Café Literário: Ela


Andávamos por uma longa avenida, estávamos famintos. Buscávamos um lugar para almoçar. A fome era tanta que nem precisava ser barato.  Domingo, todos os lugares disponíveis pareciam estar fechados. Nossos passos eram rápidos e rapidamente a fome aumentava.

– Cara, por aqui. Tem um lugar bacana na rua de trás. – Disse o companheiro de larica.

Seguimos pelo caminho que ele havia indicado. Encontramos o restaurante. Milagrosamente o lugar estava aberto e inacreditavelmente vazio.  Entramos apressados: Senti de longe o aroma da comida exalando do Buffet. Cheiros variados de pecados capitais. Uma quantia imensa de tipos de carnes, massas e outras especiarias estavam à nossa disposição. Fizemos montanhas dignas de nossa obesidade e fomos nos sentar. De imediato veio o garçom trazendo as comandas, e perguntando sobre as bebidas. Meu amigo pediu cerveja e eu uma coca-cola. Enquanto esperava pelo refrigerante, comecei a reparar no ambiente, estranha e desagradavelmente familiar. As toalhas vermelhas e brancas das mesas, o quadro do homem de chapéu de palha pendurado na parede, as cadeiras de madeira e os arranjos de flores no chão davam-me a impressão de já ter estado ali. Ignorei a sensação e parti para o ataque, devorando o alimento sem requinte ou polidez. Meu amigo repetia a façanha do outro lado da mesa. Olhei, por reflexo pela janela no extremo oposto do salão e vi a bela fonte jorrando água do lado de fora, um jardim e uma piscina.

 A memória reavivou. Eu já havia estado ali anteriormente, com Ela. O mundo pareceu parar. A carne, suculenta no prato, adquirira um gosto estranho na boca: Gosto de lembrança. Os feijões viraram pequenos pedaços de pedra e a cadeira em que me sentava pareceu criar espinhos. De um rádio, não muito distante, uma música dos para-lamas do sucesso, daquelas que te jogam na fossa em dois minutos chegava aos meus ouvidos. E então veio tudo de uma vez: O sorriso dela, o rosto dela, o cheiro dela, o dia em que estive lá com ela, a roupa, a bolsa que ela usava e inclusive a mesa em que havíamos nos sentado anos atrás eu relembrei. Notei que estava passando mal e que a comida não me descia.  Desisti de comer. Senti-me como se nunca mais fosse ter fome em minha vida. Bicava de tempos em tempos a coca, rezando para que meu amigo terminasse logo de comer, para que fossemos embora. Ele notou meu desconforto.

– Ei! Tá tudo bem? O que foi? – Perguntou.

– Já estive aqui anos atrás. – Respondi.

– Ah é? Com quem? – Ele disse tentando fingir interesse no que eu dizia.

– Com Ela.

Ele parou a mastigação e arregalou os olhos.  Ele já conhecia a história. “Ela” era assunto proibido e ele sabia que quando eu pronunciava o nome a situação era grave. Ficou me olhando. Esperei ele levantar, me dar tapinhas nas costas, dizer palavras amigas e motivacionais, ou perguntar se não seria melhor sairmos dali o quanto antes. Não o fez, simplesmente voltou a comer.
 
A memória, este veneno, estava impregnada em cada esquina que eu passava, em cada lugar que eu entrava e em cada música que eu ouvia esperando o momento oportuno de me atacar. Lá estava eu, infectado e sofrendo dos efeitos colaterais. Sem fome e com os sentidos dolorosamente aguçados, contemplei-o comendo. Ergueu o copo de cerveja, e matou em goles seguidos. GULP, GULP, GULP. Achei o ato agressivo. Pegou um pedaço de torresmo com as mãos engorduradas. Jogou na boca e se pôs a mastigar. CRECK, CROCK, CRECK. Uma gota grande e cristalina de suor lhe escorreu pelo canto do rosto, desceu pela bochecha, passou pelo emaranhado da barba e despencou no ombro. A mastigação continuava. É impressionante como o rosto de nossa espécie deforma quando se alimenta.

Finalmente ele acabou. Fomos pagar a conta. Porra! Até a menina do caixa era a mesma. Cobrou ainda uma tal “taxa de desperdício” de mim. É claro, o dono do restaurante não ligava para meu sofrimento, o garçom não ligava para meu sofrimento, meu amigo também não ligava para meu sofrimento e nem mesmo Deus ligava para meu sofrimento.  Pagamos e corri pra fora do lugar. Meu amigo veio logo atrás. Finalmente iríamos voltar pra casa. Lá fora uma tarde ensolarada de domingo se ensaiava. Crianças corriam felizes pra lá e pra cá gritando e empinando pipas.

– Tá afim de parar ali para tomar sorvete, de sobremesa, sabe?

– Claro. – Respondi mecanicamente.

Um exército indestrutível de monumentos fúnebres marchava diretamente contra mim. Todas as estátuas tinham um só rosto, um só nome: O Dela.

Guilherme Pedlowski

Guilherme Pedlowski tem 22 anos de idade, e está  no 4º ano do curso de História na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Nascido em Minas Gerais no dia 20 de Abril de 1992, filho de Adalberto Siqueira Pedlowski e Ana Paula de Queiroz Alves.  


 http://www.revistapacheco.com/2014/12/a-revista-pacheco-quer-saber-o-que-voce.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Publicidade

http://www.tertuliaonline.com.br/
http://www.revistapacheco.com/p/contato_507.html

Destaques

A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
As imagens postadas neste site foram retiradas da internet ou enviadas por colaboradores. Se é proprietário de alguma imagem e se sentiu ofendido, por favor, entre em contato conosco e ela será rapidamente tirada do ar.