Café Literário: Costurado no pijama


De longe dava para se ouvir o riso das meninas vindo do pequeno salão de beleza que ficava no andar de baixo da grande casa verde água de esquina. Eram as primas, todas enfiadas naquele minúsculo espaço, compartilhando a atenção da cabeleireira, prima mais velha, ou nem tanto, que fazia penteados em uma delas. A cada novo modelo, novo acesso de risadas.
O encontro era movido a bolacha Maria da Todeschini e água da torneira em um copo de geléia. Tanto o copo melado como o pacote gigante de bolacha, eram disputados graciosamente. 
Brincavam todas juntas, arrastando as menores como se fossem bonecas. Finalizavam o dia no salão de beleza da prima, para o lanche das bolachas, o descanso, a entrega das pequenas às suas mães e o “até amanhã”, porque fatalmente o dia já estava terminando e a lua aparecendo e alguma mãe já estava gritando o nome de uma ou duas da turma pelo portão.
Em um entardecer, quase noite mesmo, a brincadeira estava boa dentro do salão. Além das bolachas, havia limonada, feita com limões colhidos do quintal da tia. Uma jarra gigantesca! As meninas tomaram vários copos do suco azedo/doce. Tanto, tanto que precisaram ir ao banheiro antes de voltar para casa. O problema é que o banheiro ficava no andar de cima, na casa da tia e  tinha que dar uma volta enorme para chegar lá. O jeito foi fazer xixi no quintal mesmo. Uma de cada vez, ia até o quintal e agachava-se na grama, tendo a porta aberta para iluminar o caminho, pois já estava escuro.
Quando foi a vez de Nena, ela não foi tão longe, ficou ali bem perto da porta, bem na direção do facho de luz. Estava agachadinha ali, tranqüila, quando olhou para baixo onde estava fazendo o seu xixi e levou um baita susto. Estava em cima de um morcego, pisando na asa dele e molhando o coitado. Quase caiu! E o pior, com o bumbum de fora! Levantou-se meio torta e saiu correndo para dentro da garagem. O grito estava preso na garganta. Quando entrou a prima Bete veio ao seu encontro na porta e perguntou o que tinha acontecido e a polaquinha quase não conseguia falar:
-Fiz xi-xi-xi em ci-ci-ma de um mor-mor-cego e pi-pi-sei nele.
-Credo!Que medo!Isso não presta!Ele não mordeu você?-A prima mais velha ficou realmente assustada –Vamos lá falar com a mãe, acho que isso não presta.
Enquanto isso acontecia, as outras meninas já estavam em volta delas assustadas, como se fosse uma maldição.
Bete leva a pequena e assustada Nena até o andar de cima. A tia Tosia estava descascando batatas, com uma enorme bacia sobre a mesa comprida da cozinha. 
-Mama, Nena pisou e fez xixi em cima de um morcego. – A prima sussurra, como se fosse proibido falar o nome do animal naquela casa.
- Jezus syn Marja! –A Tia benze-se em polonês olhando para algum ponto no teto.- Eu sabia, eu sabia, esta menina, desde pequena, sempre doente, essas feridas que ela tem. Eu sabia, eu sabia. Jezus syn Marja, Jezus syn Marja.
A Tia larga as batatas e sai apressada deixando as duas meninas paradas na cozinha. Elas não arriscam sair do lugar. Nem o pensamento muda de lugar. O medo ficou maior que tudo.
Depois de longos e gordos segundos a Tia volta, arrastando a outra Tia mais velha, que devia estar dormindo, pois os cabelos estavam revoltados na cabeça dela. O mesmo olhar assustado:
-Jezus syn Marja! Vem cá maly, você vai rezar muito hoje. 10 Ave Maria e 2 Padre Nosso, de joelho. Tem que dormir com este saquinho preso no pijama. - A Tia quase centenária fala com sotaque arrastado, segurando a cabeça da pequena e pálida criança, deixando-a mais assustada e nervosa.
Depois, as duas Tias benzem a criança e dão instruções para a prima mais velha levá-la em casa e conversar com a mãe dela.
Nena sai quase chorando. No caminho iluminado pelas poucas lâmpadas da rua, as duas vão em silêncio. Chegando em casa, a mãe recebe as instruções e fica em pânico. Faz menina comer um prato de kluski com carne moída e a leva ao quarto. Primeiro passa a pomada no corpo todo, a rotina noturna, pois ela tem a pele sensível e vive com feridas que se rompem quando ela toma sol. Costura o saquinho fedido no pijama amarelo e a ajuda nas rezas para depois colocá-la na cama.
O saquinho era um preparado secreto, com muitas rezas, e servir como amuleto para pregar a alma no corpo e não deixar que ela saísse durante o sono, pois se isso acontecesse, viraria morcego. As instruções eram para que a mãe NUNCA deixasse a menina dormir sem o saquinho costurado a sua roupa de dormir. Isso foi bem frisado pelas duas tias.
No alto dos seus 7 anos, é claro que a noite foi horrível. Nena não conseguia pegar no sono. Ela não entendeu o que aconteceu. Cremes, benzimentos, rezas, isso ela já estava acostumada. Mas aquela ladainha com a Tia Tosia, mais a Tia velha, isso não. E tudo por causa daquele morcego horrível. Ela não conseguia dormir lembrando-se da cara dele. Daqueles olhos amarelos e aquela boca aberta, vermelha. Virou para um lado, para outro, suava. Dormiu com a luz acesa. Teve pesadelos com o morcego. Ela não queria lembrar, pois sentia muito medo.
A menina tinha aquela doença de pele que lhe dava umas feridas pelo corpo. O médico já havia dito para a mãe que ela teria que conviver com isto pelo resto da vida, e a família levou isso muito à sério, tomando como uma maldição e não como uma doença. Porfíria é uma doença entre parentes que provoca lesões de pele que sangram quando entram em contato com a luz. Vivia com roupas de manga comprida, meias e gola alta. Fora isso Nena era normal. Bem normal, até o dia do morcego.
Nunca mais ela foi a mesma. Tinha pesadelos constantes e frequentemente dormia na cama dos pais ou com a irmã mais velha.
Os anos foram passando, a doença de pele piorou, pois o uso frequente de roupas abafando, e o nervosismo, formavam pústulas que se transformavam em novas feridas e não cicatrizavam nunca. Era pálida, os olhos verdes ficaram amarelados e o cabelo ficou sem vida. 
Quando os dentes da frente caíram, as crianças maldosas da escola começaram a chamá-la de vampira e a menina deixou de falar, para não precisar abrir a boca. Por conta disso, também não dormia, pois os pesadelos com morcegos, vampiros, dentes e sangue a perseguiam.
Os pais estavam ficando desesperados. As Tias chamaram 2 padres exorcistas para rezarem pela menina. Um dos padres trouxe um gatinho cinza em uma caixa, como presente. A amizade com o gato deixou a menina mais fácil de lidar. As noites ficaram mais calmas. Ela dormia com o bichano. A família ficou mais tranqüila.
A menina virou moça arredia. O gatinho virou um gato cinza escuro de poucos amigos. Os dois não se separavam. Ela passou a usar roupas escuras, a andar pelas sombras, a não falar mais que o necessário e nunca sorrir. Terminou o ensino médio com as melhores notas da escola e nem foi receber o prêmio nem o diploma. Dizia que não iria mais estudar.
Vivia na biblioteca, no museu e na igreja velha. Os pais decidiram deixar que ela fizesse qualquer coisa, afinal era uma moça doente.
Nena não foi ao cinema naquele dezembro de 2008, na febre do lançamento da saga Crepúsculo. Nem conversava com as moças do bairro a respeito dos personagens do filme. Assim mesmo todos a apelidavam de filha Dr. Cullen, devido a cor da sua pele, por viver sempre enfurnada em casa e não ter amigos.
Os meninos sacanas do bairro não podiam perder a oportunidade e passaram a desenhar morcegos divertidos nos muros brancos de sua casa.
No início Nena não se incomodou tanto quanto seus pais. Até o dia que um dos meninos conseguiu amarrar um morcego de borracha na janela do seu quarto. Ela levou um grande susto e todo aquele medo que sentiu na infância voltou. Os pesadelos com morcegos, com sangue, com dentes, com os olhos amarelos. Ela não conseguia mais dormir. Ficou doente e foi hospitalizada. Teve uma anemia muito acentuada e precisou até de transfusão de sangue. Foi difícil encontrar o tipo sanguíneo dela e a mãe foi em todos os parentes e vizinhos pedir ajuda. Um primo era compatível e fez a doação do sangue.
Os pais de Nena estavam muito agradecidos ao tratamento feito pelo médico naquele hospital e principalmente pela transfusão de sangue que conseguiram com o primo. A estadia dela no Hospital foi tão benéfica que até curou as feridas constantes que ela tinha. 
Os pais saíram de lá, felizes com a explicação do Dr para a doença da filha. Mas, saíram muito mais preocupados depois da comprovação que a transfusão de sangue curou a filha deles. Ainda estava vivo na mente deles os perturbadores episódios do passado com o morcego, os pesadelos, as feridas na pele branca, a cor dos olhos dela e depois tinha todas as historias da Tia Tosia e da Tia velha.
Quando saiu do hospital, passava horas acordada, andando pelos jardins da casa com o gato no colo.  Às vezes aventurava-se a sair pelo bairro tarde da noite. Os vizinhos começaram a estranhar.
Mais pichações apareceram nos muros da sua casa, agora eram dentes de vampiro e morcegos negros. O pai passava horas pintando e repintando as inscrições.
A situação ficou difícil quando começaram a aparecer cachorros de rua totalmente estraçalhados em um terreno baldio. No começo, os moradores até gostaram, pois aqueles cães andando pelas ruas e latindo à noite só incomodavam.
Algumas semanas depois, alguns cães com coleiras apareceram no terreno, além de pombos e alguns gatos. Os moradores começaram a ficar preocupados, pois a quantidade de animais mortos já estava aumentando muito.
Um dia encontraram 7 cães, 2 gatos e mais de 10 pombos. Pelos pombos eles não se incomodaram, pois esses pássaros eram uma praga no bairro e estavam infestando as casas e transmitindo doenças, mas os cães e gatos com certeza teriam donos, crianças poderiam estar chorando por eles. Reuniram-se os moradores e resolveram montar guarda no terreno baldio para saber quem estava levando as carcaças mutiladas para lá.
Por duas noites ficaram à espreita. Vários homens, com lanternas e paus. Na noite os homens montaram guarda. E eles nada viram. Muito estranho!
Os dias passaram e Nena finalmente melhorou. O tratamento do médico fez um bem enorme para a sua aparência. Sua pele transformou-se completamente do pálido para um rosado, os olhos que eram amarelados voltaram a ser de um verde forte, os cabelos opacos e ressecados, passaram a ficar sedosos e macios e até com balanço apesar de serem finos e lisos como todo cabelo de descendente de poloneses.  Até suas unhas começaram a crescer! Já estava chegando o inverno e nenhuma ferida havia aparecido em seu corpo. Ela estava ficando uma moça de aparência normal. Só aparência. As atitudes continuavam as mesmas.
No bairro, a caça ao matador de animais tinha acabado. Também, nem existiam mais cães de rua e os moradores guardavam muito bem os seus cães e gatos. Serviu de lição para as famílias protegerem seus animais de estimação.
Voltaram a pichar os muros da casa da família. Dessa vez desenhavam Nena, o corpo dela, com as roupas escuras que ela sempre usa e com a cabeça de um morcego.
Uma vez escreveram: “Dalton Trevisan inspirou-se nessa casa”.
E sempre tinha enormes dentes, morcegos e cães mutilados desenhados, além de “Fora vampira”.
Para a família já era normal gastar horas no final de semana pintando o muro e divertindo-se com a criatividade dos pichadores. Não havia o que fazer. Eles sempre voltavam a pintar.
Já havia passado mais de um ano do internamento da moça e ela estava bem. Passava os dias reclusa e à noite saía para passear com seu gato.

O pai chega do trabalho uma noite quando a mãe está sentada na sala com a maleta de roupas que  a filha levou para o hospital um ano atrás, aberta no colo. Ele estranha, mas como queria mostrar uma reportagem para a esposa foi logo falando:
- Olha o que saiu no jornal hoje que estranho, lá no bairro Boa Vista está acontecendo o mesmo que estava acontecendo aqui. Em um terreno baldio apareceram vários cães e gatos mutilados. E daí, olhe que mais estranho ainda. Um amigo me disse que no bairro dele há uns 4 meses atrás também acharam um monte de cachorros do mesmo jeito...Por que você está chorando? O que está acontecendo? O que é isso? – O pai senta ao lado da esposa que soluça e lhe entrega a uma caixinha que tira de dentro da maleta.
Ele pega a caixinha e dentro está o amuleto que as Tias fizeram para Nena quando ela era pequena. Ele lembra que durante anos a menina usou aquele saquinho fedido costurado aos pijaminhas e depois de moça, não dormia enquanto a mãe não o costurasse no pijama ou camisola recém lavada. Só que está cortado e aberto, expondo o seu interior que ninguém nunca soube do que se tratava. E, se ele está nesta maleta, quer dizer que a filha não está usando desde que veio do hospital...
O jornal expondo a manchete dos cães mutilados escorrega de seu colo e fica aberto no chão enquanto ele olha para o amuleto que escancara a cabeça de um minúsculo morcego, de olhos amarelos, boca vermelha, que parece ainda estar vivo mesmo com o passar dos quase 10 anos enclausurado pelos paninhos das tias e pelas rezas.
O pai e a mãe se olham e o que transparece na face deles é um misto de tristeza, desespero e medo. As palavras não cabem ali. Só uma expressão familiar:
- “Jezus syn Marja!”

Neyd Montingelli
neydm@brturbo.com.br                 

www.neydmontingelli.com.br

Neyd Montingelli é casada, tem 4 filhas e um netinho. É formada em Psicologia e em cursos na área de Alimentos, Laticínios e Caprinocultura. O primeiro dos seus 5 livros foi editado em 2007 e agora participa da coletânia Rumos com 7 livros de crônicas. Escreve como colaboradora no site farmpoint.com.br com receitas e histórias familiares e no hipismoeco.com.br/blog/tag com contos sobre cavalos.

Um comentário:

  1. Conto muito bacana! Uma história sinistra e sombria, bem escrita e com vocabulário bem escolhido. Muito bom. Apenas uma dica: para fazer o travessão da fala dos personagens, digite "Ctrl+-", este último sinal, do teclado numérico. Até mais, e parabéns!

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