Café Literário: Quem manda já morreu


O movimento na rua estava bem calmo no dia que antecedia o início de um feriadão no país. No desgastado balcão da copiadora que ficava no fundo de uma estreita garagem transformada em comércio no centro velho de São Paulo, Ruy encerrava mais um dos poucos atendimentos que fizera naquela tarde, sem contar os outros atendimentos que já tinha feito desde que levantou as pesadas portas da copiadora. Devido à localização do comércio, tinha também se especializado em prestar um atendimento a prostitutas, velhos mendigos, bêbados, meninos de rua e drogados. O atendimento consistia em expulsá-los ao menor sinal de aproximação. Eram as ordens do patrão.

Uma moça acabava de receber as cópias dos seus documentos, quando Ruy virou-se para percorrer os poucos metros que o separavam do caixa para apanhar algumas moedas que daria como troco. Os primeiros passos foram interrompidos pela atmosfera que se modificou subitamente dentro do recinto, além da voz cavernosa que veio do balcão. Ruy voltou o olhar para o balcão. Escorado nele estava um velho detentor de uma fisionomia perturbadora. Um cachecol quadriculado e encardido envolvia o seu enrugado pescoço. Tinha poucos e finos fios brancos desgrenhados sobre a cabeça coberta de manchas senis e um olhar soturno. Um grande casaco surrado de cor preta cobria o seu corpo magro e completava o manequim acompanhado de uma fragrância que remetia a um perfume barato. 

O medo e a dúvida paralisaram o atendente. Não sabia se tratava de um mendigo e, portanto, precisava correr para o fundo da loja e pegar um bastão de madeira para expulsá-lo ou se tratava de um perturbado cliente, tão comum naquela região da cidade, que merecia os seus préstimos.

- Oi! Preciso de umas cópias. – o velho tirou de dentro do casaco e colocou sobre o balcão uma pasta de papelão preta desbotada, com um elástico tão velho que já não conseguia fechá-la nas abas, deixando algumas folhas saírem. – Tome garoto, leve a pasta com você e preste atenção nos documentos.

Obedecendo ao pedido, rapidamente Ruy foi para os fundos. As máquinas ficavam estacionadas atrás de um biombo, estrategicamente dispostos para que o atendente não perdesse o controle com os olhares de pressão advindos dos apressados clientes no balcão. A pasta foi aberta. Surgiram vários papéis sulfites. Alguns amarelados, cuja cor denunciava que eram antigos e outros a coloração branca denotava que eram novos. A máquina foi programada e o bloco foi colocado cuidadosamente na bandeja de entrada.

Enquanto a máquina puxava os originais, Ruy conferia o que continha em cada cópia. Adorava bisbilhotar a vida alheia. Por intermédio dos conteúdos, conseguia xavecar as garotas que procuravam os serviços de cópias, bem como puxar assuntos com os vários clientes. 

Uma a uma as folhas foram sendo dispensadas pela desgastada copiadora. Chegou a dar uma risada pela estranheza do conteúdo. Cada impresso continha o brasão da prefeitura do município no alto da folha e no meio, um retângulo preenchido com letras adornadas informava a realização de um velório no cemitério municipal. Era um convite funesto. A risada foi interrompida, quando na bandeja Ruy leu o seu nome completo impresso numa das folhas. Com uma mão puxou a folha enquanto a outra acionou um grande botão para a interrupção das cópias. A máquina parou e Ruy ficou de pé ao lado dela, com o famigerado convite em suas mãos trêmulas. 

- Que brincadeira de mau gosto é essa, meu chapa? – segurando a folha, irritado, saiu por detrás dos biombos e foi em direção ao balcão e para a sua surpresa e desespero, não havia mais ninguém ali. Voltou para os fundos e pôs-se, então, a analisar os documentos entregues pelo misterioso cliente.

Observou que cada folha continha um nome de um falecido. Esforçou-se sem sucesso para resgatar na sua lembrança se conhecia algum nome que estava lá. Todos aqueles papéis informavam a realização do velório no cemitério da cidade e tinham a mesma data: 02 de novembro. O último convite era o seu. A sua curiosidade o fez desmarcar a viagem que faria junto com uns amigos para o litoral. Era difícil arranjar uma desculpa para não ir. Resolveu que não deveria contar a verdade. Quem acreditaria? 

Havia assistido várias vezes, pela televisão, a confusão que trazia a morte de pessoas que tinham nomes homônimos. Para evitar o início de um possível inferno que demandaria a sua ida a cartórios e a vários órgãos do governo para provar que estava vivo e que tudo não havia passado de um mal entendido, decidiu, no dia seguinte, se deslocar até o cemitério informado no convite para se certificar do que estava ocorrendo. 

O cemitério ficava na periferia da cidade, bem distante da sua casa. Programou-se, então, sair com bastante antecedência. Queria evitar atrasos, apesar das vias estarem vazias devido ao feriado do Dia de Finados. O carro passou por estreitas ruas de chão batido ladeado por barracos de madeira onde homens maltrapilhos escorados nas janelas dos casebres com um cigarro no canto da boca e mulheres segurando no colo crianças despidas, de rostos e pés sujos lançavam um olhar com um misto de curiosidade e reprovação pela passagem daquele veículo desconhecido. Ruy percebeu que o território era mesmo hostil para aqueles que não eram conhecidos da comunidade. O medo o fez acelerar ainda mais o automóvel para escapar daqueles olhares que o sufocavam. Uma espiada no GPS colado no vidro empoeirado do veículo trouxe um repentino alívio por estar no rumo certo.

Na primeira vaga que enxergou estacionou o veículo. O movimento era intenso na rua. Pessoas pelas calçadas e pelas vias carregavam buquês de flores e vasos de rosas. Outros mais humildes e para não deixarem de oferecer a uma homenagem, seguravam solitárias rosas já murchas pelo sol. As barracas que vendiam flores e que ficavam encostadas no muro do cemitério estavam abarrotadas de pessoas. Nunca imaginara que o Dia de Finados fosse assim, tão intenso num cemitério. Achava sem graça visitar mortos. No feriado, preferia ficar com os vivos, curtindo a vida em bebedeiras e churrascadas pelo litoral paulista.

Entrou no meio da massa que caminhava lentamente para dentro do cemitério. Conferiu a hora: atraso de meia hora. Esboçou uma corrida, mas foi impedido pelo andar vagaroso das pessoas que estavam ao seu redor. Entre um passo e outro rumo ao grande e velho portão da entrada desgastado pelo tempo, foi ouvindo choros e lamúrias entremeados por orações repetitivas daqueles que seguravam terços, vasos e velas acessas nas mãos.

O cemitério estava todo florido. O cheiro intenso de rosas que chegou de uma vez no olfato de Ruy, como um soco forte de direita no rosto de um pugilista, quase fez com que o café da manhã fosse devolvido ali no meio da multidão. Achou que não iria aguentar o aroma nauseabundo. Pensou em voltar, mas o seu pensamento sentia-se atraído por descobrir o mistério que envolvia o seu nome. Dirigiu-se, então, para o local onde os corpos eram velados.

Dentro da simples capela no espaço destinado para os parentes velarem o corpo, não havia movimento nenhum, muito menos a presença de um falecido, mas devia ter acontecido algo ali, pois ainda sobravam alguns adornos usados em cerimônias fúnebres, como aquela. O silêncio foi quebrado com uma tosse seca vinda do fundo, por detrás da mesa de granito onde era depositado o caixão. Ruy aproximou-se e tomou um susto quando um homem idoso vestido com um macacão marrom terra, utilizado pelos funcionários do cemitério, se levantou e o fitou. As palavras se empolaram na boca de Ruy quando ele percebeu que era o mesmo velho que atendera na copiadora. O aspecto tenebroso dele era o mesmo daquele que atendera na copiadora, mas seria mesmo ele? O raciocínio de Ruy estava atrapalhado com tudo o que sucedera e também pelo mal-estar desgraçado que sentia por causa do périplo feito para chegar até ali. 

- Você chegou tarde demais. O corpo já foi sepultado. – Disse o velho encarando Ruy. A voz baixa do velho, quase um sussurro, contrastava com o barulho da movimentação das pessoas vinda do lado de fora. 

Ruy emudeceu-se. Por mais que tentava, estranhamente a sua voz não saia e o seu pensamento havia sido anulado por uma força maior do que a dele. Havia se tornado um ser bestial controlado pelas palavras e pelo olhar imundo daquele velho.

- Vamos, eu te acompanho até o jazigo. – ordenou o ancião, obedientemente atendido por Ruy que saiu andando calmamente atrás dele no meio da multidão que tomava as estreitas ruas do cemitério.

Após uma pequena caminhada pararam em frente a um túmulo mal cuidado. Na verdade, era um amontoado de terra encabeçada com uma placa de mármore consumida pela ação do tempo, cuja leitura do nome da pessoa que ali jazia exigia um grande esforço. Uma fina luz solar atravessou a nebulosidade que começava a tomar conta da atmosfera e incidiu sobre a placa decifrando aquela mistura de letras: Elvira Miur. Num breve instante de sobriedade, Ruy percebeu que não se tratava do seu jazigo. Ensaiou uma corrida, mas as pernas não o obedeceram.

- Querida, mate a sua fome! Hoje é o seu dia. O dia dos mortos! Esse verme irá te satisfazer até o ano que vem. Rárárá. – A longa gargalhada esganiçada vinda da boca escancarada do velho deu vida a morta. A terra começou a ser revolvida e uma mão esquelética saiu da cova alcançando a perna de Ruy, que começou a ser puxada. Abriu-se uma fenda na terra enquanto o velho diabolicamente se alegrava com o desespero da vítima. O asfalto ficou manchado de sangue pela pele das palmas das mãos que se dilaceravam, enquanto o rapaz tentava, sem sucesso, se agarrar em algo para evitar a sua morte iminente. Deu um grito que saiu seco e mudo, ecoando somente dentro de si mesmo. Debateu-se na esperança de conseguir se desvencilhar da mão que, apesar do aspecto frágil, tinha uma força brutal. Empreendeu uma varredura com o olhar. Irritou-se ao ver que ninguém notava a sua luta contra a morte. Como último recurso, apelou para uma oração que não pôde ser completada, pois todo o seu corpo foi finalmente tragado por aquilo que parecia uma boca que mastigava com voracidade cada membro.

Um sorriso estampou a face enrugada do velho que saiu caminhando para, em seguida, sumir no meio da multidão.

Ruy acordou com o coração batendo doidamente dentro de seu peito arfante. Tentou se mover, mas verificou que algo o impedia. Alguns fios ligavam o seu corpo a uma máquina. No braço direito saía uma mangueira finíssima, cujo trajeto levava até uma bolsa transparente de soro. Não entendeu o que estava se passando. Forçou a mente para lembrar-se das últimas horas. Sem sucesso. Ruy gritou, e ouviu seu grito gritando de volta no pequeno quarto do hospital, e percebeu terrificado que, no pesadelo, havia dormido e sonhado que a sua morte... era apenas um pesadelo!

Angelo Tiago de Miranda
angelotiago@ig.com.br                  

http://www.geopraticando.blogspot.com

Angelo Tiago de Miranda nasceu em São Paulo, Capital, em 1983. É pedagogo, geógrafo, professor de Geografia e estudante de Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Escreve artigos e planos de aula no site UOL Educação (http://educacao.uol.com.br). Participa das antologias II Concurso História do Meu Bairro, História do Meu Município (Ed. Arte & Ciência), Olhares na Noite (Pergaminho Editora Online), I Concurso Literário História da Cidade - Embu 50 anos (Ed. Alexa Cultural), UFO - Contos Não Identificados (Ed. Literata) e Sombrias Escrituras – Antologia de contos sombrios – Vol. 1 (Ed. Literata).

Um comentário:

  1. Olha... que conto bacana! Gostei muito do seu texto, talvez usaria um sinônimo ou outro, além da supressão da onomatopeia da gargalhada, algumas repetições de palavras. História boa e muito bem contada! Parabéns!

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