Café Literário: Doracina


Ela gostava de vestidos escuros que deixavam seu corpo sem silhueta alguma. Quando houve o suicídio, Doracina não tinha nem 15 anos. Eu tinha a mesma idade e fiquei arrasado. Estava quase morta quando seus pais a encontraram na cama, respirando sofregamente e com os olhos a girar nas órbitas, como possessão demoníaca. Havia tomado uma bebida viscosa que encontrara embaixo da pia. A soda cáustica teve efeito destruidor em seu organismo. Foi uma morte lenta e horrível, que a fez botar as tripas boca afora.

A notícia me tirou da cama rapidamente. Era minha mãe que vinha me contar. Corri até o sítio de Doracina, mas não me deixaram vê-la. Um clima de morte rondava cada uma das pessoas ali. Ecos de choro, lamúrias, ninguém se conformava. Fiquei lá fora, ouvindo os murmúrios de morte que se deixavam ouvir. Seu sofrimento acabou por volta de meio-dia. Eu não estava mais lá. Fugi, chorando, para a cachoeira onde eu e ela sempre íamos nadar.

Passaram-se semanas, meses. Um ano depois, a mãe começou a ouvir música no rádio toda hora; antes, não tínhamos um rádio. Quando ela o ganhou do pai, era a diversão que tinha: enquanto cozinhava, ouvia notícia e a música caipira que tocava sempre. Um dia, eu estava sozinho no sítio. Por volta de meio-dia, caiu um temporal. O rádio estava ligado e sinais de estática começaram a interferir na estação, que de repente desapareceu; no mesmo instante, entre ruídos, outra música surgiu.

Lá fora, o céu a desmoronar e, em meus ouvidos, uma canção diferente de tudo que já ouvira, e que falava de algo triste. “Vai minha tristeza e diz a ela que sem ela não pode ser; diz-lhe numa prece que ela regresse, porque eu não posso mais sofrer”. Meu coração era um poço sem fim e continha toda a tristeza do mundo ali dentro. “Chega de saudade”, o rádio me disse. “A realidade é que sem ela não há paz, não há beleza. É só tristeza e [...] melancolia”. A tempestade pelejava, mas não havia o que temer; havia apenas aquela voz, aquele violão, a janela a tremer e a lembrança perene de Doracina. E o rádio: “Mas se ela voltar, se ela voltar, que coisa linda, que coisa louca”.

Um raio fulgurante riscou o céu, iluminando tudo lá fora; não pude vê-lo, mas vi, pelas frestas da casa, o clarão passageiro que proporcionou. Foi então que a eletricidade acabou por segundos, no mesmo instante em que a calmaria chegou, imensa e mansamente. Silêncio. Não ouvia nada na escuridão daquele silêncio. Nada. A janela tornou a tremer. Também tremi. Um calafrio. A eletricidade voltou e, com ela, a música: “que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim”.

Senti a mão fria em meu ombro, e meu coração se encheu de uma alegria repentina. Fechei os olhos. Doracina estava ali. Sempre estivera. “Não quero mais você longe de mim”, foi o que disse, repetindo as palavras do rádio. Sorri e, de repente, abri os olhos. Minha mãe me sacolejava na cama. Doracina estava mal, muito mal, quase para morrer. Corri feito doido até sua casa.
 
Renato Alessandro dos Santos

Renato Alessandro dos Santos é professor do curso de Letras do Centro Universitário Moura Lacerda e dos colégios Semeando e Objetivo. Faz doutorado em Estudos Literários na UNESP, de Araraquara, e é autor de Mercado de pulgas: uma tertúlia na internet (Multifoco) e da dissertação A revolução das mochilas: de On the road à lenda de Duluoz – a literatura beat de Jack Kerouac. É editor do Tertúlia.Facebook: Renato dos Santos Santos.

Um comentário:

  1. É um loop no tempo?
    É uma premonição?
    Porque do jeito que acaba, quero dizer, que não acaba na verdade, pois não há nada que ele possa fazer para impedir.
    Bom conto :)

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Sobre o apego e as lembranças que escapam lentamente

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