Café Literário: O Crime do Chapeleiro




Ao me olhar nos olhos, Marta disse não ter visto a mim, mas a outro dela desconhecido. Imediatamente levantei-me da cama e fui ao encontro de mim mesmo no espelho. Ao deparar-me com a minha figura, tornei-me absorto como uma lagarta em um casulo e nunca mais voltei a ser o mesmo.

***

Levei um soco no queixo e instantaneamente senti o sangue escorrer pelo canto esquerdo dos meus lábios. As pessoas em derredor de mim observavam-me com aquelas suas caras assustadas, como crianças inquiridoras em buscas das respostas de suas perguntas curiosas. Os olhos grandes como os de figuras surrealistas pregadas em uma tela de desassossego investigavam a minha conduta e resignação. O homem ao qual eu havia ofendido olhava-me com olhos fugazes de raiva. O ódio o fazia parecer como um leão faminto pelo corpo da presa. Estava rubro como uma estrela escarlate. “Aqui não é lugar para brigas”, exclamou o dono do bar que surgiu num repente da porta que dava para a cozinha. “Ele quem começou”, disse o homem ao qual eu havia ofendido, alegando como uma criança a sua inocência, e como um bandido o direito de fazer justiça com as próprias mãos. Sorri levianamente ao ver sua atitude covarde e novamente ofendi-o com os mesmos xingamentos que havia feito antes. Ele olhou-me abruptamente dentro dos olhos e eu vi-me refletido na sua raiva, lá no fundo, dentro daquelas duas bolas negras. Vi-me como a um monstro ensandecido buscando naquele ato de loucura uma resposta para a própria abstinência de não ser.
O homem continuava a me fitar atônito, com as bochechas rosadas e o lábio inferior trêmulo. A ira despertada em seus movimentos. Novamente ele dirigiu-se até mim e socou-me. Agora, seu punho fechado, viera em direção a minha bochecha e eu senti quando um dos dentes soltara-se da minha boca e perdera-se no chão em meio aos pés das pessoas que nos cercavam, tentando fazer com que ele parasse de me bater. Insanidade. Eu deveria chamar aquilo de insanidade, mas não era o que eu pretendia fazer, precisava de uma confirmação, precisava da confirmação vinda da dor. 

O dono do bar, vendo tudo aquilo recomeçar e percebendo a minha culpa, aproximou-se de mim, pegou-me pelos braços e pediu, exclamando injúrias, que eu abandonasse o seu estabelecimento, ou ele chamaria a policia. O homem que havia me agredido saíra ileso de toda a situação, não fora culpado, nem por mim socado. Eu tinha assumido toda a culpa, e tudo se tornara claro. Era sempre minha a culpa. A de existir, a de não ser, a de... A culpa, sempre a mesma palavra incansavelmente dita pelos olhos dos outros. Os olhos que perscrutavam o meu corpo, os meus movimentos a minha conduta. Quem eu era além daquele fetiche vindo das sombras do meu âmago? 

Tudo começara com aquela maldita peça, aquela maldita interpretação. Todos no teatro achavam que aquele papel deveria ser interpretado por mim. Ah, mas já não bastava a interpretação que me cabia diariamente perante a sociedade? Não, para eles era pouco, muito pouco. Eu precisava emprestar o meu corpo para algo que não condizia com a realidade. 

Os ensaios começaram, eu seria o chapeleiro maluco, e aquela menina Alice. Ah, aquela menina... Alice. Por que mesmo sem ser originalmente a Alice dos livros ela tinha tanto de Alice em seus gestos, sua forma de falar. Era doce, encantadora. Mas não fora isso que me fizera chegar até aqui. Não tem nada haver com aquela Alice que não era Alice, mas sim com o mistério que cercava a vida daquele louco, o psicopata que seria interpretado por mim. Sim, o chapeleiro maluco não passava de um psicopata. 

***

“O quê você tem querido? Anda tão estressado com a vida, com tudo. O quê te incomoda? O quê está acontecendo?” Como ela com aquela sua cara de puta poderia entender o que estaria acontecendo, se nem eu mesmo me dava conta daquela metamorfose. O buraco se abria abaixo dos meus pés e eu tinha a certeza de quê o papel de chapeleiro fora o maior erro da minha vida. Aquele corpo-espectro agora me seguia em todos os momentos, a sua conduta psicótica havia tomado conta da minha personalidade. O quê Deus, eu fizera para merecer aquele papel?

Nos ensaios havia um mistério pairando no ar. Quem? Quem? Quem eu era? E todos me olhavam com os olhos interrogativos. Eu tentava ser a personificação da loucura. Estava fugindo dos padrões estabelecidos.

Passei o batom violeta nos lábios, pois era assim que o chapeleiro pintava a sua boca. A maquiagem branca e vermelha que deixava meu rosto com uma aparência de enfermidade. Eu estava enfermo. Haviam me induzido ao erro. 

***

Estava dentro do labirinto. Desconstruí-me e não consegui me reconstruí. A sombra do demônio notívago perambulava nas esquinas do meu âmago buscando o outro para assassiná-lo. Acho que assim o foi, e por dentro eu estava morto. Tudo, absolutamente tudo me causava um imenso desgosto. O pessimismo schopenhauseano havia tomado conta dos meus pensamentos, por mais alegres que tentassem ser, não haveria saída. A vida sempre haveria de terminar como numa tragédia grega. Chegaríamos ao nosso ápice e morreríamos. Foi essa a minha insatisfação. É essa a minha insatisfação. 

O chapeleiro trazia consigo toda a pachorra de alguém que almejava fugir da morte. Fugir da autodestrutividade do homem. Como? O homem é um ser autodestrutivo. Sado masoquista. Masoquista. 

***
Saí correndo pelas ruas da cidade como se fugisse de alguém. Como se fugisse de mim mesmo. Ali estava a confirmação da minha individualidade. Aquela busca compulsiva por uma poção anti mortificação. Deixem-me em paz! Todos os personagens da peça correndo atrás de mim, correndo, correndo. Começou a chover. Tropecei em uma pedra e caí. A minha visão tornou-se embaçada, porém na indefinição do meu olhar, pude divisar a imagem de um coelho apontando para um caminho. Almejava segui-lo. Tentei levantar, mas não consegui. De repente ouvi os sons de uma sirene. Fechei os olhos quando vi que um policial se aproximava de mim e me algemava.

***

Eu havia matado Marta, não sabia o porquê, mas havia matado. Encontrei na morte do próximo a definição da minha humanidade. Egoísta, era o que eu sempre seria. Julgado. Preso. E depois mandado para o manicômio. Eu sempre fui louco.

Marcos Welinton Freitas

MARCOS WELINTON FREITAS das Mercês, nascido no dia 22 de Julho de 1993 em Bravo, povoado do município de Serra Preta, é um poeta e escritor Baiano, graduando em Economia pela Universidade Estadual de Feira de Santana, autor dos livros de poesia Badalos do Século XXI e Poesia Proibida.

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Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

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"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

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