Café Literário: 6.261 vagas de emprego

As coisas não iam muito bem para Nisoberto Piraquara — estava desempregado e quase duro. Por conta disso, um motoqueiro — com um garupa — trafegava todas as noites bem devagar na frente da pensão onde ele morava — isso cheirava encrenca. Algum credor impaciente estaria querendo reaver a grana ou fazer justiça com as próprias mãos, porém, usando uma dupla de vidas tortas armados para completar o serviço. Ni-soberto Piraquara punha a culpa da sua penúria na conjuntura social, no bom entrosamento do time adversário, nas panquecas recheadas com cocô de gato, nos árabes e na foto da Madonna pregada na parede do quarto. 

Para não dizer que não tentava sair daquela situação periclitante, Nisoberto foi até a banquinha de jornais e revistas. Olhou as capas, como quem não quer nada, fingindo se interessar por uma especializada em fabricar velas com banha retirada da própria lipoaspiração, passou para outra que mostrava como se comportar numa sessão de massoterapia e consumo de cogumelos alucinógenos, folheou uma dirigida aos escaladores de picos nevados com pés-de-pato. Na verdade, Nisoberto estava de olho no jornal que oferecia 6.261 vagas de emprego. Porém, ele não podia dar mostras de que estava na pior. Tinha que ir despistando. Olhou para os lados e viu que outros clientes folheavam revistas do tipo construa você mesmo seu foguete espacial com garrafas plásticas. Ou, aproveite os restos de caspa e faça deliciosos bolinhos de garoa. Claro que eles também estavam despistando. Quem se interessaria por uma revista que tem na capa uma mulher muito linda dizendo como me curei da ressaca do Ano-Novo e perdi seis quilos depois de ler um livro inteiro. Cada minuto que perdia folheando as revistas, Niso¬berto via a manchete da primeira página do jornal de empre¬gos diminuindo a contagem: 6.260, 6.259, 6.258, 6.137... Se não perdesse a vergonha e comprasse logo o jornal, as vagas desapareceriam como um óvni diante das câmaras fotográficas de turistas japoneses. Para despistar mais um pouco, Nisoberto pegou uma revista dirigida exclusivamente a leões-de-chácara de inferninhos de quarta categoria, cuja chamada principal era Como reconhecer um pilantra vestindo Armani e pôs o jornal embaixo dela. O dono da banca olhou para a revista, depois para o Nisoberto e torceu o nariz. Ele não tinha físico de leão-de-chácara. Mas poderia muito bem ser um depravado em busca de emoções bara-tas com as fotos dos leões-de-chácara em minúsculas sungas, na sessão Bate que eu gosto. Porém, ao ver o jornal de empregos, o dono até ficou com pena do Nisoberto. Sabia que nele só ofereciam as mais estranhas ocupações, ditas profissionais. Tinha vaga para auxiliar de limpador de fossa séptica em condomínio de luxo, apontador em período de monta dos cavalos puros-sangues, consultor de economia política, juiz de briga de galo, árbitro de futebol em presídio feminino, entre outras. 

Nisoberto saiu rapidamente da banca e procurou um lu¬gar para ler as ofertas — que na primeira página já estavam baixando para 6.050. Precisava de um banco. E de uma lixeira para se desfazer da revista dos leões-de-chácara. Quando jogou a revista fora, e tentou abrir o jornal em plena rua, ouviu logo alguém dizendo tá com a grana, heim, ma-no! Comprou até um jornal! E uma revista cara, uau! Nisoberto olhou para os lados e viu que outras pessoas cobiçavam seu jornal. Bem depressa, dobrou o jornal e foi para a praça. Teve que dividir o banco com outros três sujeitos. Abriu o jornal e viu que a manchete mostrava 4.138 vagas. Pressentiu que os outros três sujeitos se aproximavam e se curvavam para tentar ler as ofertas. Se eles vissem alguma coisa e fossem atrás, já seriam menos três vagas. Nisoberto fechou o jornal, levantou e foi atrás de outro banco. Mais adiante, ele enrolou o jornal como um cassetete de polícia. Quando quatro outras pessoas tentaram se aproximar, ele empunhou o cassetete e brandiu na direção delas. 

Sentindo que perdia tempo, mesmo andando ele desenrolou o jornal. Logo notou que algumas pessoas o seguiam e tentavam ler as ofertas que agora baixavam para 2.113 vagas. Ele pensou será que existem tantos desempregados assim? Nas ruas, nem de-monstram. Andam parecendo ter para onde ir e o que fazer. Tornou a enrolar o jornal e as pessoas se dispersaram. Pensou em ir a um banheiro de bar, mas quem suportaria o cheiro por dois minutos ou sentaria num vaso daqueles? Nisoberto Piraquara foi ficando com raiva da situação — as vagas baixaram para 1.122. Começou a achar que não era mesmo para ele ir procurar emprego — seu destino estava escrito no cano quente de um revólver com numeração raspada. Dois ou três tiros de um garupa e tudo acabado. No jornal popular do dia seguinte seria apenas noticiado mais um ajuste de contas entre marginais. Sem testemunhas oculares, como sempre.

Nisoberto achou por bem se livrar do jornal e dos seguidores. Olhou mais uma vez para a manchete — apenas 320 vagas. Como era cidadão bem-educado, procurou uma cesta de lixo. Não achou. Pensando melhor, abriu cuidadosamente o jornal, separou folha por folha e lançou o mais alto que pode — ao vento. As folhas se separaram e voaram para tudo quanto é lado. Cinco ou seis pessoas se engalfinharam para pegar o que podiam. Nisoberto pensou que isso tirava o trabalho dos lixeiros — e não era correto. 

Depois de dormir com um porrete ao pé da cama, ou¬vindo a moto acelerar lá fora, Nisoberto resolveu ir a uma outra banca. Cedinho, na primeira página da nova edição do jornal estava escrito: 7.987 vagas. Mais chances! Ele passou os olhos pelas capas das revistas que prometiam perda de peso com receita à base de sopa de joaninhas, cura de mau olhado com raspa de nariz de rinoceronte africano, volta da pessoa amada com chá de toco de cigarro fumado por um cigano à meia-noite, desaparecimento de celulite com três sessões de rolo compressor e até uma receita infalível para se tornar patrão bonzinho de si mesmo, ganhando vinte mil reais por mês, com férias remuneradas de trinta dias, vale-refeição, ajuda de duzentos reais no combustível, convênio médico, reajustes semestrais e, melhor de tudo, carteira assinada. Nisoberto achou que era aquilo que procurava, mas teria que gastar o dinheiro do almoço para comprar a revista. Se eu comprar a revista, não vou almoçar. Garanto o emprego dos funcionários da revista, mas a cozinheira pode perder o dela. Se não comprar a revista nem almoçar, os funcionários e a cozinheira perdem o emprego e virão disputar outras vagas comigo. Se eu pegar o dinheiro e pagar o agiota, vou garantir o leitinho das crianças dele. Mas, se não pagar, vou dar sobrevida aos matadores de aluguel que por qualquer vintão fazem o serviço. Posso ter pouco ou muito dinheiro, alguém sempre está de olho nele. Enquanto divagava, viu a capa da revista com a foto da Madonna com a chamada: MADONNA: SUPERESTRELA NO CÉU, IRMÃO NO INFERNO. Em letras menores dizia: Não perca! Ela é milionária e o irmão passa fome. Incrível! Nisoberto ficou curioso para saber por que o irmão da Madonna vivia no inferno. Ele se lembrou da foto da cantora na parede do quarto — gostava dela, mas preferiu gastar o dinheiro no buffet livre de R$ 5,95. Podia até ter indigestão, mas a cozinheira, pelo menos, teria emprego até amanhã.


A manchete da primeira página mostrava 279 vagas.


Rui Werneck de Capistrano

Rui Werneck de Capistrano nasceu e vive em Curitiba – Paraná.
Publica no www.clubedeautores.com.br

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