muitas cartas, muitos bibelôs, muitos banhos a tomar, para tirar cheiros, para por olores, o cheiro da morte chegando, cada dia mais perto, já espreita. Não quer ler nada, sobretudo não quer ler aquela carta rancorosa. Não quer ter nada, não quer fazer comida. Nutrir o corpo para nutrir a alma. Insensatez. É melhor ficar calada, já é calada, sempre foi, no meio do vozerio da vida. Paris, qual melhor lugar para ficar calada? Em alguns momentos alguém que ela perdeu há tempos aparece no corpo de um desconhecido, por um gesto ou um tom de voz inconfundível. Queria ser a convidada de honra da sua propria festa. Rancor, por uma memória mal gravada. E aquelas filas, gente? E o medo de se perder, e dava aquele vento. E aquela piada, gente? Até hoje ri como na primeira vez. Queria mesmo é ter tido um filho. Ou um gato que fosse. Mas não pode abaixar a guarda, precisa deixar sempre alto o nível de tensão. Talvez decida tomar coragem e saia de novo, para pegar chuva, para ser feliz, com certeza será feliz quando voltar. Prometeram-lhe soluções mágicas, com um sorrisinho no canto dos lábios. Ela lê a cores, lê nas entrelinhas, não crê em mais nada. Queria renascer, tentar de novo porque desta vez não deu certo. São muitas cicatrizes, a jornada é longa demais. Está indignada, acha que não entendeu nada, acha que entendeu tudo. Verdade que ninguém disse que era fácil.

Por isso anda nua pela casa, antes encolhia a barriga quando passava na frente do espelho, mas isso era em outros tempos, quando tinha menstruação e tantos fãs. Ama-se assim mesmo, em pé na frente do espelho faz o jogo do sério. E perde.

Regina Nadaes Marques
regina.nadaes@yahoo.com

Regina Nadaes Marques - Carioca, vive entre Brasil e Itália e é produtora cultural. Entre os principais prêmios por seus textos estão: Contos em Língua Portuguesa, Suíça, 2007; Prêmio do Juri, Concurso Arcobaleno della Vita, Itália, 2008; Concurso de Contos da Sec. Municipal de Niterói, 2009; Concurso Passaporti dal Mondo, Itália, 2010; Contos Mario Quintana, 2013. Em 2012 e 2013 seus textos foram selecionados para as antologias Machado de Assis (conto) e Rubem Braga (crônica) do SESC DF. 

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