Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente




O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. A bateria já não é saudável e ele é feio (mas quem foi que disse que um telefone tem de ser bonito?). As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

Chegou até a mim por acaso. Perdi o aparelho novo pouco antes de o meu pai morrer (especulam que escorregou pelo vaso sanitário depois de uma noite cuja lembrança sumiu também) e não comprei nenhum para substituí-lo. Duas semanas depois, no dia de sua morte, herdei o celular meio sem querer. Foi, portanto, o primeiro bem que passou para o lado de cá.

Com ele veio um novo número, agenda, fotografias, vídeos, gravações de voz, mensagens antigas, essas linhas de história que não costumam receber atenção até você receber a primeira ligação de alguém que não sabia que seu pai morreu.

O tempo deixa um rastro de memória ao preço caro de levar embora bens preciosos. Ficam essas pequenas bugigangas para lembrar o que aconteceu. O porta-retratos torna-se especial, algum restaurante, alguma cidade que você visitou nunca mais será a mesma quando você perder definitivamente a pessoa que esteve ali na sua companhia. O sabor é diferente.

Coisas pequenas ganham valor, súbito. Coisas desprezáveis, até. Parecem manter vivo de alguma forma aquele já partiu. Livrar-se desses objetos é sua nova meta e faz você se sentir matando lentamente a quem desejava estar vivo.

Quando meu avô morreu mandaram abrir o armário e escolher uma lembrança. A espada que embainhou na Segunda Guerra já tinha dono. Sobraram objetos mudos. Revolvi roupas até encontrar o pulôver de que me recordava. Aproximei do rosto e senti o cheiro forte do velho. O suvenir estava escolhido. Aos poucos o cheiro diminuiu, no seu tempo, deixando a sensação de que assim deveria ser a morte, e não um rompimento repentino.

Tenho a sensação de que me livro aos poucos do meu pai toda vez que apago uma mensagem antiga que ele enviou pelo celular, ou que enviaram para ele; toda vez que apago um nome da agenda de telefone; no momento em que encerro seu perfil em redes sociais; quando me desfaço de suas roupas.

Apego-me a essas tralhas que acumulo em forma de mensagens enviadas, mensagens não enviadas, rascunhos, ligações não atendidas, fotografias desfocadas que ele próprio teria apagado se tivesse sobrado tempo, mas não fez e parecem mantê-lo vivo por mais algum tempo. Há uma música que ele compôs e que ninguém ouviu, um vídeo hilário que fez de si quando comprou o celular e usou a câmera pela primeira vez, arquivos que ocupam esse relicário só meu. 

Assim, como um deus seletivo, um déspota, vou forjando a história que desejo, tirando do passado aquilo que não quero – nunca quis – que esteja lá.

Nesse processo encontro o rascunho de uma mensagem que ele me enviaria pouco antes de morrer. Não há nada escrito, não tem o dia ou a hora. Existe apenas o rascunho salvo de uma ideia. A última mensagem que ele enviaria estava direcionada a mim. Não significa nada, porque eu nunca vou saber o que ele queria me dizer. Mas serve para lembrar que ele pensava em mim, não importa o dia ou a hora, a qualquer dia, em qualquer hora.

Não é simples apagar algo assim.
 
Fernando de Abreu Barreto

Fernando de Abreu Barreto nasceu em 1976, no Rio de Janeiro, onde mora até hoje. É advogado e seu primeiro trabalho literário publicado está na antologia de contos de terror “Livro do Medo” (Ed. Orago). Mantém o blog “O Nariz do Fernando”, no qual escreve artigos sobre literatura, música e cotidiano. É autor da novela “A Forma da Sombra”, publicada em 2014 pela Caligo Editora.

Um comentário:

  1. Caramba, Fernando, que texto bonito!

    É estranho como às vezes, as pequenas coisas são as que emocionam mais. Já aconteceu comigo várias vezes, de observar o sorriso de meus filhos, e minhas lágrimas brotarem, porque aquele sorriso, aquele exato sorriso, não acontecerá novamente, nunca mais. Cada sorriso é único, e eu me emociono, porque sei que um dia sentirei saudades daquilo, daqui a pouco mesmo.
    Parabéns pela crônica!

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