Café Literário: O vale dos vermes



Zunindo como os enxames que vagam ao redor das cascas corrompidas espalhadas sobre solo, os disparos clareiam por breves instantes o breu funesto e sem estrelas da noite que lança seu manto sobre o horizonte.

Apesar do firmamento despejar suas lágrimas congeladas tentando amortalhar o mundo de branco, o frio não vinga sobre os vivos, pois as salvas de pequenos sóis raivosos cuspidos pelos grandiosos canhões calcinaram os campos, os lavrando com fogo e metal e dessa forma afastando o abraço gelado. O ribombar das explosões nega a chegada de Hipnos, fazendo os exaustos soldados permanecerem vigilantes quando na verdade desejam a pequena morte redentora de todo fim de dia.

Os uivos dos fogos homicidas se intensificam a cada pirueta das rodas do tempo, assim como o medo de todos os que chafurdam nas covas infectas onde se abrigam. Gritos se elevam junto da lama revolvida pela artilharia e logo depois um miasma de carne carbonizada escapa da chaga criada em Gaia e arrogantemente ignora as camadas de lã das pesadas máscaras de proteção. O cheiro repulsivo recende a uma promessa de morte e ruína.

Fumos coloridos rolam despreocupadamente pela desolação do ambiente como se fossem crianças em folguedos, mas tais revoluções são na verdade um capricho cruel do Ceifador, que parece se comprazer em misturar ínfima beleza em seus horrores maquinados. Cada cor representa uma ignóbil forma de sugar o fôlego da vida do peito dos homens. São sopradas por entes decrépitos, escravos de seus vícios, guiados por uma sanha sem fim pelo metal precioso e que lançam seus moços à moenda da inexistência, a senhora desses vales perdidos de uma nação qualquer.

Meninos cujas vidas foram tomadas em honra de falácias puídas como a honra, o orgulho e o nacionalismo. Embustes que escudam a verdade cínica de que morrerão defendendo o metal das algibeiras de homens ricos cujo único ato digno de nota foi o de terem sido paridos entre outros homens de posses.

Escapando das trevas, as súplicas de um rapaz (quase uma criança) falam sobre sua mãe, dor e morte. Elas se unem as inúmeras preces silenciosas, gemidos e pragas que fogem das bocas mergulhadas no solo escavado. Outro rapaz, por sob a máscara brada aos céus exigindo que lhe sejam mostrados os seus crimes contra Deus, pois assim haveria justificativa para o horror ao qual foi mergulhado. Quando o cansaço finalmente o prostra, ele se deixa quedar enquanto amaldiçoa o Criador e demanda um pedido de perdão Dele.

As garras pesadas do medo pousaram sobre os ombros dos jovens soldados, fazendo os corpos magros e alquebrados tomarem uma aparência doentia e idosa. O peso da incerteza sobre o próximo raiar do dia os deixam curvados, ocupados em contar os grãos da ampulheta, esperando que a sorte, essa senhora caprichosa e má, lhes guie ao fim de seu tempo de engajamento. Aguardam de forma desesperada o momento de partir desse vale onde entre crateras e florestas de metal farpado, tremulam estranhas flâmulas em formato de corpos decaídos cujos olhos vazios e lábios frouxos parecem zombar dos vivos.

Um vale onde o Ceifeiro solfeja um réquiem enquanto caminha entre os restos das conchas dos homens que agora servem de cochos para as aves carniceiras e os enxames de insetos. Os vermes são gordos e felizes nesse vale e como financistas ávidos pela prata, as moscas esfregam suas patas demostrando sua satisfação com os inúmeros repastos jogados aos pedaços na lama invernal.

Repastos cujas famílias aguardam ajoelhadas por seu retorno perante figuras sacras de olhar distante. Famílias que oram pelo retorno de seus rapazes para então novamente se unirem ao redor da mesa em paz. Tolas famílias, tão ou mais néscias que seus rebentos mergulhados na sujeira.

Meninos que agarrados a papéis manchados onde estão impressas as figuras de jovens moças, filhos, pais e mães, sonham com uma era passada, onde a sombra da morte não passava de uma ideia distante, mesmo vaga. Cada fotografia é uma janela para um vale de luz da memória.

Assim que as salvas dos distantes canhões morrem, o grito metálico do apito de comando anuncia a aproximação do fim. É hora dos garotos se jogarem em carga contra o inimigo. O momento de deixar o precário bastião de segurança nesse lugar amaldiçoado e lançar os corpos gastos nos braços do abismo sem fundo da morte.

Os infelizes se apressam em deixar para trás pequenas provas de sua breve existência em forma de cartas de despedida, (na verdade testamentos cheios de amargura e pedidos de perdão por erros jamais cometidos) antes que o instrumento musical por mais uma vez grite. Eles tremem ao fitarem a escuridão além das fossas, pois a certeza de que a luz da aurora beijará suas cascas vazias e arruinadas domina seus espíritos.

O estribilho metálico invade os ouvidos de todos os soldados pela segunda vez e como uma boiada rumo ao pátio de holocausto, se lançam às trevas e elas os saúdam com gritos ritmados do metal incandescente vomitado pelas máquinas do inimigo.

As luzes assassinas atravessam os corpos, cavando poços na carne por onde o rubro da vida escapa velozmente fazendo o brilho dos vários olhos apagarem como círios fustigados pelo vendaval. Poucos metros são palmilhados pelas botas dos tolos bravos antes do sangue macular mais uma vez o chão.

Um rapaz permanece parado na segurança da trincheira, pois seu corpo tornou-se pétreo ante a visão da chacina. Apesar de tentar, seus membros não obedecem a sua vontade, parecem entender que morrer por causa da arrogância e ganancia alheia é uma estupidez. Sem entender muito bem o porquê, ele sente uma esmagadora vergonha de si mesmo e seus olhos se lavam escondidos pelas lentes da máscara. Ele tomba de joelhos e por um longo tempo soluça como uma criança até ser erguido pelo homem que tangeu a boiada humana rumo a um sacrifício sem sentido. O oficial cospe palavras sobre honra, dever e covardia na face do jovem soldado enquanto sacode seu corpo de forma furiosa.

O garoto se solta do aperto do homem e por instantes o fita atentamente. O tempo parece fluir como melado em uma noite de inverno durante esse estudo da figura do assoprador de apito pelo jovem, que ao terminar se lança sobre o oficial, cercando com os punhos sua garganta tentando arrancar o sopro da vida de lá.

Um estampido se faz após um breve clarão e o odor ferruginoso da vida rescende enquanto o tecido da farda do soldado se empapa com o líquido oriundo do ferimento fumegante na cintura. O rapaz cambaleia, mas sacando da baioneta a crava no peito de seu assassino enquanto é crivado por mais três disparos.

O jovem tomba de joelhos na lama espúria e então seu corpo lentamente arqueia para trás, parando assim que seus ombros tocam a imundície. Ele sorri por baixo da proteção contra o veneno que vagueia no ar ao pensar que a fossa onde jaz, será a manjedoura para que nasça no reino dos mortos. Sorri por saber que ali seu corpo morto estará protegido das aves e do escárnio do inimigo.

Lentamente a escuridão invade os olhos, mas antes de mergulhar no oceano da eternidade, ele vê um arremedo de sol surgir sobre as bordas da cova e mergulhar em seu regaço. Entre uma tempestade de chamas nascidas de uma bomba, desaparece no infinito inexistir da morte.

T. T. Albuquerque

T. T. Albuquerque nasceu no Rio de Janeiro em 1980 e aos doze anos mudou-se para o extremo norte do Brasil, onde permaneceu por vinte e um anos. Atualmente vive na cidade do Rio de Janeiro. Escritor amador tenta exprimir sua visão do mundo através de seus textos, que em sua maioria tratam sobre o fantástico e o sobrenatural. Encontrou na literatura uma forma de por alguns instantes, enquanto escreve, se esquecer de si mesmo.

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