Desafio Literário: A fome e o nojo



As bananas, verdes acima da cabeça do soldado, repartiam com ele o olhar do general.

Aquele homem, balofo, que ria indecifravelmente, olhando fixo para ele, não inspirava mais do que desespero no soldado. Não sentia cheiro de bananas. 

Roberto, era assim que se chamava, tinha fome, enquanto o general arrotava de um jeito em que um caldo azedo subia pela garganta. Era hora da janta no quartel. 

O general jantava antes que os soldados. Na verdade, os oficiais jantavam depois, mais à vontade, consumindo mais tempo em se entupir e contar histórias. Eles se derramavam em discussões em que todos tinham uma mesma opinião: o comunismo. Não toleravam comunistas, e tortura, para eles, era pouco. Eles impunham uma tal desumanização ao preso político, uma verdadeira desapropriação daqueles “subversivos”, que não lhes deixaria nada com que viver, se tivessem uma escapatória dali. O que era impossível.

O general tinha compulsão por comida. Roberto tinha fome mesmo. Naquele dia, o general o buscou na fila da janta e mandou que o acompanhasse. 

Roberto foi, contrariado. O cara tinha umas cismas; então resolveu, naquela hora... Entrou na sala do general, que apontou uma cadeira. O lugar parecia mais amplo, e também mais limpo do que de costume.

O general tinha mandado fazer uma faxina, fuçado armários, juntado umas tralhas, jogado muita coisa fora, e a sala ficou grande, porque ele imaginou assim, uma cadeira na sala grande. A mesa dele, de general, ele colocou num canto, e ele e a mesa ficaram pequenininhos, uma coisica no canto da sala.

"Sente-se", falou. Roberto estranhou o jeito de ele falar. Embora não identificasse o que havia de diferente no texto do general, era o modo não coloquial de dizer o imperativo, ao contrário de um "sentaí".

Havia uma rede de um pano velho, uma lona, o verde meio desbotado, uma rede pendurada acima da cadeira. Roberto não quis olhar para cima. 

— Tá com fome? 

Roberto disse "sim, senhor" e abaixou os olhos. O general esfregou as mãos, rindo, e pegou uma penca de bananas. Com muito esforço, levou até Roberto. Ao constatar que não conseguiria erguer a penca até a lona irritou-se, voltou para o canto da sala, deixou as bananas na mesa e catou a cadeira. 

Estava Roberto sentado e já a penca pairava sobre a cabeça. 

— Você não vai comer "bandejão" hoje. Só vai comer banana. Só quando ficar madura. 

Roberto era comunista. Era o que diziam. Falou-se que alguém viu na casa dele, durante um churrasco, livros “subversivos”. O “Manifesto do Partido Comunista”. Alguma coisa de Sartre, também. “Eles” não sabiam bem quem era Sartre, mas francês é tudo comunista, e o tal do Sartre era francês.

A mulher dele. Seria a próxima. Nesse mesmo churrasco, viram a mulher de Roberto dizendo à mulher de um oficial que “O vermelho e o negro” era um livro magnífico. Mas só podeia ser livro de comuna. Vermelho: a cor daqueles sovietes. E o preto: uma tentativa patética de igualar os direitos? Mas como? A escravidão mal foi extinta. Deixem os bons católicos, aqueles da TFP (Tradição, Família e Propriedade) terem a sua cota de racismo. Racismo é bom para branquear a população.

Roberto era mulato.

O general acomodou-se na cadeira e começou a arrotar a comida compulsivamente. Aquela comida que não cabia no estômago, que azedava e que, comida, doía, e que ele não parava de comer. 

Passaram-se algumas horas e Roberto não recebia a permissão de sair da cadeira. O general levantou-se e disse: "Vou dormir. Fica aí".

Depois disso, nenhuma regra foi mencionada. Roberto se levantava apenas para ir ao banheiro, um cubículo malcheiroso com uma privada entupida, sem papel, sem toalha, sem nada. Voltava e olhava para as bananas. 

Eram esquisitas, pareciam cera. Roberto queria parar de olhar, achava humilhante olhar, mas tinha fome; ao mesmo tempo, não eram bananas de comer, eram de ver. 

O general contemplava. 

Os dias se seguiam. Roberto sofreu alguns desmaios com o tempo. Estava ficando realmente fraco. Então o general, a cada crise, injetava um líquido nele, e o soldado se recuperava. Com olheiras, os braços roxos das picadas e uma dor incontrolável no estômago, Roberto passava os dias e as noites sem saber diferenciá-las bem, porque o general forrou tudo com cortinas pretas.
 
...

O general sentia-se pior a cada dia. Cada dia comia mais, tinha mais dor de estômago e queimação de comida mal digerida, mas não conseguia parar de comer. E a irritação provocada pelos comunistas, dentro do seu próprio quartel, piorava tudo. Era preciso extirpar da sociedade essa gente que quer viver como se vivia em Cuba. Felizmente – e esse era o consolo do general nos momentos em que mais se irritava – os Estados Unidos davam todo o apoio. Armas, homens, televisão aberta. Na tela da Globo, o país crescia, não havia desigualdade social, não havia fome. Aliás, nem era bom pensar em fome. Será que o comunistazinho já tinha morrido?

O nervosismo de Roberto o irritava muito. Na verdade, ver o soldado reduzido a um esqueleto e sem comida até lhe dava prazer, mas o insistente mastigar dos dedos era insuportável. 

Roberto começou tirando cutícula. Aos poucos, foi comendo mais as bordas dos dedos. Então partiu para as unhas. Agora, passava os dias com os dedos sangrando. Para aliviar, chupava o sangue, atividade que entremeava de novas mordidas e mais vazão de sangue.

Lembrava a mulher e o menino. O general estava ficando com nojo. Roberto já não olhava para as bananas. Curiosamente, o general foi quem passou a contar o tempo que corria em volta da penca. Ele queria que Roberto se levantasse da cadeira, que visse o cacho de bananas, que elas estivessem madurinhas, e que as comesse. E que fosse embora. Ele queria ser o torturador, não o torturado. Ele estava visivelmente sendo manipulado por alguém que não tinha as mínimas condições de lhe impor nada, em breve um cadáver, uma baixa no Exército. O general começava a se deseperar, a comida vinha em golfos de refluxo até às narinas, queimava, e aquelas bananas? Nunca ficariam maduras.

Seria simples resolver isso. Bastava dar um tiro no soldado e pronto. Ia servir de exemplo, ninguém mais faria leituras subversivas nem teriam mulheres que, além de tudo, fumassem em público!

Só que não era tão fácil. Estava preso ao jogo, o que agora tornava todo esse espetáculo uma questão de honra. Ele já havia aberto a boca para outros oficiais sobre o que estava fazendo com Roberto e, por isso, voltar atrás seria desmoralizante. E o general queria obediência, ordem e progresso.
  
*

Mas as bananas continuavam verdes e, por impressão do general, até mais escuras do que antes. 

Roberto fitava o general com fixação, enquanto comia de sua própria carne. O general, que não parava de arrotar e vomitar o caldo azedo e sentir  o ácido subir ao nariz, pelo menos parou de comer na presença de Roberto. Tinha nojo. Em compensação, comia muito mais às refeições. Sentia falta de ar, dores insuportáveis no estômago, o peito chiava e às vezes parecia que até a visão lhe faltava. Depois de um dos não raros momentos em que se viu instantaneamente cego, fixou seu olhar em Roberto. O soldado estava rindo. Era um riso ignóbil, cruel, sarcástico. Roberto continuava roendo os dedos, mas sem a compulsão do começo. Apenas do jeito com que uma puta faz suas caretas, aquelas com as quais julga que vai excitar o freguês. Como que oferecendo os dedos, o sangue e a palidez do rosto.

De tanto induzi-lo ao nojo, mostrando suas olheiras com marcas de sangue e provocando crises contínuas de vômito no general, Roberto o matou. 

Na verdade, o general não agüentou mais sua compulsão alimentar, e entupiu-se de seu último alimento: pílulas para dormir que começou a tomar para tirar a cara aureolada de bananas verdes de Roberto da sua cabeça gordurosa de general. 

O fato é que a digestão foi lenta; ele demorou para morrer. Mas estrebuchou ali na frente do soldado, que assistia à cena ora rindo, nunca mostrando os dentes (para os quais reservava os dedos), ora paralisado de terror. 

Quando, enfim, morreu, um caldo gástrico pendia da boca do general. 

Calmo, Roberto pegou a penca de bananas verdes, que não amadureceriam nunca, e enfiou uma por uma na goela do general. 

Enquanto fazia isso, esbarrou em uma banana, a última. Uma fruta que não estava mais verde. Dizer que estava madura seria uma bobagem. Já estava completamente podre. Certamente estivera madura já há dias. 

Ao abrir um pedaço da cortina e ficar cego da manhã, Roberto acreditou que aquela banana estava madura desde o primeiro dia em que ficou exposto à gula do general, oculta pela lona e pela performance do militar. Esmagou-a entre os dedos, tingindo-a de sangue, sentindo seu cheiro e rindo pela vingança bem-sucedida.

Quando começou a relaxar os dedos melados, um soldado entrou e disparou em Roberto, cujo cadáver não jazeria sobre o corpo do general. Afinal, Roberto era um comunista, não poderia conspurcar com seu sangue o cadáver do general mais querido do batalhão.

Vivian de Moraes
viviandemoraes2014@gmail.com              


Jornalista formada na Unesp de Bauru em 2008, trabalhei em periódicos diários, na Embrapa e no Sesc Araraquara.Tenho três livros publicados: "Sonetos Sombrios" e" Poemas e Canções" (2012) e "hacais/ vivian/ de moraes” (2013), com tiragem de 200 exemplares cada. Tenho contrato assinado com a Editora Patuá para o meu quarto livro de poesia, além de participar de certames para a publicação de outros livros, em outros gêneros. Atibaiense, vivo atualmente em Araraquara/SP, onde estudei Letras (Francês) sem concluir. Este ano, dedico-me ao trabalho de prestar o exame para a prova de admissão ao Mestrado em Estudos Literários na Unesp. Tenho publicações literárias na Revista Cult e nas revistas eletrônicas especializadas Mallarmagens, Pacheco, Zunái e Samizdat, além de ser colaboradora dos Cadernos Pragmatha.

4 comentários:

  1. Bom texto. Mantém a a atenção do leitor. Não vejo como uma releitura da história do Brasil.
    Nota: 8,0
    Ribeirinho do Iguaçu

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  2. Texto muito bem escrito, principalmente na maneira em que apresenta os diálogos e o interior das personagens, e que desperta a curiosidade do leitor a cada parágrafo lido. Retrata bem um momento histórico do Brasil.

    Nota: 8,0

    Rodrigo Martins

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  3. Texto bem escrito, mas o ritmo não me empolgou. Além disso, não percebi qualquer releitura da história do Brasil.
    Nota 7.0
    Huang Zhan Shin

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  4. gostei da forma que escreveu , gostei de sua ideia.Quem já serviu o exercito sabe como é ser um soldada. como é o sofrimento no exercito, e um cara comunista no exercito no período de caça aos comunistas. a nota é:7

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