Café Literário: Saída de emergência


Falavam que agora era possível pedir demissão. Ou melhor, era possível abandonar o trabalho sem avisar. Em um minuto estávamos representando cenas terríveis e, no outro, bastava escolher para onde ir e o que fazer.

Assim que compreendi as regras da nova etapa, optei pelo cinema da cidade e ali passei dezessete dias. Festival de cinema húngaro. Calmo, sem sangue ou psicopatas. Mas foi triste perceber que nada tinha mudado. As pessoas ainda cochichavam num tom que era possível ouvir a poltronas de distância, ainda faziam barulho com suas pipocas e ainda chutavam as pobres almas da frente. A parte boa é que, ao menos desta vez, eu não sentia seus chutes. Pensei em Ivan. Quanto tempo levaria até que saísse de lá?
Muito tempo, provavelmente. Em suas palavras, estávamos mais loucos que o chinês e cedo ou tarde nos arrependeríamos de tentar. De certa forma, eu conseguia compreendê-lo. Homem calmo, pra não dizer chato, passara pela vida sem grandes aventuras. Porque não tínhamos muito tempo para conversar, antes do trabalho, cada encontro era uma espécie de monólogo. Os comentários ficavam para depois, quando o intervalo era ainda menor. A gente nunca sabia como a coisa toda seria interrompida. Foram poucas as vezes que nos encontramos no final do expediente. E quando acontecia, estávamos assustados demais para jogar conversa fora.
— Passei meus últimos vinte e seis anos como professor substituto. Na maior parte do tempo, arquivava livros e tomava o café sem gosto da sala do diretor. Neguei ofertas interessantes na minha área de atuação, a arquitetura, por medo. Se eu arriscasse e não fosse bom, estaria desempregado em pouco tempo e, em menor tempo, ganharia as ruas para pedir comida. Eu, que nunca consegui perguntar as horas aos desconhecidos.
Em nossos primeiros encontros, seus monólogos não me interessavam. O que eu queria mesmo saber era por que estava ali. Ivan foi a primeira pessoa que encontrei, de modo que o enchi de perguntas, sem saber que o tempo das respostas seria curto. Acostumado, respondeu de forma calma.
— Não tem muito o que explicar. Somos material de pesadelos. Só mais um emprego deprimente em uma existência sem sentido.
Na falta de um balcão de informações, essas coordenadas, ditas sem vontade, acabaram servindo.
— Você simplesmente chega e espera em uma sala muito branca. Depois começa. Cada grupo serve quatro pessoas. E aí, é trabalhar. Quando termina, você descansa. Chato, eu sei. Mas essa é a vida, não é mesmo?
— Espera um pouco. Você está dizendo que estou presa em pesadelos estúpidos de um povo que nem conheço? Quem inventou isso? Quero processar o filho da mãe.
Lembrei de todas as lendas urbanas que ouvira na adolescência e me senti tão ridícula quanto me sentiria se parasse em frente ao espelho para chamar a loira do banheiro.
Gostando ou não, a cada porção de horas, embarcávamos nos pesadelos de gente que trocara a vida em outros estados ou países por São Paulo. Como eu, vieram para cá pelas chances de trabalho. Funcionava tão bem que metade da população já era formada por forasteiros. Ou seja, eu entrava em todo o tipo de luta baiana, assassinato árabe, ritual satânico argentino ou sequestro catarinense. Geralmente, éramos o mesmo grupo que servia aos quatro sonhadores. Ivan era o metódico. Eu, a boca-suja. Clara e Rafael, a depressiva e o e ex-ator. Alguns extras participavam em momentos esporádicos. Aparentemente, para trabalhar com sonhos normais e felizes, você deveria ser normal e feliz. Então ficávamos apenas com os pesadelos mesmo.
Com o sumiço de Clara, o boato pareceu plausível. Ela foi a primeira a tocar no assunto. Ouvi por cima, enquanto contava a descoberta para o tapado do Ivan mas, como sempre, ele não teve interesse na conversa e o sonho começou antes que o segredo fosse dividido com os demais. A gente podia improvisar muito pouco em cada pesadelo e neste eu era o maldito bebê. Nem se tentasse, conseguiria articular qualquer pergunta. Para piorar, a mulher que nos sonhava acordou rapidamente e fomos guardados de volta, como bonecas infláveis.
Também não dava para arquitetar nada entre os intervalos. Apenas acordávamos na droga da sala branca para mais uma sessão. Desta vez, com o lunático. Meu preferido, pela habilidade de juntar percussionistas indianos, assaltantes canadenses e bombas escondidas em panelas de pressão. Nós o chamamos de lunático, mas a verdade é que não sabemos muito sobre eles.
Após a partida de Clara, passei a conversar mais com o professor.
— Quando foi que você chegou, Ivan? E como?
— Tá vendo esse safado?, apontou para Rafael.
— O que tem ele?
— 16 de março de 1995. Dezesseis de março... — repete levantando a voz.
Rafael o ignora.
— Eu estava em casa, corrigindo umas provas, meio bêbado, é verdade, e assistindo ao noticiário. Faltou luz. Este bastardo apareceu na tela. Fantasiado de Nostradamus. Ou de qualquer velho de barba branca, gritando que era Nostradamus.
Rafael segura o riso como se lembrasse bem da cena. Ivan prossegue.
— Dizia que estava preso naquela caixa e que, se eu o soltasse, revelaria profecias que me deixariam, no mínimo, milionário e poderoso. Tentei levantar para vê-lo mais de perto, para ter certeza de que não era minha imaginação, mas caí de volta no sofá pois a verdade é que estava completamente bêbado e a sala rodava. Mas esse bastardo seguiu seu discurso grandioso. “Se eu hipoteticamente acreditasse nisto, o que deveria fazer?” perguntei a ele, que respondeu muito sério. “Então você teria que, hipoteticamente, tirar a tomada da televisão. Só isso, cara”.
— Nostradamus te chamou de cara e você não achou estranho?
— Eu já disse que estava bêbado.
— Ok. Conta logo. Já vamos entrar.
— Fui me arrastando, literalmente de joelhos até a parede, sob a supervisão deste moleque. No caminho, bati em uma garrafa de vodka. Molhei mãos, pés, joelhos, mas segui. Até que puxei a tomada. Meus movimentos eram lentos. E de alguma forma, por azar dessa vida sem sentido, encostei na parte de cobre no momento em que a energia voltou.
— Não é castigo suficiente que eu tenha ficado preso aqui? Com você?, diz Rafael já sem tentar segurar as risadas. Ivan parece outra pessoa. Sai de onde está e joga o falso Nostradamus contra a parede. Quando fecha o punho direito, saímos da sala.
Sou o bebê morto. Rafael é a babá. Ivan é a mãe que a cada noite encontra formas de vingar-se da estudante boliviana contratada para cuidar de seu filho. Não deixa de ser um pouco engraçado dada a situação anterior.
O tempo passa e já não sei há quanto tempo estamos aqui. A única certeza é que estou interessada em Ivan. Clichê colegial desgraçado. Decido ser mais adulta e, pelo menos, contar a ele.
— Eu também tenho sentimentos por você, Anne. Mas o que faríamos sobre isso? Passar estes cinco minutos de mãos dadas? Planejar nosso casamento no sonho dos outros?
— Nossa. Que romantismo, hein? Não me admira que tenha morrido só.
— Sou pragmático. Em outra situação, poderia ser o homem que você merece. Mas tenho muito pouco com o que trabalhar aqui.
— Tudo bem, esquece.
Rafael existe como uma espécie de consciência fora do corpo. Não há diálogo sem ele. Não podemos ir para outra sala, discutir a relação que não existe. Somos os três na sala branca. E os eventuais extras.
— Onde está a Clara?, pergunta um deles.
— Sumiu há pouco tempo. Não me pergunte como.
— Então aquilo funciona mesmo, quem diria.
— O que funciona?
— O negócio da luz. Ela não contou a vocês?
— Ela contou ao Ivan. Mas, como sempre, ele estava mais ocupado pensando em seu próprio umbigo. Por favor, conte o que sabe. Preciso sair desse buraco.
— Quando você for à casa dos sonhadores, chame a atenção deles para as luzes da casa.
— Os caras estão de olhos fechados, amigo.
— Eu sei. Mas os olhos movem-se rápido, eventualmente abrem um pouco. É nessa hora que você precisa fazer qualquer coisa que os conecte às luzes.
— Só isso?
— Só isso. Pelo menos, foi o que a Clara falou. Deu certo, não deu?
— Só isso? E eu morri para tirar este infeliz de uma televisão? Vou acabar com você.
Mais uma vez, Rafael é salvo. Agora, pelo chinês que vê demônios e dragões a cada par de dias. Não vejo luz alguma. Os olhos de Ivan e Rafael, dragão e Sun Tzu, respectivamente, também percorrem o quarto. Mas começo a perceber que não é tão difícil manipular o sonhador enquanto andamos pelo espaço paralelo. Sun Tzu mata Ivan mais uma vez.
Enquanto aguardamos o próximo sonho, não puxo assunto com ele. Quero que perceba que me magoou com seu pragmatismo estúpido.
— Rafael, você é o único que não dá a mínima sobre sair daqui.
Não tenho do que reclamar.
— Mesmo assim, você foi o primeiro a tentar sair. O que mudou?
— Quando digo que sou ex-ator, não é porque morri jovem. Antes da overdose, não estava na festa de algum diretor famoso recusando papéis de destaque. Vivia de caridade. Aqui posso fazer o que mais gosto, de uma forma torta, é verdade.
— Mas você tentou voltar.
— E me arrependo. Ouviu, Ivan?
É a vez de Ivan ignorar o colega de trabalho.
Como a canadense já não não tem pesadelos, ganhamos outra cliente. Somos a versão suburbana de qualquer romance proibido. Eu e Ivan. Sozinhos no sonho. Abraçados. É uma sensação estranha, como uma atriz de novela mexicana que acredita na encenação. Vejo claramente o quarto da menina, graças ao abajur de princesa ligado próximo a seu travesseiro. Não parece um pesadelo. Subimos de cargo e é nossa chance de fugir.
— Vamos, por favor?, não sei como é possível, mas desta vez estamos falando. Ou a garota imagina exatamente o que se passa em minha cabeça.
— Eu não posso. Tenho medo.
— De quê?
— Você sabe para onde vai? O que fará ao chegar? E se isto tudo for o fim?
— Não é pior do que isso aqui. Vamos.
— Não vou.
— Tudo bem. Se mudar de ideia... vou esperar.
Vou esperar? Dá um tempo. Torço para que o diálogo seja criado pela menina que aparenta ter quinze anos. Não lembro de ter soado tão piegas até então. Para piorar a situação, beijo Ivan. Envergonhada, faço a garota olhar para a luz do quarto. Tudo acontece rápido e sem explicações, algo com o qual já me acostumei.
Estou nas ruas de São Paulo. Caminho até a banca de jornais e descubro que oito anos se passaram. Após a temporada no festival de cinema húngaro, volto a perambular pela cidade. Não sinto fome, frio ou sono. Por uma ou duas vezes, tenho a impressão de estabelecer contato visual com quem passa.
— E aí, fantasminha, tudo bem?
Acho o termo ofensivo e procuro o dono da voz. Um sujeito de minha idade, que não reconheço.
— Então você pode me ver?
— Claro que sim. Somos iguais.
— Ah.
— Você voltou há pouco tempo?
— Dezessete dias.
— Nunca te vi.
— É um mundo bem grande.
— Você não sabe?
— Não. O quê?
— Não é possível sair da cidade. Você só pode ir até os limites do mapa. Vários tentaram e nada.
— Puta que pariu.
— Pois é. Mas tá ficando divertido por aqui. Muita gente nova. A maioria, do departamento de pesadelos. Você era de qual. Não fala. Deixa eu adivinhar. É... pesadelos, sem dúvida.
— Nossa, que sutileza. Enfim, Você conhece algum Ivan?
— Não conheço, não.
— Bom, preciso ir. Até mais.
Sem ter mais quem assustar, vou à biblioteca e realizo o sonho de uma vida lendo e relendo cada obra, sem pressa. Às vezes, dou uma olhada na prateleira de terror. Tão inocentes se comparadas ao que vivemos naqueles dias. Às vezes sinto falta do velho Ivan. E o pior é que já não posso culpar a garota de quinze anos.
Márcia Lima
lima.marcia.fz@gmail.com  
 

Márcia Lima é jornalista e escritora. Publicou a coletânea de contos Estamos Perdidos Mas Estamos Aqui, pela PorqueSim Editora, e The Black Parade, pela Mojo Books.

Um comentário:

  1. Gostei de seu conto, uma história excelente e bem contada. Mas achei que, devido o desafio se tratar de contos de terror, ele poderia ter um aspecto mais sombrio. Parabéns!

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