Café Literário: Crianças vivem para sempre


O garoto tinha um sorriso malicioso e divertido enquanto o observava por entre mechas de seu cabelo. A fada sobrevoava pouco acima de sua cabeça, um pequeno e furioso ponto de luz, que o incomodava e irritava muito. Quase tanto quanto o menino.

Então, o garoto ergueu sua espada e o aço brilhou dourado como ouro devido à luz da fada, e quando o seu oponente ergueu a sua, ela brilhou em prata abençoada pelo luar, como se fosse feita de mercúrio líquido.
 
— Pronto para mais uma, Gancho?
 
— Sempre, Pan.
 
O capitão cuspiu o nome como se fosse o pior insulto que pudesse pensar. Peter Pan riu em deleite enquanto flutuava carregado de pensamentos felizes e pó de fadas no ar noturno, Gancho simplesmente o encarou por um instante a mais antes de avançar com a espada em punho.
 
Eles dançaram pelo convés do navio, sendo admirados por piratas e meninos, ambos igualmente perdidos. As velas flutuavam nos mastros como fantasmas e o vento que as enchia estava carregado do cheiro salgado do mar, de aventuras e perigos. Coisas que o Capitão Gancho e a criança Peter Pan pareciam adorar.
 
As espadas se encontravam no espaço entre eles e faíscas brilhavam por um instante como as estrelas infinitas e únicas no céu da Terra do Nunca. Gancho grunhia em frustração e Pan ria em diversão.
 
O garoto parecia uma mosca, barulhenta e irritante, e sempre parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo sobrevoando ao lado de sua cabeça e zumbindo uma tagarelice sem fim.
 
— O que há, Gancho? Já cansou? — O garoto riu deliciado enquanto voava por entre as velas, sua fada sempre ao seu lado. — Ou será que você não tem mais idade para duelar?
 
James Gancho trincou os dentes e viu Pan dobra-se ao meio de tanto rir. Ele também pode ver os Meninos Perdidos rindo enquanto lutavam com sua tripulação sorridente. Pessoas andariam na prancha por isso, começando por Peter Pan.
 
O pirata retirou uma adaga de sua bota de cano alto e a atirou no menino. Não para acertá-lo e machucá-lo, porque isso seria desleal e injusto, e tudo o que Gancho desprezava em uma luta era justamente isso, mas apenas para chamar a atenção.
 
A adaga assobiou ao cortar vento e uma mecha do cabelo da criança. A fada voou para cima e para baixo em fúria, ela parecia ser extremamente protetora do pequeno espadachim. Pan apenas estreitou os olhos e todo aquele ar divertido e infantil parecia ter evaporado do pequeno rosto. O pirata não gostou do olhar que ele lhe lançou, cheio de promessas de perigo.
 
Muitas vezes James Gancho se esquecia de que Peter Pan era tão velho quanto ele, que havia vivido e que tinha tanta experiência de vida quanto ele. Mesmo que tudo estivesse escondido nos fundos dos olhos dele, oculto de fadas, de meninos perdidos e do próprio Pan.
 
Mas agora, aquela experiência anciã brilhou nos olhos dele e Pan ficou sério pela primeira vez na noite. Um sorriso malicioso e perigoso cruzou seus lábios e Pan atacou novamente dando um rasante com sua espada em punho.
 
O capitão do Jolly Roger sorriu e se agachou ficando em posição de luta. Pela segunda vez naquela noite suas espadas se encontraram e sibilaram, liberando pequenas estrelas de luz e silvos de metal que se choca contra o metal.
 
A pequena fada Sininho voava acima deles, acompanhando com destreza os movimentos de seu protegido. Sua luz feérica os deixava em uma redoma de ouro, isolados do mundo, pois ninguém ousaria interromper um duelo entre os dois líderes rivais da Terra do Nunca.
 
Enquanto eles erguiam seus braços e rodopiavam no ar e na madeira do convés em uma valsa mortal de ataque e defesa eles se esqueceram de todo o resto. Dos meninos perdidos que deviam ser resgatados, de membros da tripulação que deviam ficar de olho nos prisioneiros ao invés de acompanhar o duelo, de fadas irritadas que davam pequenos rasantes tentando interferir, de crocodilos gigantes que espreitavam nas águas e nas sombras.
 
Eles não percebiam que as sereias assistiam a tudo com olhares de malícia, torcendo infinitamente e sem culpa por Pan. Elas desejavam à eras atrair os marujos de Gancho para as profundezas de sua moradas. Mas, se tinha alguma coisa em que todos os piratas sabiam se defender era contra as sereias, os belos e maliciosos monstros do mar.
 
Os índios assistiam ao duelo, não para torcerem por alguém, mas vontade, pela beleza que o povo deles podia enxergar na dança de espadas. A sutileza e a coragem, a elegância e o perigo, a postura e a morte. Era magnifico e mortal.
 
Entretanto, James e Peter eram incapazes de observarem essas pequenas coisas que os cercavam, pois um só tinha olhos para o outro. Gancho admirava Pan, mesmo que jamais admitisse, pois o menino tinha vontade, coragem e determinação. Pan sentia o mesmo sobre o Gancho, mesmo que este sempre tentasse matá-lo.

Eles se complementavam, pois não haveria grandes aventuras na Terra do Nunca para Pan e seus Meninos Perdidos sem James Gancho e seus piratas, e não haveria quem andasse na prancha para os piratas de Gancho sem Pan e seu bando. Então, eles rodeariam um ao outro, sem nunca dar o golpe final, sem nunca terminar a rivalidade. Porque os dois sabiam o que isto lhes custaria: uma vida infinita e vazia.
 
Havia barulho no convés, havia gritos e risadas. Barulho de pessoas caindo no chão sempre úmido de madeira, de espadas se chocando, do som de briga em geral. Os meninos eram bons lutadores, haviam aprendido coisas com as fadas, com os índios, com as sereias, com a ilha e com os próprios piratas que tentavam inútil e incansavelmente destruí-los.

— Eu acho, capitão, que já brincamos demais — o menino disse com o espectro de um sorriso ameaçando voltar, toda a sua seriedade se esvanecendo na diversão da luta. — Os seus piratas tem hora para irem para a cama!

Pan deu mais uma de suas risadas que pareciam ter vida própria, carregadas com tudo o que menino sentia e que parecia que queria compartilhar com o mundo. Gancho as odiava, elas eram comuns e profundas, carregadas de sentimentos que ele não sabia lidar.

— Os únicos meninos aqui é o seu bando inútil, Pan.

O capitão respondeu cortando com sua espada na horizontal, mas o garoto rodopiou em pleno ar e se desviou, deixando somente sua risada para trás. Mas risadas não podiam ser cortadas, Gancho sabia disso porque ele já havia tentado.

Então, ele cruzou olhar com a fada Sininho e eles se entenderam. Ela subitamente desapareceu do lado de seu protegido. Gancho estreitou seus olhos, ele não gostava quando a fada se aventurava sozinha por seu navio. Ela era desastrada e meticulosa demais para roda pelo seu precioso Jolly Roger.

— Acho que dessa vez Gancho, nós finalmente vamos chegar ao fim — Pan disse sério enquanto atacava com rapidez e fúria.

— Oh, você finalmente sentiu outra coisa além de diversão Pan?

— Você o matou, James Gancho. Fez com andasse na prancha, que caísse na água, que fosse devorado por aquele crocodilo. Fez com que morresse para sempre.

O garoto sentia a morte de um dos seus, como Gancho jamais sentiria a morte de alguém de sua tripulação. Havia lágrimas nos olhos dele, que escorriam por suas bochechas deixando caminhos brilhantes à luz pálida e prateada da lua.

Gancho aproveitou sua distração e o empurrou contra o mastro principal, o garoto arfou e ergueu o rosto a tempo de receber um soco e ter a mão direita do capitão em sua garganta.

— Se você não estivesse se divertindo por aí, Pan, como a criança que insiste em ser, então ele ainda estaria aqui.

Logo ali no canto, escondido o suficiente para que ninguém visse estava a culpa.
— Você vai pagar pelo que fez — ele cuspiu por entre dentes cerrados de fúria antes de lhe dar uma joelhada e erguer a espada.

James Gancho caiu de joelhos no chão e só teve tempo de levantar sua mão direita para se defender. Os golpes que pareciam calculados entre os dois, como uma dança precisa, agora tinham força e mira, não para matar, mas sim para aleijar.

A espada cortou pele, músculos, tendões, nervos e ossos. Um golpe único e preciso, que nem parecia ter sido feito por uma criança. Gancho e Pan gritaram, um pela dor física de quem tem a mão decepada, o outro de quem tem que arrancar a mão de outrem.

O sangue espirrou no convés e junto com a mão que caia no chão do navio também caiu o silêncio. Nada se mexia, nem mesmo o vento. Todos estavam imóveis e silenciosos esperando o desfecho daquele momento. A lua brilhou mais forte para que todos vissem.

Peter e Gancho arfavam estáticos em seus lugares. Peter com olhos arregalados e respingos de sangue no rosto, Gancho agachado e segurando o pulso mutilado. As brincadeiras para os dois se esgotavam ali, a infância do relacionamento deles não existia mais, havia amadurecido em algo que nenhum deles parecia preparado para examinar detalhadamente no momento.

Os Meninos Perdidos flutuavam acima de mastros e velas, erguidos por pensamentos puros e felizes, por pó de fadas e magia, e arfar em uníssimo. Sininho se ergueu à frente do rosto de Peter Pan e o encanto pareceu se quebrar.

O garoto se agachou e segurou a mão do capitão firmemente entre as suas, depois sem dizer mais nada andou até a amurada do convés e a atirou na água. Gancho se encolheu quando ouviu o som do crocodilo monstruoso se regozijar com seu sangue e sua carne.

— Eu disse que faria você pagar pelo o que tinha feito.

— Você não engana mais ninguém Pan. Agora todos sabem que você não é mais uma criança.

— Você não sabe Gancho? Crianças podem ser muito cruéis.

Peter Pan se agachou ao lado da árvore e sozinho chorou. Chorou porque algo dele havia se quebrado para todo o sempre e parecia que ele nunca seria capaz de recuperar. Parecia que o capitão estava certo, ele havia crescido um pouco nesta noite.

Em sua cabine e solitário, o Capitão Gancho ouvia o tic tac ininterrupto do crocodilo que parecia segui-lo em qualquer lugar. O gancho que agora estava no lugar da mão que Pan arrancara brilhava venenoso à luz das velas.

Agora entre os dois havia também ódio. Ódio dos dois lados na verdade. Nada mais seria o mesmo. Eles haviam crescido naquela noite.

Graziela Fusco Ramos

Graziela Fusco Ramos nascida em Promissão, interior de São Paulo, hoje se aventura na cidade grande. Viveu a infância nos anos 90 e ainda assim se acha uma alma velha. Deve toda a sua paixão pela literatura a Marcos Rey e seus romances policiais, e como resultado hoje ela acha que até bulas de remédios podem ser interessantes.

11 comentários:

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  2. Conto interessante. Adicionou um certo drama ao original. Bem escrito, porém, se é um prelúdio, como gancho se chamaria gancho antes de perder a mão? Pensei se tratar de uma história sem compromisso com a cronologia de J.M. Barrie. nota 8.
    Gilson Cunha

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  3. Gostei da segunda parte, da luta, bem escrito. Deveria começar o conto por aí. Precisa fazer correção, tem palavras faltando. O narrador precisa definir se vê o protagonista como homem ou menino. A árvore no final não era necessária, já que tudo acontece em um navio. Nota 6

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  4. Uma releitura interessante de conhecidos personagens, que ganha maior forca narrativa na segunda parte. A frase final e impactante. Nota 9.

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  5. Um bom conto, uma história legal e bem narrada. Gostei das cenas de ação e das descrições no decorrer do texto.
    Entretanto, em alguns trechos, o uso de "eles" e "deles" se tornou excessivo, tirando um pouco do brilho do conto. Vi a falta de algumas palavras também, que tiraram o sentido de algumas frases.
    Bom, é isso. Nota 7
    Parabéns e boa sorte!
    Jefferson Lemos

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  6. Narrativa empolgante. Realmente a árvore no final ficou fora de contexto, e percebi alguns erros de digitação ou português, mas não tiraram a fluidez e empolgação da leitura nem diminuiram a clareza do texto. Me senti espectadora da luta. Nota 9. Cristina de Abreu.

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  7. quando matou perdeu sua infância.... uma lacuna, por que era chamado de capitão gancho antes de perder a mão... no resto está bom.... nota 7.5

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  8. Gostei muito da prosa, bastante poética, mas senti que a história ficou meio desconexa entre si; Pan, no começo, age e é descrito pela narrativa com a sua tradicional inocência infantil, e então de repente começa a demonstrar que esta luta, ao contrário das outras, tem um peso muito maior para ele. Nota 7.

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  9. Bom texto. As cenas de ação foram bem descritas, porém, muitas delas repetem a fórmula dos filmes da Disney. Talvez por causa disto a segunda parte pareça mais interessante. O capitão ser chamado de Gancho antes mesmo de possuir um foi um erro. Pessoalmente gostaria de continuar vendo Peter Pan como muma criança. A maior parte dos contos que fazem parte deste Desafio (não é o caso deste) parecem buscar um lugar nas páginas policiais. Talvez pudessemos ser mais sutis ao explorar tais cenas. Sei que os textos não foram escritos para crianças mas, já temos violência suficiente despejada em nossos lares.

    Nota: 7,0

    Adnelson Campos

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  10. Gostei muito do conto. Foi, de fato, uma narração ausente na história original, está bem escrito - apesar de um pequeno erro ortográfico - mas o texto tem uma escrita bem fluida e empolgante, apesar do problema da referência do "gancho", antes da perda da mão. Nota 9.

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  11. Gostei do conto, a descrição das cenas de luta é quase perfeita, parecia que estava a assistir ao vivo.
    Reparei em algumas imprecisões que não afetam o desenrolar da história.
    “James Gancho trincou os dentes” – o que se trinca é o que está entre os dentes.
    Nota 8,5

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