Café Literário: Um dia para se esquecer... Uma noite para se lembrar... Um engano para sepultar...

Ano de 1873.

Chovia incessantemente.

Noite fria, estrada escura.

Ao longe avistava-se uma fraca luz.

Cansados da viagem, o condutor da carruagem e um casal andavam pela estrada após sofrerem um terrível acidente. Perderam todos os seus pertences. Os cavalos, assustados, correram sem rumo pela floresta.

A chuva castigava a visão e o frio era aterrador...

O dono da carruagem insistia para que eles procurassem outro abrigo, mas o cansaço e os ferimentos causados pelo acidente não permitiam que fossem além, sendo assim, caminharam rumo àquela fraca luz que podia ser avistada de onde estavam.

Quase vencidos pela chuva, frio e o cansaço, conseguiram chegar ao portão de uma imensa residência.

Os portões eram imensos, de ferro preto, todo trabalhado e com duas inscrições: CL & PG.

A princípio pensaram em entrar, mas o dono da carruagem insistiu para que voltassem para estrada.

A chuva já não estava mais tão forte, e seus corpos estavam, a esta altura, anestesiados pelo denso frio, que mal poderia fazer em procurar por uma hospedaria ou mesmo uma taberna?

Convencidos de que o dono da carruagem podia ter razão, deram de costas para o portão, quando este se abriu sozinho.

Madeleine (nome da moça que ocupava a carruagem) chorou muito, implorando para que entrassem, pois não aguentava mais caminhar.

O condutor da carruagem compadecendo-se da dor de Madeleine, disse que se seu senhor não quisesse entrar, que este iria conduzir my lady até a casa e voltaria para acompanhá-lo para onde quisesse ir.

Christopher (dono da carruagem) chamou a atenção dos dois para o portão, dizendo: - Os senhores concordam que é, no mínimo, muito estranho que este portão tenha se aberto sozinho? Vejam seu tamanho e imaginem o seu peso. Não poderia abrir sozinho, jamais! Vamos sair daqui imediatamente.

Madeleine, vencida por todas as suas forças argumentou: - Ainda que este portão tenha se aberto sozinho, preciso entrar Christopher. Não tenho mais forças para dar mais um passo, e ainda tenho que tentar chegar a soleira do portal. Ainda que não haja ninguém nesta grande e majestosa casa, me confortaria apenas em deitar em um de seus degraus.

Não vendo mais alternativas, Christopher deu ordem a seu condutor para que passassem pelo portão e que se dirigissem a casa.

A chuva recomeçou, e a cada passo que davam em direção a casa, esta aumentava.

O frio parecia estar aumentando à medida em que alcançavam aquela fraca luz.

As dores, resultantes do acidente, podiam ser sentidas, parecia que não iam conseguir.

Finalmente conseguiram alcançar a escadaria que antecedia a grande porta da casa e ficaram surpresos com seu tamanho, tratava-se de uma linda e luxuosa mansão.

Já abrigados da chuva pela imensa varanda que antecedia o grande portal da mansão, Christopher deu ordem para que seu condutor batesse o batente pendurado à porta.

Após a primeira batida, uma senhora de aproximadamente sessenta anos abre uma das portas dizendo: - Os senhores estavam sendo aguardados. Por favor, queiram entrar. No salão a sua direita encontrarão toalhas e roupas secas. Por favor, aqueçam-se na lareira, minha senhora vai estar com os senhores em poucos minutos. Apenas, sintam-se a vontade.

Ambos se entreolharam assustados, mas de certa forma, confortados. Finalmente um lugar a salvo onde poderiam passar a noite.

Secos e vestidos, o casal e o condutor da carruagem, aguardavam perto da imensa lareira do salão, quando foram surpreendidos por uma voz meiga e suave: - Boa noite, senhores, senhora. – Meu nome é Catherine, sou dona e senhora desta propriedade e estava aguardando pelos senhores e queiram...

Christopher aviltado com o que fora dito por Catherine a interrompe dizendo: - Queira me desculpar, my lady, mas, por favor, como poderíamos ser esperados pela senhora se não sabíamos para onde estávamos caminhando? Queira me desculpar, my lady, mas é um comentário um tanto estranho para pessoas que acabaram de sobreviver a um acidente onde tiveram todos os seus pertences destruídos.

Catherine olhou para todos e fez sinal para que se sentassem e disse: - Por favor, senhor, deixe-me explicar. Levantando uma de suas mãos, fez sinal para que sua aia trouxesse algo. Imediatamente um carrinho de chá adentrou o salão repleto de iguarias, chá e chocolate bem quentes. Mais do que depressa, Catherine assentindo com a cabeça disse: - Por favor, sirvam-se. Devem estar exaustos.

Christopher irritado disse: - Por favor, my lady, queira esclarecer. Como sabia que iríamos bater à sua porta? Veja, sou dono de muitas terras de onde venho. Pertenço a uma família abastada, posso pagar por esta casa e por mais dez iguais a esta. Esta senhora aqui se chama Madeleine, é afilhada de meus pais e também, minha prima, e este senhor, é meu fiel condutor. Estávamos indo a Catelsville para uma, há o que lhe importa, my lady? Estamos em visita a um primo. Ao que tudo parece ia se casar com uma sirigaita! Mas cá estamos nós, para impedi-lo de cometer tamanha afronta. Mas, claro, a senhora não tem nada a ver com isto.  Fato é que fomos acometidos por um terrível acidente. Todos os nossos pertences foram destruídos, nossos cavalos fugiram em disparada. Não estou achando engraçado estes comentários: primeiro por sua governanta e agora pela senhora, my lady, por quem me toma, senhora?

Fazendo sinal com a mão e com a cabeça, Madeleine chamou a atenção de Christopher repreendo-o e disse: - Queira desculpar meu primo, my lady. A verdade é que agradecemos por tudo que fez por nós. Estamos verdadeiramente cansados e agradecemos sua hospitalidade.

Catherine, mais do que depressa assentiu com a cabeça dizendo: - Entendo que estejam se perguntando como poderia saber que viriam. Vejam bem, Catelsville fica a menos de cem metros daqui. Quando disse que estavam sendo aguardados imaginei que fosse para a grande cerimônia de casamento que vai acontecer amanhã. Me ponho no lugar dos senhores, mas me coloco, também, no lugar dos noivos. Há meses esse dia vem sendo esperado. Já pararam para pensar como esse dia deve ser importante para um casal? Não há enganos para o que acontece em nossas vidas. Estamos aqui agora. Pensem: Nunca mais estaremos juntos aqui nesta sala conversando novamente. Nunca mais teremos a idade que temos agora, nunca mais seremos o que somos neste momento, talvez nunca mais nos reencontremos nesta situação outra vez. Como disse, não há enganos para o que nos acontece, apenas acontece. Acidente? Os senhores estão bem aos meus olhos. Afinal estão vivos, não estão? Em que bateram? Ah... mas isso não importa mais. - O que os senhores precisam é de uma boa cama. Por favor, descansem, amanhã conversaremos sobre todo o ocorrido. Não se preocupem por serem aguardados, afinal, as estradas não são tão longas por aqui, e ficamos sabendo de tudo que acontece aos nossos derredores. Com licença, vou me retirar, Madame Lidia, conduzirá os senhores aos seus aposentos. Tenham todos uma boa noite!

Totalmente indignado, com vontade de soltar um berro, Christopher é silenciado por Madeleine que diz: - Primo, vamos apenas passar a noite. Christopher responde: - Você não entende, não é? Você não vê Madeleine que nada aqui faz sentido? Essa tal de Catherine nem quis saber quem nós somos. E se fossemos assaltantes? Contraventores? E se...

Neste momento Christopher é interrompido por seu condutor, que diz: - Mestre, essa senhora não me era estranha. Acho que já a vi antes. Christopher diz: - Não fale besteira, homem! O que me impressiona aqui é que os senhores estão agindo como se tudo aqui estivesse na mais perfeita ordem, quando não está. Estão cegos? Madeleine, vencida pelo cansaço replica: - Primo, a única coisa que quero é deitar-me.

Madame Lidia acompanha-os para seus quartos e os adverte: - Pela manhã venho chamá-los para o desejum, tenham todos uma boa noite.

Ao acordarem, se depararam com uma cena dantesca. Ao descerem as escadarias que os conduziriam ao salão do café, olharam, mas não podiam acreditar.

Havia um enorme grupo de pessoas, trajadas de preto, caminhando de um lado para outro.

Foi quando Christopher avistou a senhora que os recebeu pela primeira vez e interpelou-a dizendo: - Senhora, o que está acontecendo aqui? Onde está sua ama, Catherine?

Ela fitando-o nos olhos disse: - Ela ia se casar amanhã, mas chocou-se com uma carruagem na estrada no caminho para sua residência, falecendo no local. Passou a noite inteira na capela de Catelsville e foi sepultada no mausoléu de sua família nessa manhã: Familia Livilstein.

Juntamente com a senhora Catherine estava o condutor da carruagem e seu noivo, o senhor Peter Goldswell, que também faleceu no local onde tudo aconteceu. A família da senhora Catherine havia comprado recentemente esta casa para o casal, e ambos estavam voltando da cidade para aguardarem pelos primos que viriam para a cerimônia. Como a senhora Catherine estava muito ansiosa pediu que a levassem ao encontro da família do noivo na estrada. Queria encontra-los ainda no caminho. Ela sempre dizia: - Não quero que sua família se engane comigo, Peter. Como o senhor Peter estava desempregado e sua família caíra em total desgraça, à senhora Catherine não queria que seus familiares soubessem de tão trágica notícia ao chegarem à cidade. Como minha senhora costumava dizer: - Não quero que eles se enganem. Amo o Peter e, isto é o que importa.

Madeleine, o condutor e Christopher se entreolharam. Calaram.

Não havia mais nada a ser dito.

Analuci Pinheiro dos Santos
analuci.pinheiro@gmail.com             
 

Advogada, 43 anos, Nova Friburgo - RJ.

Um comentário:

  1. Olha, que texto bom! História boa, muito bem escrita, excelente argumento, vocabulário, pontuação... Muito bom! Parabéns!

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