Café Literário: Umbra


A segunda-feira acordou tarde, começando o dia às 9h. Pedro olhou para o relógio enquanto a gata ronronava ao lado da sua cama. Estava atrasado, o resto do mundo não. Correu para o chuveiro ao mesmo tempo em que avisava o chefe do iminente atraso. Adentrou o banheiro como um maratonista, murmurou embaixo d’água como um tenor entristecido e foi para o quarto como um bancário que há seis anos não conseguia ser promovido. À medida que ajustava a camisa, um sentimento de que estava esquecendo algo brotou em sua cabeça. Conferiu as chaves no bolso esquerdo; a pasta com os papéis dos clientes a serem visitados no dia; o ticket do metrô. Tudo em seu lugar, mas a impressão de algo fora do lugar persistia. O bipe do celular o despertou do transe de esquecimento. Uma mensagem, não de seu chefe, mas de um número anônimo. Dizia “eu não vou mais esperar”. Ignorou o conteúdo e bateu a porta.
Com uma lentidão que beirava a completa estagnação, o ônibus de dois comboios cruzava a principal avenida da cidade. O vai-e-vem dos carros ao redor contrapunha com o perturbador silêncio do interior do veículo. Todas as pessoas pareciam alheias, umas às outras, imersas nas telas de dispositivos móveis como tablets e smartphones. Na penúltima fileira, sentado à janela, Pedro lia a Folha de S. Paulo. Uma freada brusca do ônibus fez com que as palavras da editoria de economia se embaralhassem. Antes de retomar o raciocínio na linha que lia, parou para observar as pessoas caminhando na calçada da avenida Paulista. E foi justamente então que ele viu. Uma sombra, no reflexo de um Fiat Bravo que estava ao lado da linha 232, na qual estava. Um brilho fugaz, mas real. Pedro suspirou e roçou os olhos. Aquele rosto. Poderia jurar que os traços do rosto lhe eram familiares, mas... De onde? A sombra sumiu.

- Mais um pouco e você chega direto na hora do almoço hein Pedrão!

Pedro vestiu um sorriso amarelo, tipo M, e desviou a piadinha. Odiava com o mais profundo ódio a intimidade que as pessoas naquele banco concebiam os colegas de trabalho como amigos. Pedro sequer sabia o nome daquele verme, se era Jean ou Adalberto, e ele já vinha o chamando de “Pedrão”.

Antes que chegasse à sua mesa, seu chefe já o fitava com desdém.

- Na semana mais importante do ano, em que precisamos bater metas em quatro agências, só neste bairro, nosso “glorioso” Pedro se atrasa duas horas e vinte e nove minutos. Em plena segunda-feira.

- Me desculpe, tive um problema pessoal.

- Todos temos problemas pessoais, Pedro. E todos temos obrigações de trabalho. Mais um atraso sem aviso prévio e eu vou te dar todo o tempo do mundo para você resolver seus problemas pessoais.

Aceitou a crítica com a naturalidade de quem iria se desfazer daquele ambiente muito em breve. E realmente foi em breve, pois levantou para mijar.

Adentrou uma das cabines do banheiro. O local estava vazio, mas ele sentiu uma estranha presença no ar. Como se houvesse alguém fumando ou respirando alto na cabine ao lado da sua. Estremeceu. Seria mesmo possível? Subiu com certa dificuldade na privada e olhou para a cabine ao lado. Nada. Após mijar, saiu da pequena peça. Enquanto lavava as mãos, aproveitou para passar água no rosto. No átimo de segundo em que abaixou a cabeça para encostá-la na água que escorria da torneira, a avistou novamente. A sombra estava ali, na cabine ao lado da sua o tempo inteiro! Virou-se atônito, mas ela sumira. Mais uma vez.

À noite, a campainha emitiu um ruído irritante e barulhento, que permaneceu nos tímpanos de Pedro mesmo quando ele parou de pressioná-la. Em menos de dez segundos sua namorada, Verônica, abriu a porta da casa, com um sorriso angelical.

- Oi!

- Oi gatinha, tudo bem?

Jantaram e conversaram sobre a agenda pessoal de cada um. Aqueles eram dias difíceis, e eles precisavam um do outro mais que o normal. Contudo, Pedro sentia-se estranho. Não queria contar a ela sobre o que havia ocorrido ao longo do dia e, ao mesmo tempo, sentia que, a cada segundo sem dizer, seu sangue correria mais e mais forte até explodir todas as artérias de seu corpo.

- Sabe, hoje faz um ano.

- Sim, por isso estou muito feliz.

- E como você está se sentindo?

- Bem. Realmente feliz, por ter você ao meu lado durante esse tempo todo.

- Então vamos comemorar essa felicidade.

Nem mesmo o sexo parecia confortá-lo. Enquanto penetrava sua namorada, sentia que o mundo estava sendo tragado por um terrível vazio engolidor. Agarrava seus seios, beijava seu pescoço, apertava suas nádegas. Nada. Ouviu ela gozar duas vezes, apenas para perceber que alguma maldade estava crescendo dentro dele. Um terror latente estava ganhando vida, novamente. Só não sabia qual.

- Preciso ir embora.

- O que houve?

Resolveu fingir. Ela não acreditaria em sombras e vultos que perseguem pessoas em plena luz do dia.

- Nada, tive um dia um pouco ruim.

- Pedro... Você tá lembrando... De tudo aquilo de novo, não é?

- Claro que não, eu só preciso ficar um pouco sozinho. Não é nada demais.

- Pedro...

- É sério. Eu só quero ir pra casa, colocar algumas coisas em ordem e ir dormir. Amanhã eu venho aqui e fazemos uma janta especial, ok?

- Olha pra mim.

Mergulhou na imensidão das duas lagoas azuis que Verônica guardava em cada uma de suas íris. Suas frases poderiam passar por dez detectores de mentira consecutivos, mas nunca atravessariam a lisura daquele azul. Reconhecendo o erro, desviou o olhar para o abajur.

- Eu já disse. Só quero ficar sozinho.

- Pedro, se tu não me contar agora o que tá acontecendo, eu vou descobrir em breve.

- Me escuta. Tá tudo bem. Só porque a gente não vai dormir juntos hoje não significa que nosso amor acabou. Eu só quero... Ir pra casa.

- Tá bem.

O tom de voz dela denunciava claramente que tudo não estava bem. Era o tom de voz que ela usava quando era demitida; quando perdia uma amiga; quando era assaltada; e em mais uma pletora de situações em que o mundo pode estar de mil maneiras, exceto bem.

Calçou os sapatos e partiu. Antes mesmo de entrar no trem, uma mensagem da namorada aterrissou em seu celular: “Me liga quando chegar em casa. Te amo tanto que meu coração vai explodir. Beijos”. Ao sair do vagão vislumbrou uma figura no fundo do corredor, refletida em uma máquina de Coca-Cola. Piscou os olhos, mas ela ainda estava lá. Olhou para o relógio, os ponteiros marcavam onze horas e nove minutos. Voltou para a visão ao fundo do corredor. Estava vazio.

Entrou em casa e trancou as duas travas da porta. Um barulho do lado de fora fez com que olhasse pelo olho mágico. Não havia ninguém. Tirou a calça, a camisa social e foi alimentar a gata. Chegou à área, mas não encontrou seu animal de estimação. Procurou pelos outros aposentos do pequeno apartamento de 62 metros quadrados, mas ela parecia ter desaparecido. A porta entreaberta de um dos armários ao lado da máquina de lavar roupa revelou o infame esconderijo da criatura.

- Então aí que você se meteu, sua sem-vergonha.

Tentou retirá-la do apertado compartimento, mas ela o arranhou. Emitiu um ruído estranho e o fitou. Parecia possessa de raiva.

- É assim é? Então dorme aí mesmo sua gata maluca! – berrou enquanto atirava o pote com a ração na parede oposta à geladeira.

Já na cama, não conseguia dormir. Seu corpo tremia, e sua mente sofria com visões horríveis. Um pacote de memórias obscuras, aparentemente nunca vividas, surgia, toda vez que Pedro fechava os olhos. Resolveu buscar um pouco de leite, para catalisar o sono. No caminho para a cozinha um calafrio percorreu todos seus ossos, culminando com um forte estalido em seu cérebro. Aquela sombra, a mesma que havia enxergado ao longo do dia, estava deitada, rastejando em cima do seu tapete. A ausência de rosto, as linhas oscilantes, o barulho sinistro que ela provocava ao se movimentar. O medo quase paralisou o sistema nervoso de Pedro, mas ele juntou forças para correr.

Entrou no quarto ofegante. Teria enlouquecido? Não, ainda guardava largas doses de razão em seu imaginário. Precisava acessá-las o mais rápido possível, porque algo fora do comum estava acontecendo naquele instante. Olhou para o grande espelho que mantinha no centro do aposento, em busca de uma resposta que não flertasse com o inevitável. Engasgou. Parecia faltar alguma coisa em seu reflexo. Ele aparecia desaparecido. À medida que se afastava do objeto a sombra, que agora se situava atrás de Pedro, parecia crescer, ao seu redor. Correu para o banheiro do dormitório. No caminho, tropeçou na pasta, que estava no chão. Caiu com a cara no ralo, ao lado da pia. Tentou levantar, mas era tarde demais. A sombra encostava em seu pé. Inútil reagir. Mais uma vez, ele havia se tornado seu maior temor.

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