Café Literário: Como a minha vida


 A criança olha
para o céu azul.
Levanta a mãozinha.
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que não o alcança,
Quando o tem na mão.
(Céu, Manuel Bandeira)

Senti que alguém me tocava o braço. Olhei, mas não vi ninguém ao redor. Na verdade, já sabia disso, pois moro com minha mãe idosa desde que meu pai faleceu há dois anos – que Deus o tenha! - e ela já está dormindo há horas. Somente eu ainda estou acordado, terminando um trabalho que devo entregar amanhã na faculdade. Recomecei minha vida há três anos, após o divórcio. Para dar um novo rumo e andar por novos caminhos, decidi começar a faculdade de Administração, um sonho que cultivava desde menino. Não a cursei antes porque me envolvi com a Leandra cedo demais. Tempo de instabilidade e baderna. Mas assim que me livrei dessa confusão amorosa que consumiu doze anos da minha vida, decidi fazer tudo que sempre desejei antes de conhecer aquela mulher. Vivo um momento bom da vida, cuidando com carinho de minha mãe. Já que sou filho único, encaro isso tudo como uma oportunidade de agradecer a ela por tudo que me ensinou na vida e por todo amor devotado.  Sou feliz.

Mais uma vez, sinto que alguém me toca o braço. Olho, mas não vejo ninguém ao redor. Estou sozinho no escritório, tenho certeza disso. Levanto-me para pegar um cigarro. Há tempos venho tentando me livrar desse vício, atendendo aos pedidos da mamãe, mas ainda não consegui. Sinto-me bem fumando, embora também sinta certa dor na consciência, pois comecei a me interessar por cigarros após a separação. Não deixa de ser uma forma de me lembrar dela, infelizmente. Preciso parar de fumar.
Adoro dar um trago no cigarro de olhos fechados. A sensação é muito boa. Por que faz mal se é tão bom, meu Deus? é o que penso, perdido no escuro que só não é completo pela tela do computador. A pequena nuvem de fumaça que sai das narinas e volta para o rosto embriaga-me corpo e pensamento. Estou cansado, parece que o dia de hoje teve mais de vinte e quatro horas. Cada minuto que recordo do dia me vejo trabalhando. Preciso relaxar e fecho os olhos com este fim, enquanto a fumaça do cigarro vai me deixando tonto.

Estou nas nuvens. Caminho sobre elas com segurança, sem temores ou dúvidas de que sigo no caminho certo. Ajoelho-me, com as mãos postas no rosto, para tentar enxergar a terra lá longe. Mas nada vejo porque nada há a não ser minha existência nas nuvens. Paz, brancura, serenidade total. Começo a ouvir uma música que invade meus ouvidos e alma. Parece um canto gregoriano. Ao redor de meu corpo as nuvens, a fumaça de cigarro e o canto gregoriano. Nada de melhor poderia esperar para mim, pois a paz que sinto na eternidade desse instante extrapola meu físico. Isso aqui é ótimo, mas sinto que não é o céu; é um espaço divino e eu estou nele anestesiado frente aos meus problemas, esquecido do trabalho que deveria ser entregue amanhã na faculdade, absorto de minhas preocupações de filho único com a mãe idosa que dormia sozinha, sem sofrer por causa da Leandra.

Será que morri? penso, aflito. Mas essa aflição dura apenas uma fração de segundo. Sinto que alguém me toca o braço. Viro-me e vejo um Ser alto, muito alto, deve ter mais de dois metros, o que contrasta com os meus minguados um metro e cinquenta e sete centímetros. Ele está vestido com um roupão púrpura, cheio estrelas azuis desenhadas, uma vestimenta linda, feita num tecido grosso, rude, parecido com juta, de tonalidade encantadora. Está descalço e noto que, apesar de seu tamanho, seus pés são delicados. Os cabelos são muito negros e longos, estendendo-se pelos ombros. Tem um sorriso estranhamente sedutor, uma boca lívida e não rosada, como todo seu corpo.

- Que bom que chegaste. Esperávamos por ti há meses.

A fala dEle me assusta, porque traz à minha mente a certeza de que estou morto.

- Vamos, todos estão à tua espera.

Não entendo o que está acontecendo, mas instintivamente algo me diz que devo segui-Lo. Ele estende a mão, indicando-me o caminho que devo, ao seu lado, trilhar, e começamos a andar juntos, eu admirando tudo que vejo; Ele, de cabeça baixa, mãos cruzadas na altura do peito, numa atitude de respeito e devoção. Pisar nas nuvens é mágico. Sinto-me reconfortado a cada passo que dou. Além da paz, há uma extrema beleza que cerca todo esse lugar. Árvores tão frondosas como nunca vi, aves de plumagens coloridas, animais que correm ao meu redor, cachoeiras que respingam em mim suas águas mágicas. Casais que caminham de mãos dadas, crianças que brincam com coelhos alvos. Se tivesse de resumir isso tudo numa palavra, fico na dúvida entre harmonia e céu.

Paramos numa encruzilhada, e o Ser me diz que devo escolher uma das estradas e seguir sozinho. Paraliso-me. Não pensei em seguir só, não é isso que desejo. Nem bem conheço o lugar e não consigo imaginar o que me espera. Ele, porém, é inflexível. Olha-me com seriedade e ternura e apenas me diz:

- Segue. Segue só. Ao final da estrada que escolheres, encontrarás os muitos que há muito te esperam.

Sinto que não valerá iniciar uma argumentação; o Ser, acima de tudo, é sábio, sinto isso. Olho-o como quem se despede e a sensação que tenho é de que digo adeus a um amigo antigo. Ele acena a cabeça e desaparece num clarão.

Estou só outra vez. Não no meu escritório, não na minha casa; só num espaço etéreo, só comigo mesmo. Respiro fundo e escolho. Sigo pelo caminho da esquerda, porque dizem que esse é o lado do coração. Meus passos, porém, não mais encontram a leveza anterior; piso pesado, gastando uma força imensa cada vez que preciso levantar o pé. Penso em desistir e voltar, mas sei que preciso seguir. Vou me sentindo cansado e procuro me distrair admirando a paisagem ao meu redor. Mas o que vejo me causa espanto, não prazer. Vejo pessoas, muitas pessoas chorando num canto; crianças que atravessam meu caminho me estendendo as mãos. Pedem algo de mim, mas não quero pensar que têm fome. Viro o rosto para a sua fome. Vejo cantos escuros, de onde se ouvem gritos de dor. Mulheres seminuas que se insinuam enquanto passo. Uma delas, reconheço, é a Leandra. Veste-se com roupas mínimas, que tenta esticar quando me vê passar. Não entendo o que vejo e é cada vez mais difícil caminhar. Tenho a certeza de que escolhi a direção errada. Meu Deus, caminho para o inferno e ele se aproxima a cada passo que dou! Paro no meio do caminho, mas recomeço a andar porque o que sinto ao parar é uma vertigem intensa e uma ânsia de vômito e tenho medo de sujar as nuvens, tenho medo de desfalecer e nunca mais acordar. Tolo, como sou tolo! Quem garante que estou acordado, afinal? Talvez esteja morto e caminhe, mesmo, para o inferno. Mereço isso. Tudo vai ficando escuro. No céu acima das nuvens, começa a anoitecer. Ou será que é a escuridão desse lugar horrendo que se estende sobre mim?

Sinto que alguém me toca o braço e que dessa vez é um toque com força, um toque que chega a parecer violento. Olho ao meu redor e vejo muitas pessoas, mais do que desejava agora ver. Todas me olham, me julgando com o olhar. Preciso parar de fumar e parar de pensar na Leandra. Preciso parar de me masturbar pensando na Leandra. Preciso parar de dizer para os outros que adoro minha mãe e confessar que não suporto mais trocar as fraldas geriátricas daquela velha porca, imunda que caga todo dia. Sinto-me envolvido pela fumaça de muitos cigarros. Preciso terminar essa droga de trabalho e ele tem que ficar muito bom, porque se eu não tirar uma boa nota nessa matéria, vou ter que cursá-la de novo no semestre que vem. E não tenho saco nem dinheiro para cursar essa matéria de novo no semestre que vem. Preciso ter coragem de me olhar no espelho e gritar pra mim mesmo fracassado!, infeliz! Mal amado!. Preciso me dizer essas coisas todos os dias pra ver se eu esqueço a maldita da Leandra e tenho coragem de largar minha mãe no asilo. Lá vão cuidar dela melhor e talvez ela até encontre um amor que eu não tenho para lhe dar. Porque meu amor foi todo embora com a Leandra. A desgraçada da Leandra que se foi e levou a melhor parte de mim. Se é que eu tinha uma parte melhor.

Sinto que alguém me aperta o braço, mas não quero olhar quem é que me toca. Porque tem muita gente por aqui e muita gente feia e que não quero ver ao meu redor. Só queria dar um trago no cigarro, porque me faz um bem danado fumar. Na fumaça do cigarro, se fecho os olhos, vejo Leandra nua, dançando pra mim. Por isso não deixo de fumar, porque toda vez posso ver Leandra nua, porque na fumaça ela aparece pra mim e dança pra mim e às vezes até me diz “eu te amo”.

E é da fumaça de um cigarro (ou seriam nuvens?) que vejo saltarem as mãos da Leandra estendidas na minha direção. Pintou as unhas de vermelho, a Leandra, do jeito que eu sempre gostei. Tem unhas longas e finas que me chamam, e eu, louco de amor, agarro suas unhas, suas mãos, seu corpo, agarro a Leandra toda, e vamos juntos flutuando por entre as nuvens, de volta para a Terra. Ela é minha salvadora, vai me tirar desse pesadelo. Vamos abraçados e estou feliz; nenhuma gravidade ou medo de morrer me tiraria o prazer de agora, abraçadinho, fugindo do inferno, com a Leandra. Que me abraça forte, ali, em queda livre, me aperta e espreme e me deseja sufocar e eu grito “pare com isso, Leandra!”, mas ela quer me matar, para eu pagar todos os pecados que cometi contra ela, ela me espreme junto a seu peito e me vejo perdido. “Leandra, Leandra, por que me abandonaste?”. Leandra apenas ri - e sua risada me ensurdece - e sinto que ela me larga - e olho desesperado suas unhas vermelhas cada vez mais distantes - e fecho os olhos porque sei que vou morrer assim que tocar o solo. Apago. Desperto. Não sei.

Vejo o cursor do Word que pisca intermitente na tela e lembro-me de que já é dia. Esfrego o rosto, como que para tirar de mim qualquer resquício de uma noite mal dormida, do inferno do pesadelo que vivi, das lembranças que me atormentam para sempre. Dou o comando para a impressora e nem percebo que meu trabalho vai ser entregue sem uma conclusão. Incompleto como a minha vida.

Simone Xavier de Lima
sxavier@escolasesc.com.br                  

http://tecidoseescritos.blogspot.com.br/
 

Sou professora de Língua e Literatura. Amo ler e escrever. Meu primeiro conto foi publicado recentemente no livro Mentes Inquietas, da Andross Editora. Tenho trabalhado, com entrega total e grande paixão, para que venham outras publicações. Escrevo porque preciso sentir-me viva.

4 comentários:

  1. Parabéns pelo texto! Bem escrito, vocabulário agradável e história bacana. Muito bom!

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  2. Bom, acredito que poderia ser mais direto em certas situações.

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  3. Adorei descobrir o blog :)
    As propostas dos desafios são súper interessantes!

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Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
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