Café Literário: Alice


A chuva caia fina e a linda Clara descia as escadas com rancor. Os cabelos negros e curtos o vestido branco longo, os braços a mostra; naquele momento Alice pensou “eu devia mesmo a impedir de ir” mas, o telefone tocou e era da editora, lembrando a data de entrega do original do livro que estava escrevendo, então com a certeza que a Clara voltaria, como fizera tantas vezes, não se ateve a ideia de perda que a tinha envolvido. A chuva foi ficando cada vez mais forte assim como a agonia. Abriu uma garrafa de vinho e foi escrever, dormiu, acordou e voltou a escrever. Não estava escrevendo nada proveitoso, só estava se esvaziando, tirando o resto de qualquer coisa que tinha em si. A gentileza do Marcos, o sexo forte e afetuoso dele, não lhe manteve realizada por muito tempo. Todo o afeto e carinho de Clara, como toda a sua delicadeza no prazer, também não. O porre que tinha tomado no último fim de semana e toda a dançaria com seus amigos, não lhe deixou feliz o suficiente. As honras na universidade, os poemas publicados, não foi o suficiente. Ainda morava na cidade, no caos da cidade onde tudo é menos belo e tem menos amor. A semana que tinha passado no campo, não lhe foi apaziguador o suficiente. O vazio lhe era suficiente, ele tinha a acalentado durante uma vida e, por mais um tempo continuaria a ser útil.

Depois de três meses de convivência com a Clara, Alice tinha experimentado a paixão, envolvimento íntimo e a calma, a dita segurança que a Clara sempre pregou e desejou, mas ela não pode passar muito mais tempo de calmaria. O amor antigo tinha sido algo arrebatador, amou e se entregou como só a ele podia fazer e, como tudo que é belo, foi doloroso também. Sempre teve o dom de amar mais a quem não lhe amava do que quem a amava, o amor parecia acender quando o outro queria se distanciar ou já tinha adquirido o que queria. Excedeu-se no amor ao outro e, ele como todo bon vivant, se foi ao extrair o que desejava, se foi como um relâmpago, foi doce e gentil durante a estadia, mas se foi como um relâmpago.

Alice, nunca se importou com o se doar, não ocultava seus desejos ou complicava as relações, se dispunha gratuitamente as aspirações e apetites com a força que um puritano se move ao paraíso. Deixava que se aproveitassem do seu corpo, pelo simples prazer de se sentir desejada. Não se negava nada e nem se deixava reprimir, tinha enfrentado a escola com dor de parto, e depois disso nunca mais se obrigou a nada. Na noite que antecedeu a partida de Clara, elas estavam em casa fazendo nada e o Marcos ligou a chamando pra sair, Clara demonstrou tanto desconforto quanto pode. “eu estou aqui e você vai sair e me deixar só?” “Eu passei a maior parte do meu tempo com você, mais tarde eu tô de volta.” “Eu vou pra casa” “ Você que sabe, mas eu já disse que vou voltar cedo.” Não voltou, Clara tinha mesmo ficado e esperado, mas Alice só veio aparecer as 10 e tantas da manhã do dia seguinte. Chegou e foi dar um beijo que a Clara rejeitou.

 – só esperei você chegar pra ir embora, e vou lhe deixar claro que não vou voltar. Não dessa vez.

 Disse Clara. Alice disse pra ela parar de besteira e foi pra porta na tentava de impedir que ela saísse.

– desculpa, eu pensei que você tinha ido embora, por isso não voltei cedo.

 Roubou um beijo que Clara retribuiu com dor e lágrimas. Amava aquela mulher; conviveram por pouco tempo, mas a amava como se fosse dela por toda a vida. Alice por outro lado nunca pertencera a ninguém, era de fases, tinha inteireza, mas às vezes parecia tão alheia a ela que era como se precipitasse a morte. Sempre que tentava fugir, logo quando estava se curando da dor chamada Alice, vinha um telefonema, uma prece, um pedido comovente de volta. E ela atendia, mas dessa vez não.  Saiu resoluta, irredutível e também com uma amargura, um aperto na garganta que fazia esforço pra disfarçar. Foi pra casa e chorou, chorou por ter certeza que não ia mesmo voltar, “não dessa vez” repetia a si mesma. Não podia fazer isso com ela mesma, esse amar sozinha. É muito não querer pra suportar, e isso ela não queria mais. Tomou uns calmantes e dormiu, era quando não sentia. Nada mais parecia valer a pena, a amiga de quarto tentou com empenho sacolejar e fazer com que ela levantasse, acordasse pra vida, foi improfícuo. Depois de duas semanas na fossa, ela levantou e decidiu cair na noite; dançou, bebeu e beijou bocas que pareciam muito com a de Alice. Era vã qualquer tentativa de esquecimento, no dia seguinte acabava como antes, com uma porção de remédios pra dormir. As férias estavam se perdendo toda nessa história, até que um reencontro com a ex-namorada começou a mudar as coisas. Lembrava menos de Alice a cada dia que passava.  E decidiu atender o chamado da Martha, a ex-namorada e amiga, para passar a última semana de férias em Portugal onde morava.

Alice continuava na inércia mental e espiritual, bebia, escrevia e dormia. Passaram-se aproximadamente três semanas e ela nem percebeu que chegara o seu aniversário. A ligação da mãe foi o que a despertou, atendeu e falou como se estivesse tudo bem, não queria que a mãe se preocupasse e acabasse na casa dela a enchendo de cuidados e perguntas e mandando ela procurar um psiquiatra. Deu um jeito na bagunça que estava à sala; recolheu as tantas garrafas de vinho e limpou as cinzas de cigarro. O que tinha escrito, salvou e deixou pra ver depois. Tomou um banho, lavou os cabelos e vestiu qualquer coisa apresentável. Vai que alguém aparecesse... Não apareceu. Foi na barraca comprar umas bebidas e guardou. Nunca tinha mesmo se importado com aniversários, é só mais um dia de morte e todo mundo morre a todo o momento. Estão morrendo agora e desde que nasceram. Se deitou e dormiu, dali a dois dias voltaria ao trabalho e ela devia estar com uma cara apresentável. Alice não apareceu nem ligou, então ela decidiu ligar. Caixa postal. Ligou pra Marcos e ele estava ocupado com o trabalho, teria que ficar para próximo fim de semana. “ao menos atendeu” falou para as paredes. Decidiu ir ao cinema, assistir um filme qualquer. Na fila da bilheteria um homem falou sobre o filme, o quanto ele vinha sido aguardado e blá, blá, blá. Ela concordou e sorriu. Depois do filme parou em um bar qualquer e tomou qualquer coisa. Foi pra casa dormir, depois reviu o que tinha escrito nos últimos dias e, mais da metade teve que ser retirado porque não fazia o mínimo sentido ou porque não tinha nada a ver com o contexto da obra.

Olhou as escadas pela janela e lembrou da descida rancorosa de Clara. É complicado ter que desapegar assim do nada, Clara tinha passado os últimos meses na presença dela. Se viam a maioria dos fins de semana, até ela praticamente se mudar pra casa dela e, agora do nada ela ia embora e não dava sinal de vida. Amanhã ela iria passar no apartamento dela e exigir que ela a atendesse. Foi dormir e Requiem de Mozart soava no radinho do criado mudo. Acordar cedo, passar na redação escrever colunas, ler matérias, dar opinião, encarar gente chata, etc e tal. Mas não podia reclamar, gostava do que fazia e tinha escolhido a profissão por paixão. Na casa de Clara estava apenas a colega de quarto, disse que a Clara estava preparando mudança para Portugal.

–Como assim mudança para Portugal?

–Com a Martha e parece que vai ficar.

–Ah, bem, quando ela aparecer avisa pra ela me ligar?!

–Hunrum.
“quanta consideração, cadê o amor quando se trata de avisar que voltou com a tão dura paixonite antiga?” O prazo para o livro estava no fim e ela achou que a quantidade de crônicas bobas já era o suficiente. “tenho que me forçar um romance, quem é que faz fama com crônicas e poemas?” enviou o tão cobrado escrito e nem se deu o trabalho de mandar pra um corretor. O Marcos ligou, mas ela tratou de lhe dar um passa-fora e focar em alguma coisa que trouxesse paz de espírito. Devia ter ido viajar enquanto teve tempo, passou as férias toda na inércia. “Que grande perda de tempo. Faltam quantos dias pra o fim de semana mesmo?” Pensava alto, nunca admitiu que falava sozinha. “eu penso sozinha e um tanto alto, às vezes, isso não é falar sozinha.” Era o que sempre dizia, mas falava. Desde sempre falou. Mas ás vezes, também silenciava. Não se sabe se por cura ou doença. Silenciava e era como um abandono de espírito. Os momentos em que acontecia esses silêncios eram os mais diversos, mas geralmente acontecia quando não deveria acontecer. No encontro com novos ou possíveis namorados, na conversa com gente interessante, na discussão com a mãe ou quando tinha todos os motivos pra estar feliz, mas estava triste. 
Nas semanas que se passaram, focou no trabalho, reviu o antigo amor devastador e não sentiu nada, teve acessos de inspiração, voltou a pintar coisas bobas, bebeu milk shake e assistiu concertos, descobriu livros de autores desconhecidos, leu e saiu indicando pra todo mundo. Ao fim de cada leitura um novo “melhor livro de todos os tempos”. Saiu pra jantar com os amigos do trabalho, saiu pra beber com os amigos de farra, conheceu três novos possíveis namorados que não eram nada mais que boas transas, sentiu um pouco de vazio nos três adeus. Passou um fim de semana na casa do campo do pai, andou de cavalo, comeu porcaria. Virou vegetariana mais uma vez e logo depois deixou de ser por conta de uma fome de hambúrguer que foi devidamente saciada com dois grandes e gordos hambúrgueres. Tomou um café com Clara e lhe desejou, sinceramente, boa sorte. Decidiu fazer teatro, desistiu de fazer teatro por conta da falta de tempo. Viveu amenidades, toda uma vida de amenidades. 
Com tanta calmaria passou a sentir vazio. Subiu as escadas que todos desceram pra não mais voltar. A escada que leva todos embora, quando voltavam não ficava por muito tempo. Sempre iam embora, com raiva, com saudade ou com indiferença. Era muito pouco, tudo era muito pouco. A prisão das palavras, dos gestos dos sentimentos. Se considerava livre, mas quem é livre? Estamos todos presos aos conceitos, as palavras, ao sentido das coisas, a lógica, a vida. Estava em paz com todos, estava vivendo leve, mas estava presa. Presa a qualquer coisa que exista, a qualquer coisa viva ou não. Estava presa. Presa. Daria qualquer coisa para se dissolver no ar. Nada a prendia a vida, era feliz, bonita e amava as coisas belas, mas era também vazia de sentido. A vida é vazia de sentido e tinha total consciência disso. Não vendo sentido em tudo que vivera até ali e não vendo sentido em viver por mais tempo decidiu se libertar. Era a tão sonhada liberdade que ninguém consegue ter e veio com um copo de vodka e uma porção bastante generosa de bala e calmantes. Dissolveu-se no ar.

Ingrid Santos
Ingrid santos, 18 anos, Recife-PE. Aspirante à escritora, futura professora e amante da literatura.

http://www.revistapacheco.com/2014/12/a-revista-pacheco-quer-saber-o-que-voce.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.