Café Literário: Os sussurros do Castelo de Waltherbuch

  
Já era noite, nada mais se podia escutar por entre as paredes do castelo do Conde de Waltherbuch. Eu era o único hóspede daquela casa, sem contar as pinturas dos ancestrais do conde e as melancólicas relíquias que estavam presentes em todos os cômodos.
 
Passava de mais de meia-noite, há quase uma hora já tinha deitado no quarto de hospedes daquele castelo. Chovia muito e relampejava. Numa casa tão velha qualquer barulho é medonho.
 
Ouvi palmas, era estranho em uma casa tão velha alguém frequentar, ainda mais em uma noite de tanta chuva e relâmpagos.
 
Desci correndo às escadas daquele casarão me dirigindo a porta sem ao menos imaginar o que me aguardava. Quando  cheguei à porta me deparei com um senhor de meia idade, barba alva e calvo, portando  uma cartola e vestindo um paletó preto e uma gravata azulada.
 
- Boa noite senhor!
 
- Quem és tu? Disse a ele tentado esconder meu medo e o meu temor de uma pessoa tão esquisita.
 
- Eu voltei.
 
- Conde. Conde. Não sei o tanto que gaguejei nesse momento, mas sei que foi muito. Mas o senhor morreu.
 
- Creio que não. Disse o conde em um tão altivo mostrando toda a sua magnitude.
 
Não era possível eu mesmo vi o corpo daquele homem jogado por aquelas escadas, eu ajudara a carregar o  ataúde daquele homem e jogara a primeira pá de terra, e ele agora encarnava na minha frente, é uma situação bastante enigmática, estranha e nada comum.
 
Juro não é sempre que os mortos voltam na Europa, ainda mais os condes que enterrara.
 
- Não irá me convidar para entrar, meu caro amigo.
 
- Entre nobre conde.
 
Sinceramente não era o desejo mais sincero do meu coração aquele pedido para que ele entrasse naquela casa, nunca mais queria vê aquele homem na vida, e pior também não queria que ele dormisse na mesma casa que eu, nem por uma noite sequer.
 
Ele entrou e tirou o paletó e a cartola e os colocou sobre uma mesa que tinha na sala daquele castelo. Algo enigmático aconteceu, foi como se todo aquele castelo reconhece a volta de seu senhor, aquele homem tinha poder reconhecido por aquelas paredes. Era como se os pisos e os tetos dos cômodos mofados gritassem, e ao mesmo tempo parecia que sagravam pelo telhado a cada pingo de chuva que caia.
 
O conde entrou sem dizer mais nenhuma palavra subiu aquelas escadas e gritou do alto:
 
- Irei deitar meu ombro depois de cinco anos na cama de meus traidores.
 
Eu sabia o que queria dizer aquelas palavras, mas preferia não interpretar naquele momento.
 
Resolvi voltar a dormir ou pelo menos tentar, não consegui era como se a casa urra-se um choro e um drama envolveram aquele recinto.  Todos os carpetes de meu quarto queriam me engoli e as janelas urravam com o escapar do vento que sai e entrava deixando ainda mais fria aquela casa antiga.
 
Não sei que horas eram creio ser por volta das duas ou três horas da madrugada que já caia pelos montes que circundavam aquela propriedade. Foi quando um urro terrível e maquiavélico tomou todas as almas que estavam vivas por aquele castelo, no caso digo eu e o conde, de repente um silêncio se formou, mas não um silêncio como os outros era um silencio gélido e tristonho um silêncio muito gélido.
 
Todas as taças e relíquias começaram a cair em um coro diabólico, cada uma que caia era um punhal em meu cérebro já conturbado pela presença do conde que nada me agradava.
 
Um canto mortal como só aquele poderia ser fez-se ouvir naquele terrível silencio e apenas ouvi está frase.
 
- A divida será cobrada.
 
Como, mas como o conde pode lembrar-se de algo que acontecera há tanto tempo e era impossível que ele se chegasse aos verdadeiros culpados. Conhecia cada um deles e minha única felicidade agora era não ser eu um deles.
 
O que acontecera há dez anos me martirizava a todos os momentos. Eu tinha sim pena do conde, ele não era uma pessoa das melhores condutas, contudo fora traído por aqueles que ele considerava os servos e os amigos mais leais.
 
Ainda pensava sobre a frase que acabara de escutar, pois as maiorias daqueles que fizeram parte da traição contra o conde estavam mortos, todos sem explicação e agora um homem com a voz do conde a aparência do conde e se dizendo conde aparece-me na porta e toma posse da sua casa, não é algo normal.
 
Comecei a escutar, próximo ao amanhecer o canto doce de um stradivárius que tinha na casa que pertencera ao meu tio avó que dera de presente ao pai do conde. Ninguém tocava violino naquela casa, a ultima tocadora de tal artefato já jazia na terra que era Dona Eleonora, a própria condessa esposa do atual conde. Resolvi descer para vê o que se passava lá embaixo, mesmo com o medo que me envolvia naquele momento tinha que vê o que ocorria. Desci aquelas escadas aos berros e quando cheguei à sala e de novo um silêncio profundo se instaurou pela casa, não sei o que era, mas tudo não tinha mais vida nem cor.
 
Resolvi que era hora de encarar a verdade, vê o que acontecera, decidi que deveria ir à cama do conde e pergunta-lo sobre tudo que havia com ele acontecido até aquele momento.
 
A manhã já se instaurara sobre os montes, subi aquelas escadas, mas não com a pressa costumeira e fui vagarosamente me dirigindo ao leito daquele que voltara. Não sabia o que podia esperar se era o mesmo ou se achava que poderia ser eu o culpado das barbaridades do passado. Entrei sem bater e olhei diretamente para aquela cama, nada tinha naquele local, apenas lençóis bagunçados e alguns pingos de sangue.
 
Não era possível o conde acabara de ressurgir das cinzas e novamente desapareceria no pó que lhe trouxera a vida. Sai procurando por todos os cômodos daquela casa tinha o afinco de descobrir agora como nunca toda a verdade sobre aquela traição brutal. Logo pela cozinha encontrei um bilhete escrito à mão com a grafia um tanto ruim e que como conhecia não correspondia a do conde. Estava escrita em uma tinta avermelhado, creio que poderia ser sangue, mas na hora não pensei em tal probabilidade. “O fim está próximo.”. O fim de quem, quem teria seu fim se todos eles já tiveram seu castigo. Pensei  em sair daquele local não poderia eu encarar a fúria que a mim não cabia, no entanto não poderia sair daquele lugar a mim incumbia cuidar daquele local, eu tinha sinceros amor por aquele local, era o que restara de um passado de glórias de uma família que tinha sua história adormecida naqueles tapetes que ilustravam aquela casa.
 
Onde estaria o conde, voltara depois de tanto tempo e agora de novo desaparecera, e de quem era aquele sangue, será que ele nunca estivera naquela casa? Mil perguntas me atordoavam e me enlouqueciam naquele momento, não podia mais ter certeza de nada a própria loucura já se tornava a minha companheira inseparável e pior eu tinha consciência disso.
 
Onde estaria o conde, isto ia e voltava agoniando os meus pensamentos, se sequer poderia eu de forma limpa e lúcida pensar. Não tinha mais certezas de nada, e tinha numa mansão um conde desaparecido.
 
Decidi que pelo menos por hora não deveria me preocupar com os rumos que tomariam aquele dia, não era minha missão imaginar ou ir à procura de esclarecimentos, esperar era agora a principal, quiçá única alternativa que me restara naquele momento de angustia, cria como se verdadeiramente crer que a verdade floresceria nas figueiras adormecidas daquele castelo.
 
A tarde logo chegaria já se passavam quase onze horas desde o desaparecimento do conde, se sequer ele aparecera, e nenhuma ideia me iluminara nada conseguiria tirar a loucura do meu pensamento, o que será que acontecera naquela noite enigmática. Não havia mais paletó, nem cartola naquela mesa onde na noite que antecedia aquela quase tarde  eu vira o próprio conde repousá-las sobre a mesa e agora só a reminiscência restara.
 
O vento começara há esfriar um pouco mais o ambiente, mas agora em vez de medo e pavor trazia um ar de paz e serenidade. Outro grito fora ouvido por mim, mas desta vez não me apavorou foi um tanto quanto libertado.
 
- Manacage, Manacage. Gritava uma voz com uma passividade excessiva.
 
Quem gritava meu nome, seria por acaso o conde, ou alguém mais que já estava naquele castelo, ou seria por acaso aquelas pinturas horrendas que gritavam meu nome desejando se embebedar de meu sangue.
 
Apesar da passividade que carregava aquela voz sentia eu o pânico carregado daquela noite sombria. Foi quando abri os olhos e vi outros olhos me encarando e me fitando e foi quando uma pessoa que de primeiro não identifiquei que disse:
 
- Acorde Manacage, dormiu demais essa noite, o que houve?
 
- Onde estou? Disse eu totalmente apavorado.
 
- Na minha casa.
 
Olhei ao meu redor e vi que tudo estava em ordem na minha volta, o conde estava em minha presença e fulgurava a seu lado minha amada Luciana, a filha de dona Eleonora.
 
Não sei explicar o que era, como seria possível ele não estava morto e a casa assombrada pelo tempo.
 
Não importa todos estavam vivos e tudo não passara de um sonho ou será que eu é quem estou morto?

Josué da Silva Brito
josuedasilvabrito1998@gmail.com   

              
Josué da Silva Brito, estudante, escritor e poeta. Dedica-se a retratar a vida de formas diferentes visões e patamares em seus escritos. Já fez parte de diversos concursos e antologias e é autor de três livros de poesias.

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