Contos Fantásticos: Primaveras

Inapropriadas.

Quantas vezes consideramos tal, as insossas congratulações que nos acometem na suposta jucunda data a ditar-nos os anos, as inexoráveis lamentações do tempo?

Estas, travestidas de júbilo, revolvidas em felicidades ignorantes.

Tudo bem, devem estar considerando tais argumentos fruto de uma personalidade amarga, que apanhou com assaz vontade da vida, que nos é tão indiferente.
Não estão? Os que sim, enganam-se. Os que não, estão por entender. Teus pés pressionam o abismo da compreensão. Já, já, a queda. 

Aqui, nesta manifestação crepitante, onde aplausos e assovios acotovelam-se para ver quem tem razão, a alegria conspurca minha paciência, macula a temperança que insiste no jugo pungitivo com minha verdadeira ânsia. A canção penetra afligindo, negando olvidar-me das suas vibrações, que mergulham nefastas no poço da minha angústia. E este é inescrutavelmente profundo. Até mesmo a escuridão fez questão de esquecê-lo. Mais uma vez. E mais uma. O opróbio assalta-me, intensificando, olhem o absurdo, da canção que se apodera sem descanso da já pusilânime renitência que os abriga do réprobo que brilha, decidido, lá no abismo daquele poço dantes lembrado.

E sua luz começa a rutilar, putativa.

Sua natureza ominosa inicia resposta lutulenta, gélida, à irritante demonstração de felicidade que pulula alienada, que se multiplica confusa, embora a caterva que me rodeia, me afaga, brade vindouros dias de paz e prosperidade. Todos afirmando em contumácia seus desejos.

Agora a bolha estoura! Rompe-se o liame que prendia-me as suas cortesias, as suas crassas afabilidades sociais.

O paroxismo da ofensa? O que atravessou o umbral? O que rompeu a fina côdea que resistia ao sanguissedento a dormitar nas abissais poças do grande buraco devoluto de piedade a lograr em minha alma?

Aquela última e apelativa sentença!

Feliz Aniversário! Feliz Aniversário! Feliz Aniversário!

Um coro ensurdecedor, deflagrando o encovado com suas vozes energúmenas de solícita faustosidade!

Beócios!

Não sabem que data comemoram? Não sabem! Do esquipático? Do comum? Da ascendência fescenina que um dia me assaltou pela sanha do redivivo de apetite percuciente? Ou do resultado natural entre o encontro lascivo entre meus pais?

Não sabem! Não sabem! NÃO SABEM!

Feliz Aniversário! Feliz Aniversário! Feliz Aniversário!

A fera insurge! O demônio guincha rascante! A besta redargui às salvas com o grito a recender soez!

Não comemorem mais!

O inferno mostra garras, ulula a insana volúpia, a fim de beber, afogar-se no medo, na dor, na morte. A ineludível bocarra a obliterar gargantas que gritam!

Feliz Aniversário! Feliz Aniversário! FELIZ ANIVERSÁRIO!

A festa obumbra-se do mais denso, inconcusso e fétido dos fuscos.

Antes de comemorarem, agora, olhem o fosco dos meus olhos.

Talvez vejam o monstro a bruxulear lá no fundo.

Victor Meloni
Victor Meloni é escritor por vocação. E isto sequer flerta com talento, forçoso dizer. Onde nasceu não faz diferença. Tampouco sua idade. Sua formação? Que desperdício. Procurando por um epigrama para expressar aquilo que lhe faltava em criatividade na hora de dar exemplos do que escrever lhe parece, encontrou Henry Miller: “Se você não consegue fazer com que as palavras trepem, não as masturbe”. Estou tentando, Sr Miller, estou tentando. Possui um blog, onde posta a felação literária que lhe assalta: (www.contosominosos.blogspot.com). Membro d'A Irmandade.

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