Café Literário: Sem Fôlego


Acordei sentindo pontadas na minha barriga e no meu rosto, demorei a abrir os olhos, uma luz pálida irradiava do céu acima, percebi que estava deitada em cima de galhos, no que aparentava ser uma floresta. 


Levantei e olhei meu corpo, estava sujo, com manchas secas de sangue no que restavam de minhas roupas, meu ombro ardia e minha perna com câimbras latejava. 

Uma leve tontura me dominou quando tentei firmar com força um dos pés no chão, minha cabeça rodava e eu não fazia ideia do que estava fazendo ali e muito menos como tinha vindo parar em tal lugar, alguns pássaros passaram voando baixo e fazendo barulho. Aonde será que estou? Que lugar é esse? 

O cheiro e o ar da floresta eram plenos, me enchiam os pulmões e chegavam a arder meus olhos provocando pequenas lágrimas involuntárias, tudo muito verde e amplo, sentia minha vista baça e disforme, a dor em meu ombro não me deixava raciocinar direito e pôr o pensamento em ordem, à última coisa que lembrava foi de ter tomado um copo de leite quente e ido para cama dormir.

Será que era um sonho? Poderia muito bem ser, nunca tinha estado em semelhante lugar na vida e acreditava que nem nos melhores ou piores sonhos ou pesadelos, comecei a ouvir passos curtos vindos por trás, me virei, mas não vi nada, mas aquela sensação de estar sendo observada e vigiada permaneceu ficando mais forte e perene.

Podia ser um animal qualquer ali por perto, meu estômago fez ruídos e percebi que estava com fome e com muita sede, meus lábios estavam secos e a garganta começava a arder, mas antes de tudo preciso me aliviar, parecia que tinha tomado um porre por toda a noite e madrugada, a bexiga estava quase explodindo e pequenas gotículas de urina se concentravam em lugares inadequados, encontrei uma moita bem próxima e resolvi esse primeiro problema, porém por Deus e tudo que possa haver de mais sagrado, como vim parar aqui?

Deixa ver o que me lembro de ontem, bem, passei o dia em casa, preparando meu artigo e pela noite Walter veio ter comigo, tirando ele não vi mais ninguém, falei com a mamãe e a Rebeca, mas mais ninguém, será possível que ele me trouxe para cá ou esteja metido nisso? Não, não, isso é impossível, nós vamos casar em breve.

Com um simples gesto levantei minha mão direita e percebi que minha aliança de noivado havia sumido, demorei mais de um minuto pra assimilar a informação, minha cabeça rodava e pulsava como se fosse um ser próprio, autônomo que não obedecia a minha vontade ou ao meu corpo.

Não sabia o que fazer e muito menos para onde ir, completamente perdida e isolada no meio do nada completo e absoluto, será que valeria a pena eu gritar e chamar por alguém ou socorro, pelo silêncio ambiente não deveria haver pessoas por perto em quilômetros. 

Preciso andar e ver se acho alguém, preciso me situar pra saber de fato onde estou, preciso comer e beber senão não terei mais forças, estou ficando tonta de fraqueza, meu Deus como vim parar nesse buraco? 

Finalmente gritei de medo e desespero, chorei ou pelo menos tentei, me ajoelhei, com protestos das minhas rótulas, meu ombro começou a uivar e latejar como nunca, agulhas minúsculas começaram sua dança raivosa no meu braço, primeiro nos dedos da mão e terminando seu ato na clavícula.

Um barulho com eco veio vindo ao longe, me levantei e tentei ver forçando meus olhos no horizonte, minha visão continuava turva e embaçada, tentei correr, mas minhas pernas não queriam e não deixavam, meus pés pareciam chumbo maciço fincados ao solo, o barulho que sentia e ouvia chegava cada vez mais perto de mim, tentei olhar para os lados, as árvores eram grandes e pareciam não ter mais fim, meu desespero aumentava com a maior aproximação daquele som, juntamente com o aumento da minha vertigem, resolvi respirar fundo e tentar correr, ao menos tentar e se não fosse possível me arrastar, sei e senti que precisava com muita rapidez me afastar daquele sussurro estranho e ao mesmo tempo assustador.

Resolvi me arriscar e depositar todo meu ser e toda minha concentração naquele simples e primitivo ato de fugir e escapar de algo que não sabia o que era e nem porque vinha daquela forma até mim.

Apertei o passo e assim mesmo iniciei um trote um pouco maior, mas de nada adiantava, aquilo estava vindo e ficava com o passar do tempo mais próximo, agora tentava correr, mas uma estaca em chamas queimava e deixava em brasas vivas meu ombro, senti que aquilo mais que nunca estava perto, parei e olhei para encarar o que era meu coração veio à boca, uma cachoeira de suor gelado se formou atrás da minha nuca e descia em cascata pelas minhas costas fazendo com que o resto de minha blusa aderisse a minha pele de forma nojenta e asquerosa, todos os meus sentidos juntos e uníssonos me deram o alerta, eu estava em perigo iminente.

Na minha frente vi o maior cão que já havia visto na vida, se aquilo era mesmo um cão, um bicho enorme, largo, de pelo preto e aparentemente imundo, babava pelos cantos da boca e o cheiro de carniça e desejos em alto estado de putrefação e decomposição que emanavam na fera, embrulhou meu estômago e me fez vomitar um liquido azedo e incolor, mas parecia um cuspe viscoso que propriamente alguma coisa mais líquida ou sólida, minha barriga estava oca e minha garganta pegava fogo, meus olhos repletos de lágrimas e aquela fera estava parada, simplesmente me olhando e encarando, rosnando baixo, com salientes dentes a mostra e filetes de uma baba amarelada escorrendo por seu focinho.

Tentei me concentrar nos seus olhos, tentei gritar, tentei de verdade chorar, tentei me mover para algum dos lados e correr, tentei em pensamentos muitas coisas, mas na prática eu não consegui me mover, dobrei o corpo e por alguns segundos fiquei de cócoras até cair de rosto no chão, não via mais nada e muito menos sentia mais nada, por fim, senti uma respiração ruidosa, um bafo nauseabundo e uma respiração entrecortada na minha nuca, algo quente escorreu e desceu pelo meu pescoço, chegando perto da minha boca.

Acordei, meus olhos demoraram a se acostumar ao ambiente iluminado, pisquei e tentei ver onde estava, estava deitada, um tubo estava ligado ao meu braço direito, uma máscara cobria meu rosto, e ao fundo vislumbrei o espectro de Walter que conversava com um homem, todo de branco, percebi que estava em um quarto de hospital, mas porque eu estaria aqui, do fundo da minha mente e da minha consciência veio uma figura preta e enorme, lembrei do maldito cão dos infernos. Eles conversavam em meia voz e não perceberam que eu despertara, resolvi ouvir o que diziam.

-Bom senhor Walter, sua noiva teve outra crise e outro surto, dessa vez foi pior, por pouco conseguimos salvá-la, ela estava jogada na rua e um caminhão quase por um milagre não a atropela, estava com o ombro deslocado e com pequenos cortes, algumas manchas de sangue seco pelo corpo, sangue que pelos exames não é dela e a roupa em trapos, o senhor pode me dizer o que pode ter ocorrido com ela?

- Doutor, minha noiva desde que perdeu o bebê tem tido alguns probleminhas, com aquela primeira crise que o senhor a tratou tão bem e que passou tão rápido eu pensei que não fosse nada de muito grave e até normal, levando-se em conta a perda que tivemos, mas como nosso casamento se aproxima, acreditei que ela superaria e poderíamos ter quantos filhos ela quisesse, mas de uns dias para cá, ela anda meio estranha, passa muito tempo quieta e isolada, mais que na outra vez, tem chorado bastante e não me deixa mais tocar nela direito, ontem à noite a pus na cama, ela estava bastante agitada, servi um leite morno e fiquei perto dela até que se acalmasse e dormisse, depois fui tomar banho e na volta ela não estava mais no quarto, procurei pela casa toda e não a encontrei, então fui para a rua e estava até antes do hospital me ligar atrás dela, passei a noite toda procurando em todos os lugares que pensei que ela pudesse ter ido, fui a policia e estava já completamente desesperado, o que faço agora doutor?


O médico viu que eu não mais dormia e fez sinal ao meu noivo para que o acompanhasse até fora do quarto, antes veio me ver e me deixou com um sorriso cínico nos lábios, quando fecharam a porta, olhei para o lado e na mesinha de cabeceira estava minha aliança, fechei meus olhos, meu coração palpitava, minha mente disparava, minha respiração acelerou, o bip da campainha de emergência do quarto apitou e fiquei sem fôlego, antes da enfermeira entrar correndo no meu quarto.
 

Dejair Martins
dejairmartins@live.com

Sou professor de literatura brasileira e confesso admirador de livros de terror, em especial contos e novelas, gêneros nos quais me arrisco a rabiscar alguns textos.

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