Café Literário: O pestanear da estrela


Corremos como nunca havíamos corrido antes. Atravessamos a larga extensão daquele gramado mal aparado, sentindo a relva roçar em nossos joelhos. Não largávamos a mão do outro em nenhum momento, ouvindo o barulho de gritos e sirenes mais atrás, mas nada daquilo importava. Correr, e correr para muito longe.

Estava à frente, guiando-o pelo caminho, eu nem ao menos sabia onde estava indo até observar uma cerca de arame crescer aos meus olhos, assim como prédios geminados de três andares, nas cores amarelas e marrons, em um tom extremamente enjoativo. Meu colégio. Meu antigo colégio.

Lágrimas queimaram em minha retina, fazia anos que eu não pisava naquele lugar, que não andava por aqueles corredores, que não assistia às aulas, ah... Se tudo tivesse sido diferente, talvez eu estivesse em casa agora, deitada de pernas para cima com uma música ecoando alto pelos meus fones de ouvido enquanto segurava O Teatro dos Anjos em mãos e derramando todas aquelas lágrimas que outrora derramei quando o li pela primeira vez.

- Melina... Pare um pouco – ele pediu afobado e eu soltei uma leve risada, porém não diminuí meu passo até chegar à cerca, procurando por um lado em que houvesse alguma abertura. Ao decorrer dos anos, vários alunos, incluindo a mim e a Dante, escavamos entre a cerca de arame. Começávamos na terra, separando-a do solo para em seguida, com alguma ferramenta roubada de algum pai, cortávamos os fios frágeis e já enferrujados. Tínhamos sempre uma passagem e quando voltávamos, colocávamos tudo de volta ao lugar, nenhum inspetor ou professor jamais desconfiou. Além disso, creio que nenhum deles jamais tenha pisado naquele pátio.

- Eu não aguento mais correr.

- Mais um pouco, mais um pouco – murmurei, e acho que ele não me ouviu, pois reclamou mais uma vez, arfando com força. Os sons apenas aumentavam atrás de nós e não tínhamos tempo para parar, era correr ou morrer. Ficar e ser pego. 

Apressei mais o passo e grite uma exclamação de felicidade quando achei a abertura, me agachando o suficiente para passar pelo metal retorcido, sentindo alguns fios do meu cabelo deixados para trás ao enroscarem nas correntes. Ele se abaixou também, tendo um pouco mais de trabalho do que eu, a culpa não era minha que Dante não passava de dois metros desengonçados de altura. 

Atingimos o pátio dos fundos onde havia alguns brinquedos para as crianças menores, todos envoltos em uma grande tigela de areia para que, se caíssem, não iriam se machucar. A partir dai, havia o gramado, com a relva tão grande quanto a que percorremos, onde havia um balanço e alguns bancos. Mais próximo aos prédios, havia o pátio de concreto, ali era o que chamávamos de refeitório. As mesas e bancos de pedra estavam espalhados pelo lugar, já gastos de tantos traseiros que receberam ao decorrer dos anos. Pichações também eram vistas, gravuras nas mesas feitas com algum garfo ou estilete, mas esses objetos eram logo confiscados e desenhos ficavam inacabados. 

Olhar para aquele prédio só me trazia tristeza. As janelas, antes sempre limpas e lustrosas, estavam todas quebradas e manchadas. As paredes já não eram as mesmas, ervas-daninhas cresciam descontroladamente para todos os cantos, além de pichações e manchas negras, manchas que eu não queria saber como foram feitas.

- Nossa... – Dante respirou fundo, parando ao meu lado, segurando novamente minha mão entre a sua – Faz tanto tempo que eu não entro aqui... Porque estamos aqui?

- Eu não sei – sorri levemente, recuperando o ar de toda aquela corrida – Eu vi a cerca e quis vir para cá. 

- Sabe que de nada vai adiantar não é? Além do mais... – outro estampido forte me fez estremecer e apertar com mais força a mão dele contra a minha, sentindo seus dedos suarem. –... Estamos desprotegidos do lado de fora.

- Eu não ligo... Eu não ligo mais. – e eu realmente não ligava, passávamos tanto tempo correndo de tudo, fugindo, nos escondendo, que eu havia chego ao meu limite. Não queria mais olhar para trás com medo do que fosse acontecer, eu queria aproveitar, mesmo que fosse só apenas uma noite de imprudências, eu teria essa noite. – Eu só quero esta noite, Dante... Só esta. 

Ele sorriu levemente de lado, com um jeito único que sempre me encantou e algo se revirou em meu estomago. Ali, parado na minha frente, estava meu melhor amigo, meu melhor amigo desde que eu tomava leite de mamadeira e achava engraçado rasgar papel com meus dedinhos gordos. Dante foi o primeiro menino que me deu um beliscão, o primeiro que eu tomei banho junto (Claro que na época eu tinha apenas dois anos e ele cinco. Creio que foi mais constrangedor para ele do que par mim). Sempre fora ele que estava segurando minha mão de alguma maneira, limpando minhas lágrimas quando estas caiam... E porque eu nunca tive a chance de dizer a ele como eu me sentia? 

- Dante... Eu... – pigarrei, porém ele me interrompeu. Em um brusco movimento, eu estava jogada conta a terra e a grama. A relva ficou no meu formato e no dele, que se deitou ao meu lado. Pelo menos, daquela maneira, estávamos parcialmente escondidos do mundo. E com insetos em nossos cabelos. Eu tinha algo para falar. Era a hora do agora ou nunca, tinha que contar e queria contar olhando em seus olhos. Conformei-me e me aconcheguei ao seu. Não conseguia lhe ver direito, graças à grama, mas sentia seus dedos desenhando círculos na palma da minha mão, fazendo-me sorrir. – Eu preciso te contar uma coisa.

- Me diz quando você não tem algo para me contar, abóbora. – Abóbora, ele me chamava assim desde que pisei em uma enquanto caminhávamos pela feira da cidade, não foi justo, eu era uma criança e estava distraída. 

- Deixa de ser palhaço – consegui empurrá-lo com meu ombro, sentindo-o rir. Voltei à posição original e respirei fundo, mirando o céu estrelado acima de nós. As estrelas pareciam estar tão perto que se eu levantasse as mãos eu poderia tocá-las e sentir toda sua infinidade escorrendo entre meus dedos. Estrelas, cometas, galáxias, todos passando pela minha pele, causando cócegas, e talvez ai eu pudesse entender porque as coisas acontecem da maneira que acontecem. Porque não conseguimos mudar o que já foi feito e o que será feito. Porque não podemos prever o futuro e o que vai acontecer no próximo minuto. Talvez, entre aquelas estrelas, estivesse a resposta que eu esperava ouvir dos lábios de Dante assim que eu me confessasse.

 Como criança, fechei os olhos e desejei receber a resposta em um sussurro em meu ouvido. As estrelas poderiam sussurras para mim. Ou a lua. As nuvens, qualquer um, eu só precisava de um conselho, uma resposta, um sopro de coragem. E por um minuto inteiro eu esperei pacientemente, mas tudo que ouvi foram gritos distantes. Agora não importava qual fosse a resposta que Dante me desse, não teríamos muito tempo para discutir sobre ela. 

- Melina? Dormiu?

- Não, desculpa... Eu... – como o ar podia estar escapando tão rapidamente do meu peito? Eu não era descontrolada daquela maneira e muito menos tinha asma para perder meu fôlego. – Não é realmente contar algo, é confessar algo... Eu... – lambi os lábios, sentindo-os secos; O meu coração parecia uma escola de samba tocando dentro do meu corpo; Eu queria poder pegá-lo para fazê-lo para de se mexer daquela maneira estúpida, aquilo estava me incomodando. – Eu não consigo falar... 

- Dá para se mostrar? – Dante questionou e eu ponderei. Havia mil e uma maneiras em que eu poderia demonstrar como me sentia e talvez aquele fosse o caminho mais fácil, pois Dante não poderia falar nada. Com esse impulso, eu me mexi. 

Levantei um pouco meu corpo e me virei de lado, atropelando as folhas no meio do meu caminho e me vi um pouco sobre Dante. Este me encarou levemente confuso e curioso. Seus lindos olhos refletiam as estrelas a cima e achei que era uma resposta, pois uma delas piscou para mim. Senti um sorriso brotar em meus lábios antes de colidi-los com os dele.

Suaves, extremamente suaves, seus lábios eram doces e eu agradeci por Dante sempre ter uma bala em sua boca. Tinha gosto de tutti-frutti, ou talvez eu apenas achasse isso pois estava com a boca colada contra a dele, a sensação me fazendo formigar desde a ponta dos meus lábios até a ponta do meu dedão do pé. 

Ele não respondeu e por um momento achei que ele fosse se afastar. Seus lábios estavam tensos, mas então eles se entreabriram lentamente e sua língua tocou timidamente os meus. Prontamente eu baixei minha barreira e pude sentir seu gosto, seu real gosto, em sua saliva, em seus dentes, no céu de sua boca. Permiti-me explorar tudo que sempre tive vontade, tudo que sempre quis conhecer e que só podia ver a distancia quando ele falava. O sabor era melhor do que tudo que eu já havia provado. 

Não foi uma briga, não foi uma possessão, foi um descobrimento. Era isso que eu sentia, que era um descobrimento, que nós estávamos nos aventurando de uma maneira intima, que por mais íntimos que fossemos, nunca nos havíamos permitido nos conhecer desta maneira. Levei uma das minhas mãos a sua bochecha, sentindo-a se movimentar enquanto nos beijávamos, nossas cabeças movendo-se levemente. Enquanto meu rosto tombava para a esquerda, Dante ia para a direita em uma sincronia, como se estivéssemos ensaiado aquilo.

Os gritos, agora mais altos do que nunca, pareciam tão distantes que eu não quis parar com aquilo. Nunca. Que derrubassem o céu em cima de nós. Ninguém nos acharia ali... Ninguém nos pararia... Ninguém...

Então ele cortou o beijo e eu resmunguei. Não queria parar com aquilo tão cedo, queria mais do seu sabor, queria mais tudo dele. Queria sentir seu cabelo entre meus dedos, seu calor contra a minha pele, mas era a hora de palavras serem ditas, e por conta disso me mantive de olhos fechados, com a mão ainda pousada sobre seu rosto. 

- Mel... – fechei os olhos com mais força, a queimação começando a subir pela garganta. Eu não iria chorar, não agora.  – Isso... Isso não é certo... 

- Não diz isso... Por favor... – pedi como uma criança e uma teimosa lágrima escorreu entre minhas pálpebras fechadas, maldita, eu não queria parecer tão fraca. Pior, eu não queria encará-lo.

- Não tem como eu não dizer, abóbora, sabe disso – uma das mãos de Dante alcançou meu rosto e eu ri fracamente ao senti-lo limpar a lágrima que escorreu. Que irônico, ele que provocara e agora era ele que a limpava. 

- Poderia não dizer, só esta noite? 

- Porque só nesta noite? Eu teria que dizer amanhã da mesma maneira, eu não posso forçar algo, Melina, sabe que eu não posso.

- Poderia fingir, pelo menos – pedi, abrindo os olhos e me arrependendo logo em seguida. Ele me encarava com pena. Senti como se fosse um chute no meu estomago.

 Levantei-me em seguida, não dava mais para ficar ali, meu coração não aguentava, ele estava subindo pela minha garganta, me sufocando e querendo saltar para fora. AO mesmo tempo, um infeliz rio de lágrimas que se acumulava em minhas pálpebras inferiores. Os soluços que se formavam na boca do meu estomago.

- Eu não posso fingir isso, não com você – ouvi sua voz as minhas costas quando me virei, assim como outro estampido forte que me fez tremer. Suas mãos prontamente pousaram em meus ombros, tentando me consolar, mas eu me chacoalhei, espantando-as. 

- Não me toca agora... Por favor... 

Comecei a andar a esmo, sem saber o que estava fazendo acho que estava andando em círculos, por que às vezes Dante aparecia no meu campo de visão e eu prontamente virava o rosto para o outro lado. Como poderia encará-lo agora? Parabéns Melina, estragou tudo. 

Malditas estrelas e seus conselhos estúpidos. Piscar idiota que vi nos olhos dele. Se ao menos tivessem me contado que aquilo iria acontecer, eu não estaria passando por essa situação de completa humilhação.

Gritos, gritos e gritos. Pelo menos aquilo ocupava minha mente. Impediam de ouvir o discurso interno que berrava: 

“Sua burra! Achava que sua paixonite infantil resultaria em alguma coisa?”

CALA A BOCA. CALA A BOCA.

Eu queria sentir medo daquele momento, eu queria me concentrar nos gritos, queria mover minhas pernas e voltar a correr para longe dali, mas elas apenas só ouviam o comando de “Movimente-se” e não de “Corra, se esconda, se proteja”.

- Melina é melhor nós irmos... Os gritos estão chegando cada vez mais perto – a voz de Dante era carregada de preocupação. 

- Vai você – murmurei. Eu ainda andando e estava começando a ficar tonta, mas quem sabe eu não desmaiava e tudo aquilo seria apenas uma lembrança distorcida em minha mente?

- Eu não vou a lugar nenhum sem você, sabe muito bem disso!

- Pois agora vai! – parei e encarei Dante, deixando algumas lágrimas escaparem. – Eu não vou aguentar te acompanhar agora, Dante, não dá...

- Melina, por favor, não me faz ter que te carregar no colo – ele passou a mão desesperadamente pelo cabelo, nós podíamos ver as luzes atravessando o gramado perto da região em que a escola ficava e não senti medo, não como antes. – Vamos embora – Dante sibilou em um tom mais baixo, com medo que eles nos ouviriam.  

- Eu já disse que você pode ir, eu não me... – outra pancada, e eu pude ver o local em que passamos pela grade voar pelos ares, enquanto um enorme tanque preto atravessava o gramado. Guardas armados o acompanhavam de todos os lados. Em cima do tanque, a pé em sua volta, como se o protegessem, com suas armas potentes em punhos, miras vermelhas apontando para todos os lados, tentando encontrar um novo alto. E o acharam. 

Apontaram diretamente para Dante. Estava escuro, o lugar era mal iluminado, mas pelo azar do destino, nuvens no céu se afastaram e a lua iluminou fracamente o local. Bem onde ele estava. Um ponto vermelho de mira pousou sobre seu peito. E um segundo. Terceiro. Quarto. Iluminavam o meio de seu tronco. 

Minha mente se desligou completamente.

Ele não.

E então eu corri.

E então eu pulei.

E pude ouvir sua voz sua voz gritando:

- NÃO!
Ana Ferreira

Ana Ferreira, 22 anos, nascida em Santos, litoral de São Paulo. Publica em plataforma online há dez anos e teve seu primeiro livro, intitulado Entre Corredores, publicado pelo site Clube de Autores em 2013.

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