Especial Dia das Bruxas: Medos Submersos


Tic-tac tic-tac tic-tac. O ponteiro do relógio corria, deixando um rastro de sons irritantes, barulhos que acabariam com qualquer concentração. Deitado no divã, o homem não sabia o que dizer, as mãos tremiam e suavam, os olhos buscavam conforto no teto e a língua cobria o lábio frequentemente para molhá-lo. O médico examinava pacientemente, esperando qualquer reação, o que tornava tudo ainda mais constrangedor.

- Eu ando tenho sonhos. – começou o homem do nada.

O médico anotou alguma coisa e continuou olhando.

- Não sei explicar, mas é como se eu estivesse no meio de uma grande banheira. Eu não consigo ver o fundo nem as bordas, apenas a torneira que é enorme, muito maior que eu. Está fechada, porém, eu sei que a qualquer momento ela vai abrir. Vai despejar na banheira algo que eu não quero saber o que é. Eu tento nadar, eu tento me afogar, e nada. É como se eu não pudesse fugir.

- Você disse se afogar?

- Ah, sim. Esse sonho se repete toda noite, doutor, e parece um daqueles... Como se chamam? Sonhos acordados?

- Sonhos lúcidos.

- Isso! É um sonho lúcido, eu posso me mexer, posso fazer o que quiser, e eu sei que estou sonhando, mas não consigo acordar de verdade. Aí eu fiquei incomodado de tanto ter esse sonho e comecei a me afogar. Achei seriamente que isso me faria abrir os olhos e me ver molhando a cama.

- E o que aconteceu?
- Senti falta de ar, meus pulmões queimaram, eu nadei para a superfície bem a tempo de ver... Não sei o que é, é nessas horas que eu desperto. Algo vai sair do cano, vai transbordar a banheira, e é algo que me assusta. Mas eu não consigo ver...

- Entendo. Bom, o que acha de fazermos uma pequena experiência controlada?

- Como assim, doutor?

- Eu colocarei você para dormir, você estará com um gatilho. Se eu perceber qualquer perturbação no seu sono, eu o acordarei imediatamente. Você não chegará a ter sonhos realmente, só começará, e assim eu poderei avaliar o que lhe acontece.

O homem concordou e, ainda que estivesse preocupado e com medo, fechou os olhos.

- Agora, eu quero que você relaxe e pense no primeiro objeto que conseguir lembrar.

- Luminária. Eu... Sempre olho pra minha quando estou pra dormir.

- Ótimo, então, quando você ouvir “Luminária”, acordará imediatamente. Deixe o corpo descansar, sinta cada músculo aliviar a tensão. Deixe o sono vir e se concentre na luminária. Quero que esqueça onde está ou por que está aqui. Apenas durma.

Em seguida o homem pareceu entrar em um sono pesado, talvez aliviado após dias de sonhos ruins seguidos. O médico esperou que começassem as reações e foi anotando o que percebia em seu caderninho, imaginando qual era a razão de uma banheira e a imagem de uma torneira. Os sintomas surgiram devagar. Primeiro a respiração dele ficou acelerada, incomum para alguém dormindo, depois passou a apertar os punhos. Então o primeiro salto, como se quisesse sair de onde estava.

O médico ficou de pé e foi se aproximando, pronto para usar o gatilho e despertá-lo, mas o homem começou a chorar e ele se afastou um pouco. As lágrimas caíam aos borbotões, eram demasiadas e logo estavam cobrindo o chão. Espantado, o doutor viu que elas não cessavam e literalmente estavam inundando a sala. Tentou tocar no homem e sentiu as roupas dele muito molhadas, como se tivesse tomado banho com elas.

- Luminária. Luminária! LUMINÁRIA!

Mas o homem continuava a chorar, vertendo água como uma torneira aberta. Já estava difícil andar, o consultório transformado em uma piscina, os móveis quase completamente debaixo d’água. O corpo dele sumiu nas profundezas daquela água escura e malévola. Enquanto se esforçava para manter-se na superfície o médico olhava assustado para onde deveria estar seu paciente, incapaz de vê-lo.

Não havia uma explicação lógica para o fenômeno, nada que o médico pensasse justificava o que estava acontecendo. Tentou ver saída, mas a água havia trancado as portas e as janelas, cujos vidros estavam bloqueados por persianas. A única passagem aberta era o banheiro, onde o médico pôde ver aquilo que o deixou mais perturbado. A torneira da pia parecia ter crescido, subido, até ficar acima de tudo, e agora pingava devagar.

Sem entender como, o doutor sabia que aquela era o motivo para tudo, uma imagem projetada do pesadelo do homem que agora não teria para onde fugir. Assim que acordasse, se acordasse, estaria afundado e provavelmente morreria sem chances. Completamente ilógico. O próprio médico provavelmente teria um final terrível quando aquela água enchesse por completo a sala, sobrenaturalmente ocupando cada canto.

De repente algo chegou à superfície, o que o médio a princípio pensou tratar-se das roupas do paciente, mas viu que eram mais do que isso. Como um pedaço de pano descartado, a pele do homem flutuava, vazia, uma casca que deveria ter contido algo terrível, pois haviam rasgos em diversas partes e resquícios do sangue. Foi preciso muito controle para o médico não surtar de vez e sentiu que a bile subira à garganta.

Pior, provavelmente haveria algo debaixo da água que lhe caçaria. Tentou nadar, olhando em volta, esperando que alguma coisa surgisse para lhe abocanhar, quando sentiu um roçar nas pernas. Sem poder ver o que era, somente percebeu um corpo esguio, similar a uma serpente. Buscou um ponto mais alto, de repente ficar em cima de sua mesa de trabalho, mas parecia que tudo havia sumido completamente, restando apenas as paredes do consultório e a cada vez mais aterrorizante criatura.

Começou a desesperar, tremendo. Sabia que no fim ou morreria devorado ou afundaria, de qualquer forma não haveria chance. Mas lutaria, com todas as forças, e daria trabalho. Forçou o corpo contra a porta, jogando todo o peso, que a água acabava suavizando. Nem mesmo o som choco das batidas. A esperança ficou abalada, no entanto não desistiu. Fez o mesmo contra a janela que permaneceu impassível junto às persianas, aguentando toda a pressão da água corrente que subia mais e mais. A própria sala pareceu se transformar, ficando mais alta para que nunca terminasse de encher.

A criatura devia estar brincando com ele, sabia do seu pavor e se alimentava disso. De vez em quando lhe tocavam os pés, os joelhos até a cintura, mãos ou o que quer que fossem, incitando a mais uma vez fugir, e apenas de leve para assustar, mas firme para que ele sentisse. Começou a rezar, implorar por um fim, o instinto de sobrevivência forçando-o a brigar, enquanto sua mente dizia que não seria sensato, que já estava tudo acabado. Morreria afogado em medo, puro medo fluído.

Percebeu então que era isso que cobria o consultório, o medo profundo aquoso, a materialização de todos os males que pudera pensar, o pavor abissal do homem que viera se consultar com ele. O psicólogo o amaldiçoou, desejou que estivesse ardendo no inferno pelo terror que havia trazido a ele. Esbravejou, gritou para que a criatura terminasse o que havia começado. Não aguentava mais a pressão de esperar pelo pior.

Como se atendesse seu pedido, dois olhos brilhantes o encararam debaixo d’água, formas aquosas similares a olhos de peixe, grandes o suficiente para serem usados como bolas de sinuca e muito, muito mesmo, horripilantes. Era o tipo de visão que traria o fim antes de qualquer outra coisa. Foi demais para o pobre médico, que parou de tentar nadar. Suas forças haviam se esgotado, o sentido de tudo não mais existia naquela cela projetada por sua mente. A dor de viver ficara maior do que sua vontade de continuar. Era melhor deixar que tudo fosse embora, junto da água que escorreria. Sabia, inconscientemente, que já estava sendo absorvido, como se estivesse no interior de uma criatura antiga e maligna.

Subitamente a tortura foi finalizada, o barulho da água, as movimentações, apenas o silêncio restou. O médico ficou mais tenso do que nunca, imaginando o que viria a seguir. Não teve tempo de se debater, de reagir como esperava. Foi puxado por uma força irrefreável e sumiu. Suas últimas palavras, se pudessem ser ouvidas, seriam “Luminária! Por Deus, luminária!”. E então mais nada. Nem um sinal do psicólogo. A água começou a descer, devagar, devolvendo o consultório à sua forma original.

A criatura surgiu, de pé, encarando a porta aberta do banheiro. Esperou calmamente até que fosse possível caminhar até lá, não havia por que acelerar, agora que o médico e o paciente haviam sido eliminados. Era uma mistura de várias coisas, vários medos, um ser hominídeo grotesco, tirado dos piores contos de fadas, partes de peixe e de homem. Quando enfim não tinha mais qualquer obstáculo, movimentou-se. Chegou até a pia, abriu a torneira e deixou a água fluir um pouco. Tocou-a e mergulhou cano adentro, desaparecendo.

O consultório ficou vazio por completo. Nenhum traço de qualquer ser humano. Apenas o relógio marcando as seis horas da tarde. Fim da sessão.


Antônio Henrique Botticelli
tonbotticelli@gmail.com

www.tocadolobonegro.blogspot.com

Jornalista por formação, escritor por insistência, Antônio Henrique devora os livros desde que se tem por gente, o que lhe instigou a escrever sempre que possível, de contos a poemas, música a crônicas, ficção e artigos. Atualmente mantém sua rotina de escrever para o blog e colaborar com a revista NeoTokyo, especializada em cultura japonesa, além de continuar, hoje e sempre, a ler muito.

Um comentário:

  1. Meus parabéns, meu camarada! Muito bom o seu conto. Que história! Muito bem escrita, tensa e sombria, ótimo vocabulário empregado. Parabéns!

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