Café Literário: A Descoberta de Marcelino


Marcelino estranhava o esmalte rubro adornando as unhas da sua doce mãezinha, porém se prendia no afago gostoso aninhado em seus braços na prévia do adormecer. Se pudesse demoraria ainda alisando e adorando a maciez e alvura daquela pele, mas já bocejava aspirando o hálito que se espalhava sobre a cama junto à canção de ninar provinda da boca de sua rainha.

Preferia assim, quando o pai não estava em casa e, por vezes, desejava que o velho caminhão não retornasse mais, que derrapasse na estrada para ser somente eles dois e que momento como aqueles fossem eternos. Mas o pai, rude, sempre regressava da estrada apontando os dedos no queixo da esposa nas noites de perguntas, gritos e acusações. Marcelino nada entendia, só assistia o ódio crescer ao ver aqueles delicados olhos enxugando as lágrimas na barra da saia. Há tempos não brincava de cavalinho no colo do pai, não chutava mais a bola no gol e quando o velho caminhão parava na frente da casa, Marcelino se mostrava arredio e se chegava mais e mais para perto da mãe.

À meia luz do abajur o cansaço o vencia, a cabeça tombava pesada no travesseiro, o beijo recaia nos cabelos como um prêmio e o rangido do assoalho quando a mãe se afastava do leito, já não podia ser ouvido por Marcelino que sonhava na candura do seu mundo pueril.

**********

O estanque ribombou pela casa, em confusão o menino despertou se perguntando que barulho era aquele e disparou procurando a mãezinha. Em cada canto ele vasculhava chamando por ela e sentindo o cheiro do rastro de perfume deixado no ar. Logo percebeu que estava sozinho, e, curioso, estranhou uma silhueta requebrando distante na quebrada da esquina.

Matutou por algum tempo que o som ouvido era a porta se fechando, e ficou preocupado se mãe estaria vagueando solitária na noite. Tomou apressado um tamborete para alcançar o trinco da janela, os pequenos olhos calcularam a distância do salto. Marcelino dependurou-se pelo lado de fora e se atirou dando pequenos pinotes e reclamando choroso do impacto com o chão. Assim que os pezinhos envolvidos por grossas meias absorveram a dor da queda, saiu correndo se esgueirando nos muros vislumbrando um novo mundo misterioso que se mostrava. Aquela era a mesma rua que dividia com a mãe todos os dias no ir e vir da escola, mas havia vultos e ventos que não estavam ali quando o sol iluminava. O menino com seu pijama azul marinho seguia o rastro do cheiro e a imagem que se perdia em outra esquina, saltitando assustado cá e acolá quando um gato vadio cruzava o caminho.

De repente os sons ritmados passaram a ser ouvidos à medida que se aproximava do fim da rua, os risos e vozes misturavam-se num murmúrio uníssono, e quando chegou à curva, deixou um “Ahhhhhh!”, surpreso escapar pelos lábios, pois a dança lasciva imperava nas caixas de som que zuniam enquanto mulheres e homens tragavam, bebiam e cheiravam resfolegando no capô dos carros engatados uns aos outros.

À luz da lua os olhos pareciam chamuscas quais felinos, e Marcelino perdia o fio do doce aroma ao deparar-se com os seres na penumbra que o fitavam risonhos. As perninhas tilintavam e a imagem de uma mulher de vestido colado beijando estalado vários homens, fazia-o ter o peito comprimido.

- Vai pra casa, menino!

A voz rude ordenou com indiferença, Marcelino, confuso, se viu temeroso em ter deixado a mãezinha sozinha em casa e se afastou pensando no julgamento que ela faria ao vê-lo ali na rua àquelas horas. Culpou-se por não tê-la procurado nos cômodos com mais afinco e regrediu os passos pasmando momento ainda com aquele rosto curiosamente familiar: os olhos manchados de negro, os lábios vermelhos sangue e o lustre da pele pálida na densa maquiagem.

A voz feminina ordenou uma vez mais, o menino disparou em desespero para casa desejando o colo da mãe. Na cabeça o conhecido timbre retinia, e ele transpassava a janela em dois pulos e suava subindo as escadas desejando que o abraço no leito restaurasse sua paz.

- Mamãe? Mamãe?

No quarto da mãe somente o vazio. Sentado na cama Marcelino cismava e cismava sem entender as sensações que experimentava. Machucado e cansado recostava a cabeça ao travesseiro constatando que o cheiro impregnado nas fronhas já não tinha mais o mesmo encantamento.

Um momento antes de raiar o dia, a mulher de vestido colado cruzava a ombreira da porta e se demorava bamboleando ébria e estudando a figura do filho; que fingia dormir sobre o colchão. No peito de Marcelino um misto de dor e susto disputava espaço, mas ele engolia as lágrimas para derrubá-las no colo do pai assim que regressasse da estrada, com seu velho caminhão.

 
Maria Santino
Natural de Manaus/Am. Estudante de Ciências Biológicas e Curso Tecnológico em Gestão Ambiental. Participou da Antologias Flores do Recanto em Março de 2014 (Formato Digital) e Antologias Horas Sombrias e Aquarela - Ambos pela Andross Editora. .

Site: Recanto das Letras

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