O espelho de Anúbis

   

Os mares eram azul-esverdeados e com poucas vagas. Tão belos e magníficos como em uma canção ou pintura. O vento noroeste era fortíssimo e impulsionava com vigor o navio, que estava a todo pano. Eram ao todo trinta homens, contando o cozinheiro e o capitão. Pacheco era o segundo homem do brigue, mas assumira o comando após o desaparecimento de seu irmão Arnaldo. Tinha por volta de quarenta anos, olhos e cabelos castanhos e uma espessa barba – resultante de vários dias no mar – um tanto queimada pelo sol, assim como sua pele, que também tinha cicatrizes e o desenho mal feito de uma sereia no braço esquerdo, na altura do ombro. Usava uma calça de brim azul escuro, bastante surrada e botas de couro. A camisa de botões era de cambraia, branca, aberta até a altura do diafragma. Adornavam seu pescoço cordões de ouro, e anéis seus dedos. Praticamente toda a tripulação usava um adorno dourado, tudo proveniente de carga roubada, assim como o navio, o Dona Francisca – homenagem à mãe do capitão – “adquirido” da Marinha Portuguesa por ocasião da independência do Brasil.

O capitão observava do tombadilho o horizonte. Estava armado de espada e uma velha garrucha. Há meses procuravam a rota das colônias européias na África, cuja carga de seus navios era formada basicamente por especiarias e pedras preciosas, entre elas, diamantes. Seus homens estavam tensos, no limite de seus corpos, discutindo por qualquer coisa, chegando a espancarem-se algumas vezes. Pacheco já havia decidido que se houvesse outra confusão dessas, jogaria quem quer que fosse ao mar. Seu cão o observava igualmente, como se estivesse preocupado. Sua cabeça estava tombada de lado e uma de suas orelhas estava um pouco levantada. Era um vira-latas branco, de porte médio, com uma mancha preta em um dos olhos, e uma grande mancha preta, com a aparência de uma faixa, que passava de seu peito indo até seu dorso.

— O que foi Saturno? Fique tranqüilo, está tudo bem... – disse ele dando tapinhas na cabeça do cão, que sorria ao abanar o rabo.

A tarde já se aproximava e o sol mergulhava no mar com a aparência de uma imensa bola vermelha e o capitão tinha até a impressão de ouvir o fervilhar das águas... As sombras tornavam-se cada vez maiores e apontava na direção contrária ao do crepúsculo, quando o vigia do mastro deu o alerta.

— Capitão! Navio à vista! – gritou o marinheiro, um sujeito de expressões maltratadas e carrancudas.

— A que distância? – disse Pacheco, voltando-se rapidamente, com interesse, na direção do homem.

— A umas sete mil jardas, a noroeste... – disse o homenzinho, mirando a direção com uma arcaica luneta.

O capitão caminhou até a parte mais de vante do tombadilho, de onde podia avistar quase todo o convés e, desembainhando sua espada, ergueu-a, num gesto cerimonioso.

— Homens! – bradou ele. – Acabamos de encontrar o que tanto almejávamos! Há no horizonte um tesouro, que está a nossa espera, como as mulheres quentes e úmidas do cais! Ajustem as velas! Nosso destino está traçado! Quero que ponham suas almas neste combate. Todo o leme à bombordo! – gritou Pacheco apontando a espada na direção. Os marinheiros o obedeceram após gritarem em uníssono algo como um grito de guerra. Saturno latia e pulava em volta de Pacheco fazendo festa. O timoneiro puxou o timão com toda a força enquanto os outros marinheiros ajustavam as velas, com euforia. Esses homens não tinham família, nem posses. Suas vidas eram o mar, o navio e as meretrizes. E agora, com a iminência de um combate, e talvez um grande tesouro, todos os ânimos estavam exaltados e todos os seus problemas foram esquecidos.

Navegavam a toda velocidade, mas o navio alvo mantinha-se distante, apesar de estar mais próximo do que antes.

— Já pode avistar sua bandeira? – perguntou o Capitão ao vigia, sempre seguido por Saturno.

— Parece não ostentar bandeira alguma, senhor...

— Qual a distância?

— Quatro mil jardas... – disse o marujo com desdém.

Pacheco mostrava-se cada vez mais tenso, verificando as atividades de seus homens e debruçando vez em quando na balaustrada para observar o navio misterioso. Ele tornava-se cada vez mais próximo e então um denso nevoeiro começou a se formar. Saturno estava arrepiado desde seu pescoço até a cauda e latia com furor na direção da embarcação.

— O que foi amigo? – disse ele tentando acalmar o cachorro, mas não teve nenhum resultado. Determinou então que os homens baixassem algumas velas para diminuir a velocidade de sua nave, mas pouco antes que eles cumprissem suas ordens, o mar foi tomado de uma grande e terrível calmaria, completamente inexplicável, e o Dona Francisca continuava a se aproximar daquela silhueta, como se ela a estivesse atraindo. Se a situação fosse diferente, teriam desfraldado a bandeira negra e dariam alguns tiros de canhão para intimidar sua presa, mas perceberam à distância que havia algo errado. Não havia o menor sinal de vida, apesar de todas as velas estarem nos topes.

O frio era intenso, seco e inacreditável, pois há pouco tempo cortejavam um calor tipicamente tropical. O capitão foi até sua câmara e agasalhou-se com uma sobrecasaca negra, de feltro grosso e voltou ao convés principal. Aproximaram-se em meio à bruma, e os costados dos navios se tocaram levemente. Após verificarem que a área estava safa, alguns homens pularam no outro barco, atracando à contra bordo, amarrando espias onde podiam. Era uma nau, de madeira enegrecida, como se tivesse sido queimada pelo fogo. Pacheco foi um dos primeiros a embarcar, deixando Saturno extremamente nervoso a bordo, rosnando como nunca. Mantinha seu corpo arqueado, como preparado para um ataque. Caminhou no convés negro, e as madeiras estalavam a cada passo. Nunca tinha visto coisa igual. Onde estariam esses homens? À medida que caminhava, um cheiro pútrido misturado com a maresia invadia suas narinas, e dominaria qualquer um que ali embarcasse.

— Vasculhem todo o navio! – ordenou, e ele mesmo tratou de fazê-lo. Já não acreditava em nenhum tesouro ou riqueza repentina, mas qualquer coisa que encontrassem – mantimentos, água, roupas, armas – seria de grande valia.

Encontrou rapidamente a câmara do capitão e a cena que viu a seguir foi estarrecedora. Um homem – provavelmente o comandante do navio – estava debruçado sobre uma mesa, semi mumificado, e sua cabeça voltada para o lado direito, com os olhos e bocas bem abertos, apresentava sua face com uma expressão de profundo terror. Seu corpo parecia ter dias, talvez meses, mas por qualquer motivo estava bem conservado.

Pacheco deixou o cadáver e seguiu vasculhando a câmara, que era iluminada por clarões de relâmpagos que invadiam as vigias do compartimento, que não tinha muito luxo, apesar de ser o principal cômodo do navio. Sentiu seu coração bater mais forte. No centro da câmara havia um grande espelho, de mais ou menos um metro de altura, por sessenta centímetros, com uma base firme e duas colunas de sustentação. Sua moldura, assim como todo o resto, era feita de ouro maciço, e decorada com uma escrita antiga, mais parecida com desenhos, e a figura mais comum era de um homem, usando algo parecido com uma saia, sendo sua cabeça, sempre de perfil, semelhante à de um cachorro com focinho comprido.

A cada lado do espelho havia dois grandes baús, repletos de esmeraldas, mas era impossível de serem vistos por Pacheco, tamanho era seu fascínio por tão pitoresca peça. Aproximou-se mais da face de vidro, e ficou a contemplar seu reflexo por alguns minutos. Uma forte tempestade se anunciava lá fora, com raios, trovões e ventos de grande intensidade, mas o capitão permanecia ali, hipnotizado, alheio a qualquer outro fato, por mais relevante que fosse. Foi quando o horror lhe assaltou. Seu reflexo ganhara um aspecto cadavérico e sua expressão tornara-se demoníaca. O sorriso apresentava grandes e pontiagudos dentes e seus olhos tornaram-se vermelhos e verticais, feito os olhos dos felinos. Pacheco saltou para trás, empunhando sua espada.

— Assustado? – disse o reflexo, ainda com o sorriso maligno.

— Quem é você? – perguntou Pacheco, assustado. Sua barba estava alvoroçada e sua pele era lívida como um copo de leite.

— Ora, não se reconhece? Eu sou você. Somos a mesma coisa. Assustado? – repetiu ele com deboche.
  
— Não pode ser eu... – disse perturbado.

— Horrível, não é mesmo? Mas é assim que você é. Como acha que deve ser a alma de alguém capaz de matar seu próprio irmão? – disse com os olhos vidrados e o sorriso firme. As palavras ecoaram na cabeça de Pacheco.

— Eu não matei meu irmão! – gritou ele, completamente descontrolado.

— Não seja tão modesto... Arnaldo está aqui conosco... e nos contou tudo...

— Foi ele que se atirou ao mar! Acho que... que estava... louco!

— E não fez nada para ajudar, não é mesmo? Sua morte veio a calhar. Ganhou um navio, homens sob seu domínio... poder. Antes era apenas um capacho, um pau mandado! Admita! Você é cruel! Ganancioso! Não poderia poupar a existência insignificante de Arnaldo! – disse  numa gargalhada medonha. O navio balançava mais e mais e toda a madeira rangia como um choro agudo, um lamentar sombrio de alguém à beira da morte.

— Isso não é verdade! – gritou o homem com lágrimas nos olhos. Sempre foi frio, forte como um leão, mas neste momento tremia como uma criança. Seu reflexo então, em questão de segundos, transfigurara-se em Arnaldo. Parecia uma espécie de zumbi, magro, a pele branco-amarelada, com os olhos saltados e o grande bigode e a mesma careca, mas... sim, era Arnaldo. Chorava desesperadamente, soluçando, e tornara-se tão frágil como jamais fora em vida.

— Por que me deixou morrer irmão, por quê? – gritava ele, batendo com os punhos cerrados no espelho.

— Isso não é possível! Estou enlouquecendo feito você! – disse Pacheco sacudindo a cabeça, só agora se dando conta dos baús de esmeraldas. – Darei o fora daqui! – disse guardando a espada e enchendo as mãos das pedras preciosas e guardando em seus bolsos.

— Volte aqui seu bastardo desgraçado! – disse Arnaldo ganhando a mesma expressão demoníaca do reflexo de seu irmão. Pacheco pegou o que pôde e correu para atingir a saída da câmara, enquanto a imagem do espelho esbravejava todo o tipo de injúrias, vociferando com espuma no canto da boca, segurando nos cantos do vidro feito uma fera selvagem presa numa jaula. Contudo, surgiu à sua frente o capitão do navio, o mesmo que estivera debruçado na mesa, agora transformado como o reflexo, com sua espada em mãos, com a lâmina enegrecida pela ferrugem, e intentava impedi-lo de sair.

— Ora, seu cabeça-de-tainha! Como ousa saquear meu navio? – disse ele, espalhando seu hálito podre, nauseabundo pela câmara. A embarcação jogava de forma cada vez mais violenta, e Pacheco podia ouvir as ondas arrebentando no costado, com toda a força.

— Volte para o inferno, monstro! – disse ele atacando-o com a espada. Travaram uma luta de golpes rápidos e fortes. A criatura brandiu sua lâmina na diagonal, com ambas as mãos, que foi prontamente defendida, e o golpeou com o pé com uma força descomunal, atirando o capitão do Dona Chica sobre a mesa, que na queda perdeu a espada.

Aguardando outro ataque, Pacheco virou a mesa para ganhar tempo, mas a arma do monstro cortou o móvel de madeira maciça como se fosse um pedaço de queijo. O capitão rolou para o lado e conseguiu pegar sua espada que escorregava no assoalho encardido e pôs-se nas costas de seu adversário. Com um só golpe, rápido e certeiro, decepou a cabeça da criatura, derrubando as duas partes ao chão.

— Desgraçado! – gritou a cabeça enquanto rolava, e o corpo rastejava celeremente como um lagarto, na direção de Pacheco, que sai da câmara, alcançando enfim o convés principal. Seus marinheiros enfrentavam o mesmo tipo de criaturas que ele enfrentar e a tempestade desabava em gotas grossas que feriam a pele. Os clarões de relâmpagos iluminavam os navios que se debatiam presos pelas espias, e os trovões, como o som de um metal pesado, eram ensurdecedores. As ondas eram tão fortes e tão altas que ao lavar o convés levava alguns marujos para o abraço das sereias.

— Cortem as espias! – ordenou Pacheco aos homens que se mantinham no seu navio. Os marinheiros atacaram os cabos que se partiram facilmente, e o Dona Francisca começou a se afastar.

Ele enrolou o braço num cabo de uma vela e o golpeou com a espada, que foi atirada longe. O peso do pano ao descer jogou o capitão para cima, e ele impulsionou o corpo para o Dona Francisca, que estava com banda para bombordo, e soltou o cabo no momento certo. Pacheco caíra no convés lavado pelas ondas. Saturno escorregava de um lado a outro e ele precisava resgatá-lo. O capitão rolou até bater de costas em um dos mastros, esticou o braço e segurou nos pelos do cachorro puxando-o para si. Um marinheiro governava o navio com toda força possível, tentando afastar o máximo possível o brigue daquela nau funesta.

— Icem todas as velas! – esbravejou Pacheco, assim que se recompôs, com Saturno lambendo-lhe as faces. Os homens, embora com dificuldades, o atendiam rapidamente. Ele caminhou agachado até uma antepara e recostou-se nela, seguido pelo seu cão. Tirou as esmeraldas e diamantes do bolso e segurou-as diante de seus olhos, dando gargalhadas aliviadas. Mas parou de rir quando percebeu que seus homens o observavam igualmente. Seus sorrisos apresentavam grandes e pontiagudos dentes e seus olhos tornaram-se vermelhos e verticais, feito os olhos dos felinos.

George dos Santos Pacheco

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