Café Literário: O Sonho continua…em um tempo fora do tempo.

 Não é intrigante que, em sua peregrinação, tenham os polinésios chegado à Nova Zelândia, Papua, e tantas outras ilhotas, passando ao largo pela Austrália? Bem, talvez não tenha sido exatamente assim, como nessa história que as folhas farfalhantes dos eucaliptos, em Sydney, me revelaram.

Pessoas criativas são a exceção; são elas que fazem ciência, criam arte, alavancam as civilizações. Pessoas assim são úteis nas crises, nas calamidades, nos inesperados eventos da vida. A esta elite pensante pertenceram Pitágoras, o anônimo criador da roda, o genial inventor do alfabeto, e outras figures  que iniciaram nossa mágica jornada rumo ao mundo virtual, onde nos encontramos atualmente. Curiosamente, um antropólogo australiano * declarou que o sucesso de uma civilização se mede pela sua permanência, e, sob esta óptica, os aborígenes, que há 40 000 anos expressam-se através dos pontinhos que Signac só descobriria no século XIX, são a civilização mais bem adaptada do planeta.

Um estudo recente ** parece indicar que nos genes aborígenes não estão presentes  nenhuma das mutações constatadas em outras etnias; conjectura-se que eles tenham vindo diretamente da África durante a última glaciação, antes que os parentes de Lucy*** debandassem para o oriente, e, após o degelo, ficaram isolados, protegidos, cercados de marsupiais, sonhando seu peculiar paraíso.

Tudo o que um aborígene precisa saber, ele aprende nas histórias de seus ancestrais, figuras meio bichos, meio gente, como o homem-canguru.

A educação de um aborígenefaria a felicidade de Freud: “É assim, e se você desobedecer, vira  pedra que nem o seu tatatatataravô”. A paisagem australiana está cheia de pedras desobedientes.

Os Aborígenes tem o que os antropólogs chamam de ‘culturas rígidas’, que não admitem mudanças, em contraste com as ‘culturas flexíveis’. A seleção natural se encarrega de escolher o que dá mais certo, e não é por acaso que o mundo de hoje é uma miscelânea de tudo o que há de melhor em cada povo.

Nascer aborígene, portanto, seria um sofrimento para as mentes inquietas, como Einstein, Da Vinci e o pequeno Bungaree.

A história que se passou com Bungaree e seu amigo maori aconteceu séculos antes dos europeus navegarem por aqui, e eu fiquei sabendo porque fui passear na Austrália e o vento que sopra nas árvores retorcidas de Ku Ring Gai a sussurrou em meus ouvidos.

Contudo… espera aí! Amigo maori?

Sim, os maoris moram na Nova Zelândia, um conjunto de simpáticas ilhazinha geladas um pouco mais ao sul. Embora descendam dos polinésios, ao chegar em Aotearoa perderam o gosto de vagabundear pelos mares do mundo e nunca cogitaram em voltar a seu paraíso tropical. Provavelmente pensavam como eu, para quem um calor de 40 graus está mais perto do conceito de portal do inferno, e não há água de coco gelada que mude minha opinião. Imagino o grupinho que chegou na primeira canoa contando sua saga assim:

“Era uma vez uma ilha rodeada por ferozes tubarões, onde os sobreviventes que não morriam de insolação eram periodicamente lançados aos deuses dos vulcões… até que conseguimos fugir e o mar nos trouxe a este belíssimo lugar de paisagens deslumbrantes e clima agradável”.

O pequeno Kupe, que recebeu seu nome em homenagem ao navegador polinésio que guiou o primeiro grupo vindo de Hawaiki, perguntava insistentemente porque não voltavam para visitar os seus ancestrais, pois ele bem que gostaria de conhecer ilha de origem de tupuna, ou seja dos ancestrais de seu povo. Sua teimosia irritou toda a família e também os anciões, os homens sábios da aldeia, que lhe disseram, quando ele chegou à adolescência, pronto para ser recebido no wharemi, a casa de reunião, como um adulto: “Antes de ser declarado adulto, pegue sua canoa a parta; procure Hawaiki, e quando voltar, nunca mais toque no assunto”

Ora, Kupe passara anos observando as correntes marítimas, e ficou feliz com a incumbência; preparou sua canoa , colocou remos  sobressalentes, água, frutas, anzóis, e, emu ma bela noite de luz cheia, partiu oceano afora, seguindo as rotas do pequenos pinguins. Kupe imaginou que os animaizinhos migravam para onde houvesse abrigo e comida.

Abrigado em seu cloak, um longo e quente casaco maori, confiante em seus anzóis (nome maori) e em seu sonho, o rapazinho, algum tempo  depois, avistou terra, e foi bem a tempo, pois sua provisão de água terminara no dia anterior.

Não é intrigante que, em sua peregrinação, tenham os polinésios chegado à Nova Zelândia, Papua, Vahuatu, e tantas outra ilhotas, e passado ao largo pela Tasmânia e o continente australiano? Bem, talvez não tenha sido exatamente assim, como nesta história que as folhas farfalhantes dos eucaliptos, em Sydney, me revelaram.

A canoa de Kupe aportou onde hoje fica o Chase National Park e que a tribo da região chamava Ku Ring Gai. Lá ele encalhou e buscou água.

Ora, naquela mesma noite, um tjitji, ou adolescente, em vias de se tornar um wati, ou seja, um homem de verdade, praparava-se para seu rito de iniciação. Esse tjitji chama-se  Bungaree. Esse adolescente aborígene há muito desconfiava de que essa história de punição ancestral era engôdo dos mais velhos, para controlarem a geração mais jovem, pois, em várias ocasiões, às escondidas, ele galgara montes proibidos, entrara em cavernas sagradas, e nada lhe acontecera. A serpent do arco-íris não surgira para engolí-lo e nenhum homem-lagarto ameaçara castigá-lo. Agora, Bungaree, para seu imenso deleite, fora enviado sozinho para fazer a travessia, refazendo os passos de seus ancestrais , e, no momento, cismava à beira de um billabong, quer dizer, uma mina d’água, quando avistou a mais surpreendente das criaturas:  pele branca, rosto sulcado de preto, musculoso, alto e com odor estranho: uma mistura de sal, suor e peixe fresco. Bungaree conjecturou se aquilo faria parte de seu rito de iniciação.

Kupe, sedento, encontrou a água pelo instinto e pelo olfato, já que o billabong de águas tranqüilas ocultava-se em uma fenda entre pedras. Ao chegar perto avistou uma grotesca criatura: nu, pele escura, nariz imenso, o rosto sapecado com uma gosma branca, exalando um odor bizarro. Seria ele um habitante de Hawaiki? Na esperança de que o povo original ainda usasse as mesmas palavras e tradições de seus descendentes em Aotearoa, Kupe resolveu dançar a cantar o powhiri, o ritual de chegada e boas vindas.

Bungaree,  assustado com os gestos e sons estranhos, foi rápido no atirar o bumerangue na direção do outro menino, pois Bungaree não permitiria que nenhum homem-pinguim o punisse por seus pensamentos rebeldes. Quando o outro se esquivou, Bungaree gritou para que ele se identificasse.

- Nyuntu ini ngananya?

Kupe nunca vira uma arma voadora. Contudo, sabia que a melhor defesa é assustar o inimigo, e para isso os maoris dançam a haka, uma dança guerreira, de gestos ameaçadores, amplos, decididos, acompanhados de palavras ferozes que poderiam ser traduzidas como  ‘vou esquartejar você, arrancar suas tripas para fora e comer o seu fígado’, acompanhadas de bizarros reviramentos de olhos e terminando por mostrar a língua.

Ora, Bungaree fez o que todo adolescente de qualquer época e de qualquer lugar faz nos momentos mais inadequados: riu. Seu riso desconcertou o garoto maori, que, sentindo-se, pela primeira vez, ridículo e inadequado, também riu. Riram tanto que chegaram às lágrimas e, às gargalhadas, aproximaram-se, apoiaram-se um no braço do outro, olharam-se olhos nos olhos e procuraram entender-se de alguma forma.

Bungaree, acostumado a entender-se através de sinais com as mais de 500 línguas Aborígenes, foi mais fácil. Para começar, ele ofereceu água ao outro, que bebeu como bebem os náufragos e os desidratados; a seguir, muito educadamente, ofereceu  Tharunka, o bastão de mensagem, que o outro, supondo-se que conhecesse os costumes, deveria devolver ao fim da sua visita, supondo-se que se tratasse de uma visita. (um erro muito humano, o de achar que os outros têm a mesma interpretação de mundo que nós, o que gera toda sorte de desentendimentos)

O maori entendeu o significado do gesto, e retribuiu fazendo hongi: agarrando o Aborígene pelos ombros e esfregando o seu nariz contra o dele. O coração de Bungaree quase enfartou de susto! Como o outro o largou quase em seguida e sentou-se, abrindo o seu cestinho com peixes, o Aborígene entendeu que aquela esfregação de narizes era a maneira do outro dizer olá, e sentou- se também, tirando de seu coolamon (uma espécie de bolsa trançada com talos de plantas) outros tantos peixinhos e mais seus apetrechos de fazer fogo. E foi assim, à luz das estrelas austrais  , que aconteceu a estranhíssima conversa.

Kupe estava contente – havia uma fogueira para cozinhar seus peixes, água fresca, um amigo para converser e uma terra de clima quente e agradável para explorar. Bungaree estava igualmente satisfeito – acontecia, afinal, em seu cotidinao tedioso e previsível, uma novidade!

Primeiro comeram, em silêncio. Depois de limparem  as mãos, Kupe tentou explicar-se através de desenhos: riscou no chão uma ilha comprida, abaixo de uma longa nuvem e falou:

- Aotearoa – que, na língua maori, significa a ilha de longas nuvens brancas, e é o nome que eles dão à Nova Zelândia.

Bungaree olhou, fascinado. Então existiam outras ilhas distantes! Ele apontou para a ilha próxima, que hoje se chama Ilha do leão,  e o maori fez um gesto que pretendia confirmar: sim, uma ilha, mas muito, muito maior e muito longe daqui; e desenhou na areia 3 sóis e 3 luas a uma canoa, para indicar que viajara por 3 dias e 3 noites, e apontou para onde estava a waka,  sua canoa.

Bungaree correu na direção do mar e tocou, emocionado, os remos originais, a proa esculpida da waka, a canoa maori, e queira saber quem era aquele outro rapazinho não sonhado pelos ancestrais.

Kupe desenhou outras ilhas e outras canoas, foi apontando para si mesmo, para as ilhas, riscando o chão e contando sobre Hawaiki com seus vulcões e deuses que devoravam gente ( como Bungaree não conhecia vulcões, imaginou tempestades de areia saindo do interior da terra, e, como não entendia essa coisa de pessoas sendo jogadas aos deuses, pensou em pessoas distraídas que despnecavam das pedras molhadas). Kupe desenhou a viagem de seus tatatataravós, desenhou a moa e o kiwi, pássaros lá de sua região, explicando, também, que Aotearoa era um lugar muito frio.

Bungaree desejou conhecer essa ilha gelada, coberta de nuvens brancas, com sua gente diferente, suas histórias e  e seus costumes.

Os meninos esticaram seus braços e compararam suas peles, suas cores, seus enfeites, suas tatuagens (Kupe achava que Bungaree usava uma tatuagem mal feita, que saía ao toque). Kupe a princípio pensou em levar o amigo na volta para casa, mas lembrou-se a tempo de que sua tribo canibal considerava um acepipe o cérebro dos inimigos, e percebeu ser esta uma péssima idéia, pois  Bungaree, ainda mais se levasse sua arma voadora, seria considerado um inimigo, e dos mais perigosos, portanto, delicioso. E também pensou que os parentes de Bungaree poderiam invadir a ilha, iniciar uma guerra…naquelas duas grandes ilhas isoladas, seguidas por suas poucas ilhazinhas acessórias, nenhum desses povos tinha idéia do que fosse comércio, como entendemos hoje, o comércio que leva os povos a buscarem se entender para o bem de todos e lucro de alguns.

A idéia de trocar objetos diferentes e extravagantes estava a nascer no pensamento de Kupe, que foi bruscamente arrancado de seu devaneio por Bungaree, que levantara-se agil  e rapidamente pegara sua woomera, um cano longo,  com o qual lançou uma lança na direção do pé de Kupe, atingindo uma cobra – venenosíssima! -  que se aproximara demais. Esse bichinho fino e comprido foi tocado com curiosidade por Kupe, que parecia não ter noção do que fosse uma cobra, e parecia não entender o que queria dizer veneno. A explicação de Bungaree perdeu-se no meio de uma frase, pois Kupe apontou para cima, maravilhado, e Bungaree, pasmo, via apenas pacatos coalas nos eucaliptos acima deles. Kupe continuava a apontar, agitado, como se nunca houvesse visto coalas antes, contudo, quando este idéia passou pela mente de Bungaree,  o maori praticamente convulsionou de pânico, ao ver o que ele considerou espíritos do mal: as mamães cangurus que passeavam por ali com suas crias em suas bolsas.

Bungaree bem que tentou sossegar o amigo, temendo a aproximação de manpanpa, o feiticeiro, que, por encanto, como é do hábito dos feiticeiros, materializou-se a seu lado. (quem sabe o feiticeria estivesse lá o tempo todo, metamorfoseado de lagarto, observando como Bungaree se sairia em sua jornada iniciática.)

- Ah, feiticeiro, eu nada fiz, não sei porque ele grita.

- Porque ele pensa que os cangurus tem duas cabeças, um em cima dos ombros e outra na barriga.

A idéia de um animal de duas cabeças provocou um sorriso em Bungaree, que percebeu duas coisas fora do contexto: primeiro, o feiticeiro não estava bravo, o que queria dizer que Bungaree não seria punido;  segundo, o feiticeiro não estava espantado – mesmo supondo que feiticeiros são sábios, Bungaree ficou preocupado em pensar que o feiticeiro podia saber e esconder dos outros, sobre outras ilhas e sobre aquele outro povo. Outro povo ou outros povos? Um turbilhão de possibilidades perigosamente invadiu as celulazinhas cinzentas do garoto, e um cérebro adolescente turbinado é um desafio e tanto em qualquer época, na da cibernética como no paleolítico.

Kupe, na presença do feiticeiro, se aquietou, sentindo-se protegido, ao menos momentaneamente, tendo aquele ancião por perto.

O velho esfregou seu nariz no de Kupe, e disse, apontando para a cobra:

- Perigo. – e explicou -  Em Aotearoa não há cobras, Bungaree.

- Não? Que lugar maravilhoso deve ser esta Aotearoa.

- Também não há cangurus nem coalas.

- Oh, talvez não seja tão maravilhosa assim. Como, feiticeiro, os ancestrais de Kupe foram a tantas ilhas pequenas e passaram ao largo de nossa terra, tão grande?

- Nossa ilha está invisível, Bungaree. Kupe também não viu nossa ilha. Ele seguiu os pinguins e só percebeu a ilha quando os pinguins chegaram à praia e a waka, a canoa dele, encalhou. Eu não posso colocar feitiço nos pinguins, pois essa é a casinha de inverno deles.

Bungaree arregalou os olhos:

- Como assim? Ninguém pode nos ver? Por que, feiticeiro?

- Porque aqui é o sonho, e lá fora é o pesadelo.

O velho homem fechou os olhos, considerando tudo  o que conhecia do universo.

- Nós vivemos em harmonia com o cosmos – falou o feiticeiro. – Somos felizes. Temos tudo o que precisamos: ar puro, água fresco, comida suficiente, bastante espaço…nossas famílias são amorosas, nossos vizinhos generosos, nossa crianças saudáveis e alegres.

- Eu quero tanto saber o que há de diferente lá fora!

- Lá fora, curioso, descobriram os metais, as armas, o dinheiro. Há ganância, escravidão…Você não entenderia, é melhor não saber dessas coisas.

Bungaree empurrava para lá e para cá um toquinho de madeira, enquanto ouvia o mais velho.  E falou:

- Sabe, eu às vezes penso em coisas … como esses pauzinhos rodam, e os troncos rodam, e se a gente deixasse pedacinhos redondos bem lisinhos, pusesse em cima uma canoa, talvez a gente pudesse carregar nossas coisas, até usar os cangurus para ir mais rápido…

- Uma biga de cangurus! Francamente, Bungaree, você é realmente o tipo de rapaz inteligente o bastante para inventar a roda! Logo era capaz de inventar dinheiro, também!

Bungaree, pensou o feiticeiro, era engenhoso bastante para ajuntar uma alavanca a uma roda, e criar um sistema hidráulico para tirar água dos billabongs, além de imaginar bigas feitas de canoas atreladas a cangurus. Adeus, sossego! O modo de vida ancestral estaria para sempre perdido. Um Sonho que se acabaria… A imaginação de Bungaree disparara, e ele continuou:

- Se esse meu amigo maori quisesse o meu bumerangue, e eu quisesse alguma coisa lá da terra dele, a gente poderia trocar, mas como ele iria demorar para voltar aqui, a gente poderia trocar por alguma pedrinha brilhante e colorida, como um sinal da troca…

- Isso é dinheiro, menino! Quando se troca coisas usáveis por coisas que ficam de sinal, para trocar mais tarde, e aí vem a idéia de acumular…

- E não seria bom? A gente pode ir juntando, e um belo dia, tem um montão de pedrinhas e pode comprar logo várias canoas e remos e ir viajar para a terra gelada dele, passear…

- Isso é turismo!

- Como fui eu quem teve a idéia, as pedrinhas ficam comigo…

- E aí vem algum invejoso e mata você por causa das pedrinhas, temos guerras, inveja, ganância, muita confusão e é exatamente o que não precisamos por aqui! O povo lá de fora quanto mais tem mais quer ter, e ajuntam toda sorte de coisas desnecessárias.

- Eles são maus?

- São tolos! Curiosos como você e este outro aí. Olham para o céu e descobrem mais do que as leis dos astros. Contam coisas e inventam matemáticas. Criam um sistema de anotar os nomes das coisas que se chama escrita, e, a partir daí, desenvolvem uma tal de ciência : quebram e destroem tudo que encontram para ver como funciona, até os bichos e as plantas.

- Como esses desenhos na areia? O Kupe me contou uma história com esses desenhos e eu acho que posso melhorar esses sinaizinhos para..

- Não, senhor! – o feiticeiro zangou-se.

 - Isto não é bom?

- Bom é amor com sabedoria. Bom é a vida simples. Como a nossa.

- ???

- Conhecimento demais é perigoso. Esses povos lá de fora matam seus homens sábios. Confúcio, Sêneca, Jesus…Só pensam no poder.

- O que é poder?

- É mandar nos outros. Quem não sabe amar, precisa de poder para conseguir coisas materiais.

- E se a gente fosse lá e ensinasse a eles…

- Sócrates tentou ensinar e eles o mataram, Platão tentou e foi escravizado.  Ah, eles são inquietos! Como você, aliás. Eles não ouviram nem Buda, nem Cristo, nem os outros sábios deles. Lá fora impera o mal: os fortes judiam dos fracos. Cada um por si, pilhando e destruindo, até o dia em que acabarão com o planeta.

- Feiticeiro, você esteve lá!

- Eu vivo no tempo do Sonho. Vejo cada momento que esta terra cria e recria. Vi os objetos que eles usam , de coisas chamadas plástico, isopor, materiais que,  uma fez criados, não voltam à terra e interrompem o ciclo da vida.

- Que mais, feiticeiro?

- Eles usam a energia dos raios para ter luz em suas casas durante a noite e esquecem de repousar. Colocam todo o conhecimento no ar, em forma de ondas invisíveis que aparecem quando eles querem, aonde querem, bastando apertar nos lugares certos umas plaquinhas que eles carregam consigo para toda parte. Chamam isso de mundo virtual, ciberespaço, rede mundial de computadores…

Bungaree ficou pensando…

- Com uma plaquinha dessas eu posso saber o caminho até Uluru sem decorar as canções das trilhas, ver se estará chovendo no dia da viagem, chamar meus amigos que estão caçando emu para irem lá me encontrar, quem sabe até conversar com meninas bonitas para ver com qual delas eu vou casar?

O feiticeiro suspirou, entre bravo e desiludido.

- Entendeu tudo até bem demais…se fosse só isso, seria bom. O problema é que essas plaquinhas engolem as pessoas. Os homens ficam tão fascinados com o que estão vendo, que ficam parados, olhando para elas, e se esquecem da vida. Não se olham mais nos olhos, não se tocam, não se  ocupam das crianças e dos doentes, fazem o necessário bem rapidinho para logo voltarem a olhar para suas plaquinhas, fascinados. Mas só algumas pessoas tem as tais plaquinhas.

- E as outras?

- Há os escravizados, os famintos, os doentes, os drogados, há florestas destruídas e animais mortos porque eles precisam de uns metais enterrados na terra para fazer seus brinquedinhos. Bungaree, por um pouquinho de conforto, uma roupinha bonita, uma casinha confortável, um cheirinho gostoso, você acabaria com nossos bichos? Jogaria lama em nossos billabongs? Deixaria de lado os doentes e fracos e só se ocuparia da linda garotinha que quer namorar e que está olhando você de dentro de uma tabuinha mágica?

- Feiticeiro, está tudo confuso em minha mente! Como é que uma novidade pode ser ruim? Eu gosto de novidades.

Durante este tempo, Kupe, exausto da viagem, sonolento após a refeição, havia-se enroscado sobre um montinho de folhas, e olhava, admirado, o velho a discursar. O feiticeiro jogou algumas folhas no fogo, fez um gesto, e,  ao respirar a fumaça que foi em sua direção, Kupe adormeceu.

- Feiticeiro, eu lhe entreguei o bastão de boas vindas. Comemos juntos. O que vai fazer com ele?

- Sossegue. Ele não se lembrará de nós ao acordar. Vou dirigir a canoa dele para a ilha Te Puia o Whakaari' onde há um vulcão está prestes a explodir. Vulcão, antes que me pergunte, é um buraco que se abre na terra cuspindo fogo . Seu amigo vai presenciar uma formidável explosão, seguida de um tsunami que vai largá-lo na Te Ke a Maui, a ilha norte, lá no país dele mesmo, nas imediações de um caminho que o levará a Rotorua.

- Ro to ru a?

- É um vulcão mais modesto, com jatos perenes de água fumegante, fumaça saindo da terra, poços de lama borbulhantes…

- Parece assustador.

- Assustador o bastante para convencer este jovenzinho de que sua ilha é o melhor lugar para ele ficar; se as ilhas de origem fossem boas para eles, seus antepassados teriam retornado para lá. E vou apagar da mente dele esta idéia esperta de seguir os pinguins, colocando em sua memória alguns tubarões perigosamente próximos a ele, me alto mar.

- Feiticeiro, posso ir com ele?

- Bungaree, ele não lhe contou? A gente dele come os miolos dos estranhos. Eles quebrariam sua cabeça para arrancar seu cérebro. E seus músculos dariam a eles uma sobremesa deliciosa.

Bungaree gritou, horrorizado:

- Eles comem gente? E não viram pedra? Não são punidos por isso?

O velho quase explicou que os deuses deles…mas percebeu a tempo qe a conversa ia tomando um rumo perigoso. Quando um adolescente percebe crenças diferentes das suas, está a um passo da filosofia, aquele mesma filosofia que levou Sócrates à morte e Platão à cadeia, e outros tantos à fogueira. Sem contar que um filósofo atria discípulos, leva outros a pensarem, e discípulos de filósofos são péssimos caçadores e piores maridos. Haveria uma rebelião na tribo, e muita confusão à vista.

Bungaree sentiu-se desconfortável com o ensimesmar do ancião, e sussurrou:

 - Eu vou ser punido? Eu não chamei o outro menino para cá. Eu…

O feiticeiro sorriu.

- Você não foi punido quando entrou na caverna proibida.

- Ah, feiticeiro! Eu bem que desconfiei quando vi aquele lagartinho que não deveria estar lá!

- Na verdade, Bungaree, eu era um morcego, naquele dia, e também estranhei o tal lagartinho…o menino não acha que eu ia assumir um disfarce tão óbvio, não é  mesmo?

O garoto tornou a murmurar, com um fio de voz:

- O que vai ser de mim, feiticeiro?


- Bungaree, você vai para a Lutruwita (o nome dos aborígenes locais  para aTasmânia). Nesta ilha tem um bicho que você vai adorar, purinina (atualmente conhecido como diabo da Tasmânia, ou, carinhosamente, Taz), e espero que seja suficiente para satisfazer sua ânsia por novidades. E meu amigo feiticeiro lá em Putalina  vai apresentar a você uma mocinha alegre, perfeita para sua esposa.

- Onde fica esta tal Tasmânia?

- Bem longe, é para onde nós, os feiticeiros, enviamos os dissidentes e os rebeldes.  E, é claro, você vai esquecer tudo o que se passou aqui esta noite.

Antes que o mocinho atirasse alguma outra pergunta, o feiticeiro jogou outro maço de folhas na fogueira. Bungaree adormeceu.

O feiticeiro falou em voz alta:

- Temos o nosso Sonho, nosso planeta tão perfeito. Temos consciência de que somos os guardiões do planeta, e nosso pensamento é poderoso. Pena que o ser humano não esteja pronto para a sabedoria.    Enquanto eu estiver vivo, e meus sucessores em feitiçaria estiverem vivos, nós defenderemos a Austrália, tornando nossa terra invisível. Por muitos séculos ainda, os navegantes passarão ao largo…enquanto cantamos as canções do Sonho, a Criação continua de tudo o que existe.

Esta foi a história que sussurrou em meus ouvidos o vento farfalhante que vinha do mar.

Caía a tarde. Uma grande tristeza se apossou de mim. Por longo tempo, fiquei lá, ouvindo as kookaburras**** que se recolhiam a seus galhos. Aos poucos, o aborígene à espreita em mim, sorriu, e tudo fez sentido. Eu me lembrei.

Eu, o renomado físico quântico, um dos mais brilhantes discípulo Niels Bohr. Eu, o ambientalista dinamarquês. Eu, o rico viajante que percorrera tantos países, assimilando o conhecimento e estudando as culturas de tão diferentes povos. Eu, o iogue. Eu, o cientista enviado em missão quase diplomática para as rodadas de Doha. Eu, o feiticeiro reencarnado.

Os povos bárbaros  da civilização do plástico desprezariam o aborígene, mas certamento ouvirão o renomado cientista. Eu estou exatamente onde deveria estar. E, agora, que a terra sagrada dos antepassados despertou minha memória, eu sei exatamente o que fazer.

Ainda há tempo.

Sonia Regina Rocha Rodrigues

Dra. Sonia Regina Rocha Rodrigues é escritora e médica especializada em Pediatria e Medicina do Trabalho. Idealizou o jornal Um Dedo de Prosa e foi co-editora da revista literária Chapéu-de-Sol, que circulou em Santos de 1996 a 2001, juntamente com as também escritoras Madô Martins, Neiva Pavesi e Mehelen Madureira. É autora do livro de contos Dias de Verão. – (1998) e O que você diz a seu filho? – PNL para pais e educadores (1999). Em 1996 participou da fase regional do Mapa Cultural Paulista com o conto A auditoria, representando a cidade de Bebedouro. Sua monografia A importância da cultura para a formação do cidadão foi utilizada pelo prova do Enem em 2011. 

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(os asteriscos tem notas de rodapé, abaixo, citando a bibliografia utilizada)

Asterisco 1 - W. H. Edwards, An introduction to Bungareeriginal Societies

Asterisco 2 – Projeto Genográfico – em estudo desde 2005 -  National Geographic Explorer-in-Residence Dr. Spencer Wells - O trabalho científico conta com o respaldo da  Waitt Family Foundation. O projeto está previsto para ser concluído em 2014.

Asterisco 3 – Lucy é o apelido que os paleontólogos deram a  um fóssil de Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos, descoberto em 1974 pelo professor Donald Johanson , nas areias da Etiópia


Asterisco 4 – kookaburra é um pássaro típico da Austrália.

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Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

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Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

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