Café Literário: Fama efêmera e seus alicerces de sangue

 
Eu só aceito papéis que foram recusados incondicio­nalmente por famosos escritores contemporâneos — meus ou de Shakespeare. Ou descartados por seus incorruptíveis agentes literários. Papel de pobre e de bobo já desempenhei, e desempenho, com maestria. Papel de pobre é muito fácil — basta acreditar em literatura como meio de sobrevivência segundo as decantadas descobertas de Darwin. Aquele ne­gócio de sobrevivência dos mais aptos e adaptados, por exemplo. O papel de bobo também é fácil — é só copiar um calhamaço original e enviar para uma editora. Em pouco tempo, recebo uma mensagem — que deve ser padrão para todas as editoras — dizendo que agradecem o envio, mas que o catálogo deles já está devidamente agendado até 2033, ou, até a Paula Lebre enviar seu novo, sensacional e insti­gante romance sobre dois vampiros góticos, de sexo não-definido, que se conhecem pela internet e descobrem que só apreciam sangue tipo B positivo com energizante. Eles iniciam uma quente relação virtual que engloba um lobo, dois duendes, um anjo de asas aparadas e um mago que pre­para elixir da beleza eterna com raspas de mandioca e de chifre de unicórnio javanês. E vai por aí até um semifinal que deixa os leitores sem fôlego e com gosto de guarda-chuva molhado na boca — e pedindo continuação, até com­pletar uma trilogia com duas mil páginas, trezentas mil mor­didas e metamorfoses e um total de seis mil litros de sangue com energizantes. Ao final, os vampiros voltam cada um para suas quentinhas cavernas virtuais. Prometendo retornar quando sair uma nova coleção de cosméticos que deixe o rosto parecido com pele de lagartixa albina depois de três meses de reclusão num porão escuro.

Como se pode ver, não tem lugar ao sol para meus es­critos sérios, baseados em fatos reais, com grau dez e meio no peso literário. Não posso furar a fila de candidatos hin­dus, malaios e britânicos nas nossas brilhantes editoras. Nem mesmo passar a perna nas infinitologias mordentes e suspirantes da Paula Lebre.
 
Voltando aos papéis recusados... puseram em minhas mãos — tão fatigadas de lustrar as teclas do micro — uma oportunidade de fama efêmera de arrepiar casco de tartaruga e causar frisson em rinoceronte descendo escada-rolante. Devo escrever o roteiro de um filme! Coisa de cinema, se­gundo o proponente. A sinopse já foi concebida por um exuberante produtor e versa sobre um alien que chega à Terra no dia da eleição presidencial no Brasil. O povo ordeiro e cumpridor dos seus deveres cívicos levanta cedo, comparece às urnas e deposita seu voto de confiança no possível melhor candidato. O ET, que é dotado de poderes desconhecidos por nós, tenta dissuadir algumas pessoas sobre as intenções dos candidatos. Ele, com seus poderes, vê o futuro. As pessoas, como zumbis de outros filmes, não acreditam no ET e seguem para o cadafalso, quero dizer, para as maquininhas eletrônicas de votar. Cada aperto nas teclas do número dos candidatos causa um apertão no coração do ET, que não consegue acreditar no que acontece. O ET transmite, por um monitor que existe no seu corpo, os telejornais do futuro — com todas as falcatruas, formação de quadrilhas, peculatos, sonegação de impostos, desvios de verbas públicas, conta em paraísos fiscais, etc. As pessoas dizem que é tudo filme, tudo ficção, tudo parecido com coisa de vampiros e outras criancices — tal como nos livros da prolixa e esfuziante Paula Lebre. As pessoas riem e se divertem com a preocupação do ET. Como são as eleições presidenciais no planeta do ET? Essa pergunta tem uma resposta subliminar ou subqualquer-coisa e fica por conta da esperteza ou da burrice dos espectadores — como tudo fica, aliás, aqui no nosso mundinho sublunar.

Desesperado, a seu modo extraterrestre, o ET começa a fumar crack e sua saúde definha perigosamente. Ele perde neurônios aos montes — que no seu planeta são chamados de X-Mente. Leia Écz-Mente. Ele se assusta, pois, mesmo com duas pedras fervendo os miolos, ainda é capaz de per­ceber a enganação política da eleição. Será que o povo, de corpo são e mente sã, não vê isso?

Nesse ínterim, ele, frequentando a Cracolândia, conhece uma moça que já está no vício há dez anos. Ela diz que já largou e pegou de novo o vício umas cinco vezes, assim como pegou e largou por aí uns dois ou três bacuris de pais desconhecidos. Agora, conhecendo o ET, ela tem certeza de que pode largar aquela vida suja de uma vez por todas, montar um barraco e trabalhar de diarista. Na moral, sa­cumé? O ET, que também se apaixonou por ela, diz que toparia entrar nessa de ter uns bacuris para fazer arrastão nas praias ou estourar caixas eletrônicos. Na boa, sacô? O ET, vendo a rapaziada do mundo inteiro se transformar em ma­nos, prognostica que o ‘Ser Humano’ deve passar a ‘Ser Mano’ em alguns milhares de anos. 

Não vou contar o final do filme, pois ele ainda está em estudos e provoca brigas de bastidores, demissões de cola­boradores e integrantes do elenco. Já escrevi boa parte dos diálogos e posso afirmar que são tão edificantes como os das novelas da televisão. Veja:
 
Cena 132. Noite. Apartamento chique do Walison num condomínio fechado na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Toca a campainha. Ele atende. Juclécio entra com tudo, de revólver em punho. Olhos injetados. Visivelmente drogado. Walison tem um copo de uísque na mão e a garrafa está próxima, na mesa.

Walison: Como assim? Você está invadindo minha casa?! Como passou pela portaria? Você está drogado?!

Juclécio: Tenho meu jeito. Subornei o porteiro — débil criatura que se rende a uma nota de cinco reais. Fácil! Va­mos ao que interessa...

Walison: O que interessa? 

Juclécio: Onde está a Dionélia? 

Walison: O que você quer com ela? 

Juclécio: Ora, a Dionélia é minha mulher!

Walison: Sua? 

Juclécio: Sim, nos unimos no altar perante Deus e tes­temunhas mortais.

Walison: Não seja tão cínico, Juclécio! Ela me contou que se aproximou de mim porque você mandou. Você, Ju­clécio Henriques, só queria me chantagear. Exigir milhões para não fazer escândalo e jogar meu nome na sarjeta. En­tão, sua mulher é uma mentirosa...

Juclécio: Está chamando minha mulher de mentirosa? 

Walison:  ...e uma piranha da pior espécie. Ela só pensa em dinheiro.

Juclécio: Você está exagerando, Walison. Não é nada disso, Walison! 
 
Walison: Sim, mas nós nos apaixonamos. Por isso, ela me contou. E ela não queria mais voltar para você. Um po­bre drogado. E eu a amava como nunca amei ninguém. Nem meu rottweiler. 

Juclécio: Walison, você já tem tudo, é rico, tem carrões, iates... Podia escolher a mulher que quisesse! Por que estra­gar meu sacrossanto lar?

Walison: Tenho tudo, mas não tinha amor. Não domi­namos o coração... Nem as paixões que brotam nele... Não sei o que será de mim sem a Dionélia. 

Juclécio: Eu também amo minha mulher... E ela tam­bém me ama.

Walison: Ela jurou que me amava acima de todos os homens.

Juclécio: Isso não pode ficar assim... Ela tem que ficar sabendo que sua fortuna é podre, que você nunca traba­lhou... Que foi você, Walison Alah-Ali-Alah, que mandou matar seu tio árabe para ficar com a herança. E que seu tio mandou matar o pai dele pela herança. E que o pai dele mandou matar o avô pela herança. É uma fortuna manchada de sangue há muitos e muitos anos... 

Walison: Não há provas contra mim! Sou inocente! Juro! Meu advogado já está cuidando disso... É o mesmo que solta bandidos da pior espécie. Não tem erro. Mas, você, você... é um drogado! O vício está te consumindo! Tua mu­lher te largou por isso! Se eu bebo demais agora é por causa da minha mulher, a Diênifer, que me deixou pelo fanqueiro MeC Trefe que vendeu um milhão de cedês. Ela é uma inte­resseira da pior espécie. Sugou meu dinheiro o quanto pode.  Mas eu não fui atrás deles. Eu tenho dignidade. Não ia me humilhar perante um zé-ninguém que progrediu graças à indústria fonográfica e seus truques — que fazem até um morto cantar bem. Porém, ela foi castigada. Soube que a Diênifer agora é apenas uma reles viciada em crack, pois o fanqueiro a deixou por uma linda bailarina do Faustão. E você, você agora quer me matar por causa de outra mulher que só ama o dinheiro... 

Juclécio: Você está promovendo a exclusão social, Wa­lison. Todos têm direitos iguais: favelados, drogados, fan­queiros, doutores... Somos seres humanos. Merecemos viver em harmonia! E que outra mulher?! Ela é minha mulher! Mãe dos meus filhos. Ela voltará para mim, Walison. Nada vai me impedir de ficar com ela... E você jamais contará coisa alguma sobre meu passado!

Walison: Então, você assume que seu passado é negro? É mesmo verdade que sua mulher...?

Juclécio: Isso você jamais irá saber...

Juclécio aponta a arma para o rosto de Walison.

Walison: Não, não faça isso, Juclécio! Vamos viver em harmonia...

Juclécio continua apontando a arma para Walison que tenta se proteger com as mãos na frente do rosto. Juclécio treme e transpira demais... Atira várias vezes. Sangue es­pirra pelas paredes. O litro de uísque e um portarretratos com foto de Walison e a mulher caem, quebram e fazem barulho. O uísque escorre pelo chão, misturando-se com sangue, sobre o portarretratos. Numa sutil denúncia contra a imoralidade das relações extraconjugais e o vício maldito do álcool. Música tenebrosa sobe.

Juclécio, esbugalhando os olhos: O que eu fiz, meu deus?! Dinheiro não traz felicidade! Se eu pudesse voltar atrás...

No chão, o corpo do Walison se metamorfoseia lenta­mente no ET. Que acorda, sorri com escárnio e estende as mãos crispadas na direção do Juclécio, que grita:

— Você?! Não, não, não! Isso só pode ser miragem. Prometo que nas próximas eleições vou... Socoooorrooour­gugoghrourrroooroooougggg!

Fade out.

Essa é apenas uma amostra da magnitude e da morali­dade dos diálogos.

Um dos finais do filme pode ser redentor — com o ET se livrando do vício e conseguindo, serenamente, convencer os terráqueos da roubalheira que é uma eleição. Além disso, casa legalmente com a ex-viciada — que, ele fica sabendo, era Diênifer, ex-mulher do Walison. Eles têm filhos saudá­veis, estudiosos e respeitadores dos mais velhos — acredite! Aí, embarcam num foguete e, em dois minutos, como só acontece nos filmes e nas novelas, estão no planeta do ET, que se chama Reden-Thor III e fica a apenas 60 mil anos-luz da Terra. Ou, pode ser um final para baixo — com o ET voltando arrasado para seu planeta a fim de reciclar as gra­vações malignas que exibia no monitor do corpo e pedir ajuda aos psicolorredenthores para zerar a mente poluída por nossa carregada atmosfera social. Ou, ainda, pode ser um alienante final trash, ao gosto do grande público, com vam­piros, zumbis — que são os outros personagens mortos du­rante a corrida louca em busca de dinheiro e prazer a qual­quer preço — muitos duendes, anjos de asas aparadas, lobos e magos... todos invadindo a sala de apuração das urnas e promovendo uma carnificina infernal. Tudo regado a pode­rosos efeitos sonoros e visuais, sangue jorrando, uivos, mú­sica pesada, maquiagens tétricas e metamorfoses avassala­doras. Numa delas, o mago Tritorix se transforma em um abacaxi gigante que usa piercings nas sobrancelhas e batom rubro nos lábios e um lobo vira um vereador de cidadezinha do interior do estado X, mostrando os caninos pingando sangue e uma mala cheia de dinheiro.

Vou tomar uma dose de energizante com vodca nacional e ver o que manda meu anjinho criativo. De qualquer forma, escritor de roteiro de cinema é um papel de respeito, pois foi recusado por Rubem Fonseca, Luís Fernando Veríssimo, Luís Ruffato e pelo espírito de Guimarães Rosa. Não é pouca coisa! Logo, deve ser bom demais para mim. Até des­confio que nem vão querer me pagar pela oportunidade de ouro, pois, dada de mão beijada, ela vai enobrecer meu cur­rículo. Aguarde. Em breve, num cinema longe de você ou num site-pirata com sopa de vírus e banners que garantem perda de 18 quilos em cinco minutos tomando chá de pico-pico e erva de passarinho.

Rui Werneck de Capistrano

Rui Werneck de Capistrano nasceu e vive em Curitiba – Paraná. Publica no www.clubedeautores.com.br

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