Café Literário: Gui


"Acho que estou vendo coisas", ela disse.

"Vendo o quê?", ele continuou olhando a TV.

"Um anãozinho. Tipo um duendezinho. Estava ali, perto da estante. Quando me viu, correu lá pra dentro."

"Ok."

Ela sentou junto dele e aconchegou-se em seus ombros. Na TV, o apresentador perguntou à criança se ela estava pronta para comer um prato de vermes em troca de um ingresso para o show de uma cantora baiana, com direito a visita ao camarim.

"Claro", respondeu a criança.

"Então pode cair de boca", disse o apresentador. "E bom apetite."

Enquanto a criança comia vermes, o anãozinho passou de novo pela sala.

"Você viu?", ela perguntou.

"Vi."

Ele se levantou e foi atrás do anãozinho. Ela se levantou também.

"Fica aí", ele mandou.

"Toma cuidado."

Ela ficou olhando ele seguir pelo pequeno corredor depois da sala onde estavam. Entrou no primeiro quarto, que eles usavam como escritório.

"Gui?", ela perguntou. "Está tudo bem?"

Ele não respondeu.

"Gui?"

"Está."

Na TV, a criança terminara o prato de vermes e estava pedindo mais.

"Gui?"

Dava para ouvir algum barulho vindo do escritório. Gui estava revirando tudo, procurando o anãozinho.

"Gui? Gui?"

Era costume dele não responder. Dessa vez, porém, ela ficou preocupada. Os ruídos no escritório haviam cessado, e ele não respondia.

"Gui, responde. Por favor."

Quando Gui voltou para a sala, estava diferente. Não olhava para ela. Olhava para o chão.

"Gui, você encontrou o anãozinho?"

"Não."

"Está tudo bem?"

"Não."

Gui caminhou até a janela e a abriu. Passou a perna esquerda para o lado de fora do prédio. Estavam no nono andar.

"Gui, o que você está fazendo? Gui? GUI!"

Gui passou o resto do corpo e se jogou. Ela pôs-se a gritar, chorar, entrou em crise. Na TV, a criança não parava de comer os vermes que, agora, saíam-lhe também pelas narinas e pelos olhos.

Maurício Limeira

Maurício Limeira é carioca, funcionário público formado em História, nasceu em 1969. Desde a adolescência vem escrevendo contos, crônicas, quadrinhos, poemas e peças para teatro, publicando parte desse material num fanzine de quadrinhos chamado Quadrante e, mais tarde, no site que ele próprio editou em 2000, O Cisco Tonitruante (e que encerrou quatro anos depois). Em 1988 teve um artigo dos tempos de faculdade publicado no livro "História e Imagem", organizado por Francisco Carlos Teixeira da Silva, e dois contos publicados na coluna de Cláudio Willer na revista Cult de março de 2005. Atualmente participa do grupo Filmantes, com quem vem realizando vídeos de humor disponibilizados na Internet. Em 2010 publicou o romance de terror O Adversário, e teve o conto O filho da bela mãe premiado no 14º Concurso Literário promovido pela Fundação Ceperj.

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