Especial Dia das Bruxas: Onde a mente existe

E ele não amava, e ele não falava, ele existia apenas naquele apartamento minúsculo, fétido. Eram cinco horas da manhã, o sol acabava de acordar e ele estava lá, dentro do banheiro, agachado, com as mãos encharcadas de sangue, um corpo à sua frente, um violão às suas costas, ele sorria e chorava, não sabia que era tão doloroso assim, não imaginava que doeria tanto nele - e doeu, doeu tanto quanto doeu naquela moça. O que fazer agora, como vou sair daqui, como vou continuar. Não definitivamente aquilo não deveria ter sido feito, foi um impulso, um momento de descontrole apenas. Um descontrole que valeu uma vida. Foi entre tantos pensamentos que irrompeu o som do despertador, sempre agudo, sempre forte, o despertador, como sempre, foi o que o acordou, ele se levantou, puxou o corpo um pouco para o lado, pode ver o rosto dela, o belo rosto encantador. Abriu a torneira do chuveiro, imaginou que a água pudesse purificá-lo ou, ao menos, amenizar aquela sensação à flor da pele. Num abraço inexistente em si mesmo caiu, as pernas não o aguentavam, aliás nada mais dele o aguentava. Segurou o corpo perto de si, a água corria por aqueles corpos, um livre da vida, o outro, atormentado pela morte. Ele se confundiu com o que era antes, já não se reconhecia agora ao olhar para aqueles pedaços de espelho no chão. Então, molhado, sujo de suor e sangue ainda se levantou resoluto, decidiu sair, ir para algum. Não, já não queria fugir de si mesmo, sabia que não conseguiria. Saiu. Enquanto abria a porta do apartamento lembrou-se do dia anterior:
 
Casa, quarto, cama, uma rosa. Tudo na sua cabeça. Ele, nada. Ela, paixão. Sempre em qualquer lugar aquilo: um desejo. Encontros e vontades: separação. Ele com uma faca, ela numa fuga desesperada. Eles longe um do outro por causa da desgraça do mundo, por causa do desamor.
 
Voltou a si, estava numa rua escura, caminhava em direção a nada, o sol parecia se esconder entre a nuvens, um desejo de não existir o capturava pela perna, o levava ao delírio e ele não enxergava quase nada a sua frente. Alguns trabalhadores soturnos o observavam, alguns indiferentes, outros boquiabertos, amedrontados. E assim ele continuou, a cada passo um desejo pela morte o afirmava em si. (seu e sua mãe sempre brigavam durante a noite, ele era a causa, um dia, ainda jovem, ouviu a mãe gritar para o pai: "você não vê que ele é um psicopata, não percebe o desejo dele de ver as coisas morrerem. Quantas vezes ele já não matou seus animais de estimação, precisamos fazer alguma coisa". E o pai respondia: "Não, ele é apenas uma criança normal, isso vai passar. Isso vai passar"). Ele não sabia o que era aquilo de psicopata, não sabia até o dia da morte deles. Um policial que falou: "Foi um desses psicopatas baratos que os matou". E entendeu o aquela palavra significava, entendeu profundamente. Sentiu nojo de si. Ele só tinha onze anos. Agora, com seus dezenove, morava com um casal, um casal amigo de seus pais. Eles o chamavam de filho. Eles tinham uma filha, bela. Foi nela que ele sentiu o amor. Ela o usou apenas, no fundo, sentia penas repulsa, mas se entregou a ele como quem se entrega ao mar, apenas para se divertir. Ele não pode permitir aquilo, sua ira "psicopática" falou mais alto, seu impulso a matou.
 
Ele permaneceu caminhando, caminhando fortemente, a passos decididos, a um tempo buscava descobrir quem foi o psicopata que matou seus pais, tinha uma suspeita. As buscas da polícia já haviam acabado, ele continuava incessantemente a buscá-lo com toda a força e agora, nesse momento, sentia uma especial fúria, queria cravar suas mãos no pescoço dele, arrancar todo o seu sangue, devolvê-lo aquilo que ele deu aos pais dele. Lá estava, era aquela casa verde. Era lá onde morava o assassino. Ele tocou a campainha. Três vezes.
 
- George! O que aconteceu a você? Você está ferido, está molhado, entre. George...
 
Ele estava com a cara fechada, permaneceu olhando fixamente para seu tio. Era ele, ele tinha certeza. Ele quem matara seus pais. E a impunidade? Simples, naquele país todos era impunes, ainda mais ele, um juiz.
 
- George, que cara é essa? Entre logo, vou cuidar de você.
 
Ele, então, pulou em direção ao tio, como uma onça pula para agarrar sua presa. Cravou as mãos no seu pescoço.
 
- Seu desgraçado, como foi capaz de matar o próprio irmão?
 
- E você, como será capaz de matar seu próprio tio - disse ele, sua voz tentava se desprender da garganta apertada, entre um sorriso amarelo, irônico. Bastou que ele desse um soco na nuca de George para que este desmaiasse.
 
Ao acordar George viu a sua frente Márcia, sentada numa poltrona, com um sorriso melífluo, inocente.
 
- Você dorme tão engraçado, amor. Parecia que estava tendo um pesadelo - ele percebeu que nada daquilo havia acontecido, era só mais um daqueles pesadelos e lá estava ele, ao lado de Márcia –, seus pais ligaram, nos convidaram para um almoço.
 
- Claro, claro. Desde a semana passada que eles me chamam para ir almoçar com eles.
- Olá, meu filho. Há quanto tempo não nos vemos. Você agora vive trabalhando nessa sua nova pesquisa sobre psicopatas e tudo mais. Como anda?
 
- Anda tudo bem, mãe. Apesar de alguns contratempos espero que tudo dê certo – respondeu ele com um sorriso quase forçado.
 
E entre as conversas chegou o almoço, em bandejas escondidas, como seus pais costumavam fazer. Ao abrir as bandejas foi como se o mundo virasse de cabeça para baixo, foi como se ele experimentasse uma outra realidade totalmente desprendida daquela. Havia naquelas bandejas pedaços de corpos, cabeças, pernas, braços. Eram de seus pais, eram de Márcia. Ele vomitou e, banhado de vômito, chorou, não se sentia em si mesmo, não entendia o que fazia, não entendia o que acontecia. E gritou. Já não havia ninguém mais por ali, apenas corpos. Ele fechou os olhos, desejou não estar ali, desejou que aquilo fosse só mais um de seus pesadelos. Contudo, ao abrir os olhos ainda estava ali, o cheiro de sangue invadia seu nariz, o vermelho do sangue feria os seus olhos, levantou-se, correu desesperadamente até a porta. Estava trancada. Ele chutou, chutou, bateu. Ele foi para as escadas, subiu, parou em frente à porta de um dos quartos, tentou pensar, encontrar alguma solução para aquela situação irreal. Certamente é um pesadelo, esta situação é surreal. Certamente sim, não passa de mais um pesadelo. Ele se sentia longe, não sabia se aquilo era verdade mesmo, aquela sensação o intrigava, há algum tempo ele sentia isso quase constantemente. Havia uma única saída – não era a primeira vez que ele teria de fazer isso -, por isso ele voltou à cozinha, apanhou uma faca. Ele precisava morrer, a única maneira que ele encontrava para acordar era morrer em seus pesadelos. Havia, no entanto, o risco de aquilo ser real. Já acontecera de ele estar sonâmbulo e quase se matar de verdade. Mas olhando para os corpos sobre a mesa concluiu que de forma alguma aquilo era real. A voz de sua mãe ecoava ainda: “Ele é um psicopata”. Afundou a faca no peito.
 
São sete horas da manhã, ele está em uma rede, chove lá fora. Chove confusamente. O que aconteceu? Ele observa as fotografias na parede: não reconhece ninguém. Tateia a cabeça, sente uma faixa enrolada na testa, seu pé está engessado, pensa em se levantar, não tem forças. Após algum tempo remoendo o que aconteceu, os seus pesadelos, ele tenta lembrar o que aconteceu, não consegue, tenta distinguir, entre suas lembranças, o que é realidade e o que não é, lhe parece que tudo são pesadelos. Então entra um senhor pela porta do quarto.
 
- Até que enfim você acordou, estávamos esperando que você acordasse. Bom dia, camarada – o brilho de seus olhos e de seus dentes, a agudez da voz, o penteado, ele conhecia aquele homem, só não recordava -, talvez você não se lembre de mim. Eu sou o Marcelo, seu psicanalista, só quero ajudar você. Primeiramente, você se reconhece neste espelho? – ele segurou um pequeno espelho oval em frente ao rosto dele, incrivelmente ele não se reconheceu, era uma pessoa estranha que estava do outro lado da moldura, nada ali se assemelhava ao que ele imaginava de si. O homem sorriu. Está bem, parece que você não se reconhece. Bem, você lembra o seu nome? – não ele não conseguia lembrar-se do próprio nome. Não lembra, camarada? – ele meneou a cabeça negativamente. Talvez isso ajude: Roberto, seu nome é Roberto Darlan Tavarez.
 
Sim, Roberto Darlan Tavarez, aquele realmente era o seu nome. Como um balde d’água aquilo o fez despertar, ele relembrou as diversas realidades em que existia e em que vivia, um jato de informações inundou a sua mente. Relembrou de sua missão, relembrou das inúmeras vezes que fracassara. Em seu rosto surgiu uma expressão de pesar.
 
- Lembrou, Roberto? Lembrou de como você fracassou tantas vezes? Você foi fraco, por isso o Fluxion tomou conta de você, nós acreditávamos em você, não imaginávamos que você pudesse ser tão fraco. Você não consegue mais controlar sua existência, o Fluxion te controla, ele manipula as possibilidades de suas existências, você é jogado de um lado para outro. Você já nem sabe mais em que realidade está, você agora é uma falha do Fluxion, você deu liberdade a ele. Você agora só quer sair daqui. Aposto que nem se lembra do porquê de ter aceitado tudo isso, não é mesmo?
 
- Não, não lembro. Eu só quero que tudo isso acabe, quero sair daqui de uma vez. Por favor, faça isso parar, quero haver em uma realidade apenas, em minha realidade única, eu quero ser eu apenas, um único eu. Quero parar de ter que me suicidar toda vez que o Fluxion toma conta, toda vez que tudo se torna pesadelo. Eu quero sair desse pesadelo, me liberte – ele estava gritando.
 
- Meu caro, se você lembrasse de como sua realidade é dura, preferiria não ter que voltar para aquele mundo.
 
- Não, não pode ser pior do que isso, não pode ser pior do que não existir realmente, estar preso à não existência, ou melhor, estar preso ao infinito da existência. Por favor, Marcelo, me tire daqui ... – sua voz tornou-se embargada e voltou num grito assustador: - Me mate você mesmo, se for preciso. Prefiro não existir, então.
 
Marcelo apanhou uma mala e de lá retirou uma seringa, injetou seu conteúdo no braço direito de Roberto. As lágrimas de Roberto lhe queimavam o rosto. Ele sentiu aquele líquido pesado percorrer-lhe o corpo, inundar-lhe as veias, sentiu extinguir-se.

Como se acordasse das trevas, de um sono profundo, ele acordou num quarto de hospital, milhares de fios saiam de sua pele, ele tentou mover os braços, tentou mover as pernas, tentou levantar as pálpebras, tentou falar, tentou gritar. Permaneceu imóvel. Percebeu que estava imóvel e lembrou por que havia aceitado aquela missão, lembrou-se de como tudo havia acontecido. Agora já não podia voltar, havia fracassado, permaneceria preso em sua realidade única, sôfrega, permaneceria morto na própria vida.

Caio Girão Rodrigues

canogirano@hotmail.com

Artista apenas, que vive e vive.

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