Café Literário: O Valor da Vida

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Após a enorme porta, semblantes tristes e preocupados, a ocupar infinitas filas no salão. Todos a esperar... Um ar lúgubre inundava todo o pronto-socorro, não por ter ali seus enfermos, que já eram parte componente de seu cerne, mas por ser um lugar abandonado, cujas vidas rastejavam no infortúnio assoalho do deslembramento e almas perdem-se no abismo que um dia foi o céu dos desesperados.   Os assentos eram velhos e insuficientes, os revestimentos das paredes desmoronavam, não havia vestígios de que ali, mesmo sendo um lugar inóspito, existisse benevolência. Nos próprios servidores transparecia marcas abatidas e semblante impiedosos, os transeuntes comportavam-se sem motivação e clemência alguma. O ambiente era sufocante e o tumulto cada vez maior.

Um pouco mais a frente das bancadas, é possível ver uma pequena porta à esquerda, dando seguimento ao enorme corredor pouco iluminado e com ventilação escassa. No final do corredor ficavam os quartos, a ala feminina, a masculina, e todas as repartições que lhe pertenciam. Ali havia muito movimento. As pessoas iam e vinham a todo instante e pequenos detalhes passavam despercebidos, porém algo me despertou o olhar. Num recanto do corredor uma senhora de idade muito avançada, penso que teria por volta dos 80 anos, não sei ao certo, pois não encontrei em mim coragem para perguntá-la e sei que nela não haveria forças para responder-me. A mulher estava mal acomodada, em uma maca, sem nenhuma coberta que disfarçasse o seu corpo extremamente debilitado, magro e raquítico. As veias roxas destacavam-se nos braços descarnados, a tez pálida ressaltando ainda mais as amuras pra dentro da boca murcha, sem dentição. Vestes humildes e os chinelos de tão usados, desgastados. 

Fiquei observando. Algumas enfermeiras passavam...

- Como se chama? Perguntei de súbito as que transitavam.

-Não sabemos. A pessoa que deu entrada não a conhece apenas a trouxe por piedade. Com um olhar surpreso, respondeu-me apressada à última que passava. 

-Ninguém esteve aqui procurando por ela?

-Ninguém. Resmungou já de costas andando em marcha.

A senhora que agonizava por todo o dia, poucos minutos depois começou a desfalecer... Já não se movia, os olhos e a boca entreabertos, a respiração encurtara. Cada respiração era uma batalha vencida e naquela luta forçada o peito gritava... Isso se deu por longas horas, no limite do tempo os suspiros cessaram, ela silenciou... Sozinha na frigidez de uma incomoda cama, sem ter ao seu lado alguém para segurar sua mão, ou encomendar aos anjos sua alma. Adormeceu... Na espera eterna de uma absolvição que jamais teria.

Nenhuma Indignação! Muitos indivíduos... Absolutamente, não estavam ali! 

Dentre todas as pessoas do salão não havia ninguém para resignava-se ao prenúncio, ninguém para chorar sua morte. Não havia tempo para curiosidades, resignação. Todos mortificados! Eu dentre todos, ensurdecido, derrocado pelo pesar, mas nenhuma ação digna de orgulho fui corajoso para tomar. 

 Aquela cena despertou em mim um pesar... O que fazer com as lembranças de uma vida? Os laços, os amores, os frutos, os sonhos... Somos capazes de deter os sentidos? De apagar o passado? E as remanescentes lembranças dos momentos felizes, os sorrisos, os sentimentos? Esquecer? Fingir talvez... Simplesmente desligar? 

O que somos hoje e o que farão de nós amanham? Onde estamos e até onde iremos? Qual a medida de nossa serventia? Da nossa força, inteligência, vigor? E os filhos, netos, amigos, pessoas humanizadas onde estão? Um minuto e Perde-se tudo! 

E o que construímos? Pois creio que algo há de ficar, ficar ao nosso lado. Retribuição, gratidão ou obrigação?  Logo... Nem o sobrenome, tipo sanguíneo valem mais a pena, se é que um dia valeram. E a recordação? Os sentimentos do passado. Esses se apagam conosco. Então, nada importa mais, deferia-nos restar apenas o direito a dignidade! 

Será que somos objetos de diferente valia? Pra onde foi a nossa humanidade? Somos seres vazios, mas revestidos com a ilusão dos novos tempos, mecanicamente programados para serem ágeis, práticos e impecáveis. 

Desejo profundamente e tento a duras custas me convencer que existem grandes seres trabalhando, se dedicando, investindo em mim, em nós... Mas minha alma, realmente, nada consegue sentir, a minha consciência não vê, e a sensibilidade do meu corpo, nada consegue tocar. 

Continuei ali parado, a meio a todo o caos do universo daquele lugar. Vislumbrando a vida e a morte passando por mim, como o frio e a chuva em dias de inverno. 

Como se tudo fosse mais importante do que o ar que sufocadamente ainda soprava nos meus pulmões, e do que talvez bobamente me causou arrepios que erriçaram os pelos do meu corpo inteiro, mas que por alguns segundo me fez sentir humano, e poder sentir algo... 

Lamentando em silêncio, pela misera senhora e pela pobreza dos nossos espíritos. Fiquei eternamente a esperar minha hora chegar... 

Clamando o ar e a resposta para me aliviar...  

Para nós donos da tecnologia, inteligência, ciência. Qual o valor de uma vida?

Isadora Cristiana

isadorasilva561@gmail.com

Graduanda em Letras e suas Literaturas, experiência em Literatura Brasileira e Língua Portuguesa, escritora com ênfase em textos científicos e literários como poemas, crônicas e contos. Atualmente desenvolve pesquisas voltadas ao Ensino de Literatura e para o Ensino de Língua Portuguesa no Ensino Fundamental II, contemplando áreas temáticas como Educação, Linguística Textual, Aplicada e Letramento.

Um comentário:

  1. Muito bacana, seu texto, Isadora!. Está bem escrito, com um vocabulário bem escolhido, além do tema, bastante atual. Parabéns!

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