Café Literário: Sobre os Laços que demoram em silêncio


Minha avó foi um tipo de bondade diferente sobre a terra, dessas que passam despercebidas em meio a olhares tão apressados. Não, ela nunca criou uma ONG nem qualquer projeto social. Essas coisas aparecem demais. Vovó tinha passos lentos, uma letra linda, cheiro de lavanda e os óbvios cabelos brancos. A bondade estava implícita em seus olhos amendoados, em sua paciência no cuidar das flores, na preocupação com pratos cheios à mesa, no amor enorme por cada neto (que dispensava coisas caras). Vovó era feita de gestos simples, sem a cobiça de se expressar antes do outro, sem urgências soberbas. 

Talvez, por essas tantas qualidades silenciosas, ninguém tenha compreendido o processo que a calou muito antes do próprio fim: quando meu avô morreu, ela, simplesmente, olhou bem para o caixão e nunca mais voltou de lá. Em sua casa, onde tudo era vida e bagunça colorida, a cômoda organizada passava a denunciar a vida que já era distante. O espelho, no fim do corredor, revelava o que ainda restava dela: mãos trêmulas, corpo entregue, olhos perdidos (na busca por algo que nunca vinha). Minha avó tornara-se vítima do tempo que lhe restara. 

Cinquenta anos de dedicação a alguém que se fora primeiro... Então, como ficar para trás? Como morrer por último, morrer depois? Filhos, apesar de todo o amor recebido, jamais saberiam dizer (ou entender) o que lhe doía. Tinham a vida que escolheram e as preocupações que lhes competiam. Sem tempo para uma conversa mais demorada, um olhar que evidenciasse a compreensão do silêncio que a esgotava. 

Penso que ela foi emparedada pelo passado, pela falta. Adoecera de ausência. Na cabeceira, a foto dos dois (tão felizes) evidenciava o amor que sempre compartilharam, como se nunca pudessem ser separados. A traição da velhice tinha sido inconsolável: levara ele antes dela, levara um antes do outro. O espírito leve e bom da senhora da minha infância, que costumava acordar às seis da manhã para cuidar do jardim, apagara-se repentinamente. Nenhum vestígio de resposta para as perguntas corriqueiras que fazíamos. Tudo nela parecia latente demais para ser anunciado.

E numa noite quieta e lenta, como sempre foram seus passos, a respiração da minha avó tornou-se rápida e descompassada: seu rosto foi ligeiramente tomado por um semblante agitado. Liguei para meu tio, para minha mãe: todos vieram urgentemente arrancados de seus compromissos. Colocaram-na em sua cadeira de rodas, falaram sobre o hospital que deveriam levá-la. Enquanto isso, aquela senhora tão calada de seu futuro, que parecia já não entender o que acontecia, observava, fixamente, a foto de seu marido: desta vez, com olhos repletos de um alívio recompensado. 

Pensei na morte dela naquele momento, em toda a muralha silenciosa construída, ao longo dos últimos anos, em sua própria face. Então, tentando uma aproximação atrasada, eu disse “tchau, vó”, o que soou mais como um adeus ensaiado e engolido pelo medo de se realizar. Passados alguns minutos, quando sua cadeira de rodas já atravessava a porta da sala, ela olhou ligeiramente para mim e sussurrou um “tchau” seco e seguro. E acho que só eu a escutei. Só eu. Não só pelo barulho nervoso de todos que estavam ali, mas pelo conforto que sua voz conseguira transmitir: minha avó, naquele último momento em casa, já não estava mais perdida. Ela finalmente sabia para onde estava indo.

Déborah Simões

Déborah Simões é natural de Fortaleza - CE. Graduanda em Letras - UFF, escritora, tem contos, crônicas e poesias publicados em coletâneas de concursos literários e em revistas. Em 2014, foi premiada em 1º lugar, na categoria poesia, e em 2º lugar, na categoria crônica, no 2º Concurso Literário da Câmara Municipal de Nova Friburgo, Troféu João Máximo.

Texto "Sobre os laços que demoram em silêncio", Segundo lugar no 2º Concurso Literário - Troféu João Máximo, na modalidade Crônica, promovido pela Câmara Municipal De Nova Friburgo.

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