Café Literário: Suas pipas guardadas

Meu menino brincava, moço.
Fazia castelos com pouca areia,
Buscava flores caídas dos caules,
Soltava pipas já desbotadas.
Mas brincava.
Esta foto que eu trago, moça,
Já há três anos revelada,
É para eu não esquecer
Daquela chuva, da tal madrugada,
Que levou minha casa ainda em tijolos,
E cobriu de lama nossa calçada.
Eu segurei meu menino.
Agarrei a mão até onde eu respirava.
Mas quando a água inundou tudo, moço,
Meu amor de mãe perdeu força, perdeu asa.
E assim que acordei, ainda gritando,
Segurando o nada,
Chamei por meu menino:
“Francisco, Francisco, meu Deus”.
Nem resposta, nem pipa, nem nada.
Procuraram entre tijolos, entre gente,
Nas ruas sem placas.
E o corpo dele apareceu, moça,
Inchado da lama que o inundara.
Enterro rápido (era muita gente),
O corpo no caixão já nem me importava:
Eu só implorava a Deus que invertesse a água,
E que voltasse com meu menino sorrindo:
Sem ferida, sem lama, e
Com o pijama de barquinhos azuis
Em águas calmas.
O tempo passou, eu sei.
Para mim, doeu bem mais olhar o calendário.
Porém finjo que meu menino continua aqui:
E ontem ele fez aniversário.
Preparei o bolo favorito,
Decorei com chocolate colorido.
Mas não provei qualquer pedaço.
Rezei bem forte um “Pai-Nosso”,
E fui deitar com pressa em encontrá-lo.
Às vezes converso com ele, moça,
Sobre as mudanças,
Sobre o frio, sobre a reconstrução da cidade.
Hoje, por exemplo,
Falei sobre o Teleférico,
Sobre a esperança do povo renovada.
Porém, a Fonte do Suspiro continua destruída,
Não resta mais nada.
E meu Francisco não sabe disso, moça,
Ele achava lindo a história da pura água.
Agora, veja
Como ainda machuca
Aquela madrugada sem saída:
Até do Hino a lama levou um pedaço.
Só restaram as três almas,
Que, como a minha, gemem de dor,
Sem poder fazer mais nada.

Às vezes penso que,
Onde ele estiver,
Deve estar tentando acalmar minha saudade.
Deve dizer, com aquela voz tão educada,
“Mamãe, não precisa mais chorar,
A minha dor está curada”.

Ah, filho, como eu queria te reconstruir ao meu lado,
Assim como fizeram com o Teleférico,
Com o Igreja, com as pontes,
Com a nossa cidade.
Mas meu amor por você
É como a inexistência da fonte:
Em cada suspiro,
Sua falta tão aguda, sua presença irrecuperável.

E da mesma forma:
A pipa guardada, num canto, para sempre,
Por mais um de seus aniversários.

Déborah Simões.

Déborah Simões é natural de Fortaleza - CE. Graduanda em Letras - UFF, escritora, tem contos, crônicas e poesias publicados em coletâneas de concursos literários e em revistas. Em 2014, foi premiada em 1º lugar, na categoria poesia, e em 2º lugar, na categoria crônica, no 2º Concurso Literário da Câmara Municipal de Nova Friburgo, Troféu João Máximo.

"Suas pipas guardadas", vencedor do 2º Concurso Literário - Troféu João Máximo, na modalidade Poesia, promovido pela Câmara Municipal De Nova Friburgo.

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