Especial Dia das Bruxas: Coelho 38


Meus pés iam me levando sem destino  naquela rua. Eu me via apenas  cruzando com as pessoas  e atravessando-as como fosse um fantasma.... Diante de um edifício qualquer,  meus  passos, surpreendentemente,  se detiveram; e como algo incontrolável,  os meus olhos subiram para a  placa dourada sobre o portal de madeira, onde, destacadamente, estampava-se  o número ‘38’. Alguma coisa parecia me  empurrar prédio adentro.  A porta aberta, sem ninguém à vista, transformava-se num convite irrecusável. Ainda que temeroso, segui  por  uma longa escadaria de mármore com  corrimãos dourados, brilhantes, e recortada por  luz e contraluz, vazadas  dos vitrais  altos e estreitos...  Uma porta indicava o fim da jornada, e à minha frente  surgia  um grande  terraço no topo do edifício.  Sem forças para recuar, segui  até o beiral,  de onde era possível contemplar  o cenário  esplendoroso de uma grande cidade.  Meus pés continuavam sem obediência aos meus comandos. Era visível que me empurravam... e me empurravam  rapidamente em direção ao vazio. Não havia como evitar aquele mergulho iminente rumo ao chão. A queda fulminante estava a segundos de mim. Em meio aos ruídos  da cidade, uma voz lancinante se sobrepôs ao medo que eu sentia. Marcadamente estrondosa, essa voz. Tudo era uma questão de instantes... No entanto, antes que eu sentisse o baque pesado do meu próprio corpo se estatelando no asfalto, espatifando-se  contra o solo,  meus olhos se  abriram. Acordei em sobressalto com a nítida certeza de estar ouvindo ainda  o som imperioso daquela voz: 

“- MÔUSÉS!... MÔUSÉS!... MÔUSÉS!!!.”

Desorientado e sem rumo,  era assim que eu me sentia.  “Um sonho desses não pode ser por acaso!”,  disse a mim mesmo, elaborando  planos para a  “dezena 38”. Há muito,  trago comigo um “pé-de-coelho”, só podia ser isso, insisti!... O amuleto da sorte,   agora, me revelava a sua  serventia. Sim, era isso, afirmei convicto,  deixando aflorar ali  a  minha propensão ao jogo:  -  dezena 38, Coelho na loteria Federal!...
 
Essa minha compulsão para o jogo não era novidade na  Pensão.  Dona Joana, a proprietária, vivia me condenando ao fogo dos infernos por essa mania. E a razão era uma só: a loteria consumia boa parte do aluguel que eu lhe devia!...  Não me foi difícil  atinar  que o “chamado” era Deus falando com o filho, numa cena do filme “Os Dez Mandamentos”, que eu assistira há alguns dias pela TV.  “Moisés” em sua profética missão, abriria o mar vermelho para  que o povo o seguisse em busca da terra prometida!... “MÔUSÉS!”, essa voz me soara como no filme: ampla, reverberante, estrondosa!... ‘Divina’ como haveria de ser a voz de Deus em seu chamado. E Deus vê tudo. Deus tudo sabe. Deus sabia desde há muito,  o que eu sempre desejei, por isso, levara-me ao limite do pesadelo, como uma provação, em que não mereci a sua ira nem o seu desamparo. Deus me apontava o caminho:   “ - Correi, Moisés, ide ao encontro da sua sorte!...” 

No quarto alugado em que estava, abri a  mala em busca do envelope com a  “minha fortuna” escondida.  Notas graúdas, novas, saídas da boca-do-caixa  no acerto de contas do último emprego.  Guardei-as no bolso  para cumprir a minha missão, o chamado,  a voz de Deus me implorando pra cercar a dezena, a centena, e a milhar na Loteria Federal!....  Ao girar a chave na porta, porém,  percebi que não me livraria tão facilmente de Dona Joana. Ali do lado de fora,  estava  “um  cobrador” pouco disposto a ouvir explicações. Dona Joana estava ali à espreita. Bastava que eu pusesse os pés na varanda e pronto. Lá estaria ela a me cobrar os aluguéis atrasados sob ameaças de levar o caloteiro à polícia.   Ainda que eu  forçasse a porta,   o que  cedia  era apenas um vão de poucos centímetros...  Os ruídos do cadeado e da  corrente indicavam que  a porta estava  bem trancada por fora.   Eu ali, preso  em meu próprio quarto, ouvindo  as batidas da bengalinha de Dona Joana num ritmo acentuado e nervoso. Encostei-me  no batente  e insisti no diálogo. Implorei para que ela voltasse atrás. Aleguei, confiante, que estava na mira de um novo emprego. Omiti, com habilidade, o recebimento do dinheiro.  O silêncio de Dona Joana  parecia me dizer  que se  manteria ali para sempre. Voltei à carga num tom suave.  Sim, era verdade, o dinheiro estava comigo. Entretanto, confessei-lhe que não havia recebido tudo. Implorei-lhe para que  me deixasse pagar apenas uma parte,  a metade!... Quase em sussurros, temendo em me expor aos demais, supliquei-lhe que ponderasse os meus planos:  “-  A  minha hora chegou, Dona Joana!...”.    O som da irritante bengalinha dava ares de eternidade. Roguei calma a mim mesmo e enveredei-me por trilhas antigas que eu conhecia de cor e salteado. A reforma da Pensão, eu sabia, estava nos plano de Dona Joana.  Pois eu pagaria, afirmei! Falei alto,  pedindo o testemunho de todos.  Reforcei  o tom, fiz Dona Joana escutar que o meu caminho estava escrito, a voz de Deus não mente!... Com os olhos grudados no estreito vão, aguardei inutilmente pela resposta. Humilhado na alma, uma a uma, fiz  passar  as notas graúdas, novas,  por debaixo da porta. Assumi a derrota,  e pela  fresta observei  as mãos de Dona Joana apanhando  o dinheiro e  voltando  ao seu posto de guardiã. A  bengala, ali, como o  cajado de Moisés,  transformando-se em víbora,  pronta para a  picada mortal. E eu em desespero, rezando  o  pai-nosso e  implorando a piedade.  “- Tenho a “Sorte grande” nas mãos, Dona Joana, só pode ser isso!... É um número abençoado, foi por Deus, Dona Joana!... Foi Deus!...

Aos poucos,  fragilizado, e com as mãos trêmulas,   fiz  seguir  as notas todas, até a última,  pela  soleira da porta... Pela pequena frincha, vi  o dinheiro sendo recolhido;  as notas, todas,  uma-a-uma,  presas nas mãos de Dona Joana!... O  som do cadeado  ribombou alto na Pensão. A  corrente seguiu arrastada para longe.  A porta do quarto  abriu-se com precisão. Dona Joana seguiu para os fundos, e eu, amuado, já alcançava  o  portão da rua,  atirando-lhe todas as pragas do Egito. Chutei uma lata solitária no meio-fio e perguntei-me, chamuscado de ódio, o que fazer pra chegar à sorte grande sem o dinheiro?... E segui dando trelas ao chamado de Deus que teimava  me acompanhar.  A Vidente, a quem todos chamavam de Madame Nenzinha, estava ali,  bem próxima ao viaduto, de olhos vendados,  no centro de um aglomerado de pessoas.  Ao me ver chegar,  o  Assistente pediu-me  que lhe desse  o  “pé-de-coelho”, que eu  carregava preso ao cinto, solicitando de imediato,  que ela  dissesse na presença de todos, o que ele escondia sob suas mãos. Por instantes, Madame Nenzinha olhou para o alto,  como se dali retirasse a sua sabedoria.  A sua voz  soou firme  - “ Um Amuleto...O moço traz, preso ao cinto,  um Amuleto de boa-sorte!”.  Madame Nenzinha, diante da incredulidade de todos,  prosseguia em seu sortilégio,  revelando-me de corpo e alma  aos olhos dos curiosos. Garantiu-lhes que eu - o moço do pé-de-coelho - estava sem emprego.  O moço - espalhou ao sabor do público - o moço, hoje, teve um sonho, um pesadelo!... Assustei-me como todos, diante do que ouvi. Intimado a confirmar ou desmentir, acenei o ‘sim’ com a timidez dos desesperados. Quis fugir, sumir daquela roda, mas as palavras da adivinha me seguiam:  “ - O moço sonhou com um número!...”  Enquanto os aplauso ecoavam Madame Nenzinha insistia em minha travessia:  “- Vai meu jovem... vai buscar a sorte grande!...O amuleto voltou-me às  mãos. Avancei rua afora em meio ao burburinho de camelôs, pedintes e vendedores. Segui  desorientado, visivelmente atordoado pelas palavras da Vidente, até  ser “fisgado” pela voz de um bilheteiro em sua ladainha diária:  “ - Coelho 38... Hoje vai dar Coelho... Coelho na minha mão!”. O vendedor, um velho cego, ali sentado,  trazia ao colo um grande caixa presa ao pescoço, onde, além dos  bilhetes,  oferecia miudezas  e bijuterias...Aproximei-me com insegurança. Nas mãos do cego, os bilhetes de final ‘38’  saltavam esfuziantes sob olhos atentos. Pululavam sob  meu  olhar esperançoso e iluminado, tal qual um  canto de sereia  interminável:   “ - Coelho, Coelho, Coelho!... Coelho Trinta e Oito!...”
 
Interrompi a pregação  do  Cego com  ares de um antigo conhecido. Ele, o Cego, pudesse ver, veria que sou o Moisés, um amigo!... O cego recolheu-se apreensivo,  e pressentindo algo estranho à sua volta, lentamente, tocou meu corpo com a sua  bengala.  Entendi o gesto  como uma oportunidade de aproximação. “Sou o Moisés!...”-  insisti!... Enquanto o Cego  me rastreava o corpo,  livrei-me do excesso de cuidados e me abri por inteiro. Ele, o Cego,  poderia confiar. Como essa luz que me alumiava,  o número ‘38’ estava lá no  meu sonho.  Havia chegado a minha hora, informei-lhe.  A sorte grande me acenava. Até Madame Nenzinha, a Vidente,  confirmara. Inabalável, o Cego repetia a ladainha. Roguei-lhe piedade. Acenei-lhe com uma vida melhor. Uma casa nova. Uma TV na sala outra no quarto.  Eu, ganhando o primeiro Prêmio, ele  descansaria em casa com família!... Enquanto o Cego rezava o seu refrão, meus olhos teimavam em  não se desviar dos bilhetes. Fulminavam aquele  cofre-forte em busca do salvo-conduto para a minha inevitável travessia. Disfarcei o medo,  e segurando um  tom de voz firme, na tentativa de  camuflar as intenções do meu gesto, ao  Cego, fiz-lhe entender que ninguém vive sem um sonho. Como numa reza, roguei-lhe o Misericordioso ao eleger Moisés para a condução do seu povo. Apontei-lhe o milagre do sangue na fonte, o Cajado que se transformara em serpente e as águas tenebrosas do  mar vermelho que se  abriram para os hebreus... Depois, depois cumpri a parte final do meu plano. Camuflei dentro da camisa todos  os “bilhetes premiados”, e segui  como quem fosse  ao encontro do meu  destino. Enderecei ao Cego  um caminho iluminado e gritei forte  aos quatro-ventos:   “-  Hoje, Moisés, hoje vai dar Coelho... Coelho  trinta e oito!... 
 
À  distância,  pude ver quando os seguranças  rodearam o  Cego, que agitava, nervosamente, a  bengala no ar, apontando a eles a minha  direção... Apressei-me. Corri. E já quase sem fôlego, me vi à frente  do edifício. O mesmo edifício que indicava no alto do portal, estampado na placa dourada, o mágico e imponente número “38”, como no sonho...como no pesadêlo!... Em instantes,   os “seguranças”  chegaram.  Cercado,  restava-me  apenas o gesto impulsivo de  seguir em frente. Percorri um caminho tortuoso, subindo degrau por degrau as  escadarias de mármore com corrimãos brilhantes, carregadas de uma luz forte que vazava  das janelas e vitrais...  Sob a pressão dos “seguranças”,  me vi  ofegante  no topo do edifício, de onde se reconheci a esplendorosa vista da grande cidade. Acuado, apontei-lhes os  bilhetes. Insisti que eram meus,  só  meus, ninguém poderia  tomar-me  a sorte grande!...Diante do olhar  perplexo dos meus perseguidores,  os bilhetes, sob minhas mãos, ganhavam asas e arriscavam vôos desencontrados e tortuosos sobre a cidade!...À  margem de mim mesmo, distante, longe como eu nunca estivera, eu insistia em  levar ao ápice aquele êxtase que me invadia por inteiro!...Fiz surgir como minha, a incontrolável ladainha do Cego:  
 
“  - Trinta e oito!... Dezena Trinta e oito!... Hoje vai dar Coelho!...”
 
Os “homens” ainda tentaram me demover do perigo  a que me expunha, caminhando a esmo e em rodopios,  ali no beiral do edifício. Rogaram-me misericórdia. O Cego era um trabalhador, um pai de família!... Eu seguia alheio, ausente  e delirante, louvando  a sorte grande e, pouco a pouco, livrando-me dela, espalhando  ao vento e ao léu,  todos os  “bilhetes premiados”... Impotentes, os perseguidores ainda tentavam decifrar  os meus  gestos  marcados pelo delírio, quando, como no sonho, sem nenhum controle sobre mim, lancei-me  ao vazio em busca de um amparo...certo de que,  dali a instantes, em fração de segundos, antes de chegar ao solo,  quem sabe,  eu  ouviria novamente o chamado, a voz,  a voz de Deus,  a mesma que  me apontara o caminho  da “Terra Prometida!”.

Celso Lopes

elipse84@terra.com.br

Celso Lopes é natural de Guará/SP e radicado há vários anos na capital paulista. Atua na área de comunicação e marketing e participa, eventualmente, de concursos literários.Publicações: Diário quase falado do meio do caminho (poesias); Pedra na Contraluz (contos); Dei bandeira, hein?

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