Café Literário: Pianíssimo

Roda pião. Na mão do menino o giro soa. Aos céus o olhar ergue. Quente dia quente. Seus dedos escorregam enquanto escorre o caldo do cansaço. Salgado corre. No asfalto queima os pés descalços. Chamuscado pé chia. — Mais um trago moleque. Detrás do balcão tamborila seus dedos em dura madeira. Nota a nota toca sem saber que toca. Dança com o trago. Serpenteia entre os corpos. — Que lerdeza moleque. Em glissando a porta do bar desce. Escorrega para rua. Cai. Caminha no frio asfalto da noite. Fria noite fria. Na casa em flautato compassado toca a virtuosi panela de pressão. Feijão. Pão que com ferro sustenta os famintos. Negros dedos negros. Andejam suas teclas pretas na branca pia. Com os semitons na mão forma sobre papel de pão seu próprio piano humano. Inquietos salpicam seus dedos o branco sal no bife a crispar. Na preta chapa preta. Dorme o barroco anjo em madeira escura em alvos lençóis. Seus dedos vão noite adentro a tocar sem nunca conhecer o piano.

Caio Russo

Caio Russo estuda História na Faculdade de Ciências e Letras em Assis. Atualmente pesquisa História da Arte e Estética, com enfoque em Nova Música do Século XX. Dedica-se a prosa, com predileção pelo conto e crônica. Escafandrista de nascença põe-se a relatar sobre os microscópicos animais, objetos e resíduos que decantam do fundo do lago, a pairar no vidro um instante, antes de nunca mais serem vistos nas preguiçosas e turvas águas dos dias. Escreve para não afogar-se em si mesmo.

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A primeira vez em que eu quase morri

Uma experiência de quase morte não é algo muito fácil de esquecer, sobretudo quando se tem 16 anos. Nessa época, eu era um rapaz latino-americano, franzino e com algumas espinhas na testa. É verdade, era mais do que eu desejava, se é que alguém deseja ter espinhas. Eu era o típico adolescente: cheio de sonhos, impulsivo e medroso. Mais medroso que impulsivo, aliás.

Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

O primeiro bem que meu pai me deixou, meio sem querer, foi seu aparelho de telefone celular. Não é um smartphone, não acessa a internet. A câmera fotográfica integrada tem parcos megapixels. As pessoas riem do aparelho quando são apresentadas a ele, sem saber que ali dentro, naquela caixa preta, está guardada minha pequena herança particular.

"Uma Aventura Perigosa"

Max de Castro é um funcionário público insatisfeito com trabalho e com problemas no casamento. Após uma crise de estresse em pleno expediente, incentivado por um psicanalista em um programa de entrevistas, escreve uma carta confessional, que deve ser escondida e destruída em 24 horas, mas a mesma desaparece, antes que ele pudesse fazê-lo. Começa então o inferno de Max, angustiado pela possibilidade de seus maiores segredos serem descobertos, ou por sua esposa, ou por sua cunhada, a jovem Sophia, por quem se sente fortemente atraído.

Cinema: Frances Ha

Em Frances Ha (2012), Frances (Greta Gerwig) é uma jovem nova-iorquina de 27 anos que não corresponde às expectativas idealistas de uma sociedade que exige do indivíduo o sucesso em questões profissionais e afetivas nessa fase. Ao contrário, como muitos jovens nessa idade, Frances ainda não faz ideia do que, para ela, é ser bem sucedida. O artista francês Eugène Delacroix escreveu em 'Diário' que para se chegar a segurança e maturidade do espírito é necessário passar pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil.
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